De lá para cá, a média é de 12,4 casos ao ano. De janeiro a agosto deste ano, foram 11 cuicídios em Bento Gonçalves. Em depoimento ao Jornal Semanário, a médica-legista do Posto Médico Legal de Bento Gonçalves, Dra. Liane Faccio, defende o diagnóstico precoce e a quebra de tabus
Entre os anos de 2020 e 2026, o município de Bento Gonçalves registrou a trágica marca acumulada de 87 suicídios confirmados, revelam os dados epidemiológicos consolidados obtidos de forma inédita pela reportagem. Embora a curva anual aponte para um recuo expressivo e gradual, recuando do pico de 19 mortes em 2020 para 11 ocorrências registradas ao longo do ano corrente de 2026, a soma total de vidas interrompidas no período expõe uma crise de saúde pública persistente e desproporcional ao tamanho da população local.
A médica-legista atuante no Posto Médico-Legal (PML) adverte que o impacto coletivo dessas 87 perdas em Bento Gonçalves exige o fortalecimento imediato de redes de apoio psicossocial e de programas de prevenção nas escolas, mostrando que por trás de uma tendência estatística de queda ainda reside um cenário de extrema vulnerabilidade que atinge principalmente os homens.
O monitoramento contínuo se faz necessário quando confrontado com os parâmetros internacionais e nacionais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta a média global em cerca de 10 casos por 100 mil habitantes, enquanto o Brasil registra historicamente uma média de oito casos por 100 mil habitantes. No Rio Grande do Sul, contudo, a taxa de mortalidade por suicídio alcança 16,09 casos por cada 100 mil habitantes, praticamente o dobro da média do país. Diante desses indicadores, o volume de ocorrências em Bento Gonçalves reitera o status da região como uma das áreas prioritárias para intervenções de saúde mental do Estado.
A cronologia dos dados
A análise ano a ano das 87 ocorrências ocorridas no município ajuda a compreender a evolução e a dinâmica desse panorama na cidade:
2020 (19 casos): O período analisado abre com o patamar mais alarmante na cidade, concentrando quase 25% de todo o acumulado dos sete anos sob o impacto do primeiro ano da pandemia de Covid-19.
2021 (13 casos): Registrou uma redução importante no ambiente urbano, embora o ecossistema regional tenha sofrido com casos severos de rejuvenescimento de vítimas, incluindo um adolescente de 14 anos.
2022 (14 casos): Apresentou uma sutil oscilação para cima no município, mantendo o alerta aceso entre peritos e autoridades locais.
2023, 2024 e 2025 (10 casos em cada ano): O município atingiu um platô de estabilização, mantendo rigorosamente a mesma taxa por três anos seguidos. Apesar do número estagnado em Bento, o ano de 2025 registrou o limite extremo da dor infantojuvenil na região, com a morte de uma criança de 11 anos.
2026 (11 casos): O ano corrente apresenta, até o momento, o menor índice absoluto de toda a série temporal estudada, indicando que as ações de conscientização começam a consolidar uma trajetória descendente na cidade.
Na linha de frente
Responsável por realizar os exames periciais e acolher a dor de dezenas de famílias enlutadas em Bento Gonçalves, a médica-legista Dra. Liane Faccio traz uma perspectiva humana e técnica urgente sobre o tema. “Como médica legista, eu tenho contato com a situação depois que ela aconteceu. E uma mensagem que considero muito importante é que precisamos olhar para os sinais antes de chegar a esse ponto”, revela.
Com base em sua experiência diária, ela desconstrói a ideia de que o autoextermínio decorra de uma motivação única ou fútil. “O suicídio nunca é causado por um único motivo. Geralmente estamos diante de uma combinação de fatores emocionais, familiares, sociais e, em alguns casos, de transtornos mentais ou situações de crise. Muitas vezes, não é a vida que a pessoa quer perder. É uma dor da qual ela não consegue mais enxergar uma saída. Nós aprendemos a trabalhar com a morte, mas isso não significa que nos acostumamos com ela. Um jovem que morre por suicídio nunca é apenas mais um caso”, explica.
A médica Liane aponta que há um indicador invisível nas estatísticas oficiais que traz esperança: as tentativas de suicídio costumam superar amplamente os suicídios consumados nessa faixa etária. O desenvolvimento precoce de mecanismos de resiliência e da “habilidade de lidar com frustrações” funciona como um escudo protetor determinante para que essas tentativas não engrossem a lista de óbitos.
O desafio oculto da ansiedade e das Redes Sociais
Paralelamente ao acompanhamento das mortes consumadas, os indicadores de sofrimento psíquico dispararam entre as novas gerações. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), escritório regional da OMS, o suicídio consolidou-se como a terceira principal causa de morte entre jovens de 10 a 24 anos nas Américas nas últimas duas décadas.
No Rio Grande do Sul, a demanda por suporte na rede pública escancara a gravidade do problema: os atendimentos por ansiedade voltados ao público jovem cresceram impressionantes 955% em um intervalo de cinco anos. Pesquisadores associam esse fenômeno ao uso excessivo e sem controle de ambientes digitais, ao ciberbullying e ao isolamento social severo.
O reflexo prático atinge em cheio as rotinas domésticas. Boletins epidemiológicos revelam que 68% dos casos ocorrem no próprio domicílio, concentrados principalmente nos turnos da manhã e da tarde, janelas de horário em que as vítimas costumam ficar sozinhas em casa.
Rompendo o tabu
A recomendação unânime de entidades como a OPAS, a OMS e o Ministério da Saúde é enfrentar o tema de peito aberto. O antigo mito de que falar sobre o suicídio poderia induzir ou “dar ideias” a alguém vulnerável foi superado pela ciência médica. “Perguntar diretamente a um jovem se ele está pensando em morrer ou em se machucar não coloca essa ideia na cabeça dele. Pelo contrário: pode abrir espaço para uma conversa e para que ele peça ajuda”, orienta Faccio.
Segundo a médica legista, “também precisamos diminuir o estigma. Sofrimento emocional não é frescura, falta de força ou falta de fé. É algo que precisa ser reconhecido, acolhido e cuidado de forma profissional. Quando nós, como sociedade, rotulamos a dor do outro como vitimismo ou fraqueza, estamos erguendo um muro que impede quem sofre de estender a mão e pedir socorro”, sintetiza.
Área de abrangência do Posto Médico Legal de Bento registra 146 suicídios desde o ano da pandemia, em 2020
O dado, que engloba a sede e outros 22 municípios da Serra Gaúcha, revela uma realidade alarmante: após oscilar na faixa dos adolescentes nos últimos anos, a idade mínima das vítimas atingiu o patamar mais precoce do período histórico recente, com o registro da morte de uma criança de apenas 11 anos.

Uma realidade dolorosa e silenciosa bate à porta das comunidades da Serra Gaúcha, exigindo atenção imediata de autoridades, educadores e famílias. Dados oficiais do Posto Médico-Legal (PML) de Bento Gonçalves, segundo a médica Liane Faccio, revelam que a região registrou 146 suicídios desde o ano de 2020. Mais do que a frieza do indicador estatístico, a análise histórica das ocorrências traz à tona um fenômeno profundamente preocupante: a vulnerabilidade cada vez mais precoce de crianças e adolescentes da região.
O PML de Bento Gonçalves é responsável pelo atendimento de uma vasta e próspera área que compreende a sede e outros 22 municípios do entorno: André da Rocha, Barão, Boa Vista, Coronel Pilar, Carlos Barbosa, Cotiporã, Fagundes Varela, Garibaldi, Monte Belo do Sul, Nova Araçá, Nova Bassano, Nova Prata, Paraí, Pinto Bandeira, Protásio Alves, São Pedro da Serra, Salvador do Sul, São José do Sul, Santa Tereza, Veranópolis, Vista Alegre do Prata e Vila Flores. Em comum, essas cidades agora compartilham o desafio de enfrentar uma crise oculta de saúde mental.
A queda na idade das vítimas
O indicador que mais choca os investigadores e profissionais de saúde é a idade das vítimas mais jovens a cada ano.
O levantamento do PML detalha uma regressão linear assustadora na faixa etária inicial dos registros, mostrando que o problema tem atingido pessoas em pleno desenvolvimento escolar e infância.
Em 2020, a vítima mais jovem registrada tinha 27 anos. No ano seguinte, o índice sofreu um recuo abrupto, registrando uma perda trágica aos 14 anos.
No ano de 2022, a menor idade registrada foi de um jovem de 17 anos. Um ano depois, a vítima de menor idade tinha 20 anos. Em 2024, o dado voltou a recuar para o ambiente da adolescência, com uma ocorrência aos 15 anos. No ano passado, o ápice do sinal de alerta da série histórica foi atingido com o registro do falecimento de uma criança de apenas 11 anos.
A oscilação e o rejuvenescimento gritante das idades mínimas, saindo da casa dos quase trinta anos em 2020 para a infância em 2025, quebram o antigo mito de que o sofrimento extremo estaria ligado apenas a crises severas da vida adulta ou à solidão da velhice.
O reflexo na comunidade
Profissionais da área da psicologia e psiquiatria que trabalham nesta área médica apontam que municípios de colonização tradicional, como os que compõem a Serra Gaúcha, muitas vezes enfrentam barreiras culturais para dialogar abertamente sobre frustrações, depressão e ansiedade.
A pressão por desempenho socioeconômico, o isolamento agravado pelas redes sociais e o adoecimento familiar são apontados como fortes catalisadores desse cenário.Para assistentes sociais que atuam na região de Bento Gonçalves, os dados do PML são um chamado urgente para que o ambiente escolar e os postos de saúde locais estejam instrumentalizados para identificar os primeiros sinais de ideação suicida, automutilação e depressão infantojuvenil.
Especialistas do IML no Estado reforçam que a prevenção não se faz mais apenas em consultórios, mas sim criando redes de apoio ativas onde o jovem passa a maior parte do seu dia. O desafio que se impõe às 23 prefeituras que dependem do polo de Bento Gonçalves é unificar forças. A dor que antes ficava restrita ao luto das famílias sobreviventes agora se impõe como um debate público inadiável para preservar o futuro da juventude da Serra Gaúcha.
O panorama crítico
A preocupação manifestada na microrregião de Bento Gonçalves reflete um problema histórico e crônico de saúde pública em escala estadual.
O Rio Grande do Sul mantém, tradicionalmente, uma das maiores taxas de mortalidade por suicídio do país. Segundo dados consolidados pela Secretaria Estadual da Saúde (SES-RS), entre os anos de 2015 e 2023, o índice de óbitos por essa causa saltou 47,7% no território gaúcho, atingindo o pico da série histórica ao registrar 16,07 casos para cada 100 mil habitantes.
Nos anos subsequentes, a média permaneceu alarmante, somando mais de 1,5 mil mortes anuais, o equivalente a cerca de quatro vidas perdidas dessa forma por dia no Estado. Os relatórios epidemiológicos da pasta estadual reforçam um padrão de gênero e comportamento: em todo o Rio Grande do Sul, cerca de 80% das vítimas que chegam ao óbito são homens. No entanto, os pesquisadores apontam para um “paradoxo de gênero”, uma vez que as mulheres lideram significativamente as notificações de ideação e tentativas de autoextermínio, demandando uma atenção redobrada das redes de acolhimento psicossocial locais. Especialistas alertam ainda que, além de fatores culturais e da forte pressão social, os impactos psicológicos de médio e longo prazo decorrentes de eventos climáticos extremos recentes no Estado também acendem novos sinais de alerta nas planilhas de monitoramento da saúde mental.
O desafio da saúde pública
O avanço silencioso e devastador das estatísticas de suicídio entre a população jovem acendeu o sinal de alerta máximo para as autoridades de saúde no Brasil. O fenômeno, acentuado na transição de 2020 para os anos pós-pandêmicos, mostra uma curva continuamente ascendente que vai na contramão da tendência global de queda observada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Estudos recentes da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam que a taxa de mortalidade por suicídio na faixa etária de 10 a 24 anos vem sofrendo um incremento preocupante de 6% ao ano no país. O salto mais expressivo reflete-se nos dados epidemiológicos do Ministério da Saúde, que consolidaram o ato como a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos.
Historicamente, os Estados da Região Sul registram as taxas mais elevadas do país de lesões autoprovocadas intencionalmente no território nacional. Fatores socioeconômicos, o isolamento social severo iniciado em 2020 e a superexposição ao ecossistema digital estão entre as principais causas apontadas por especialistas para a deterioração da saúde mental infantojuvenil. Além disso, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identificou em levantamentos recentes que um número alarmante de estudantes relata ideações de autolesão ou sentimentos severos de desesperança.
Onde buscar ajuda?
Se você ou alguém que tu conheces precisa de apoio emocional, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV).
O atendimento é gratuito, confidencial e funciona 24 horas por dia através do telefone 188. Além do acolhimento por telefone, o fortalecimento de redes de apoio locais nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do Sistema Único de Saúde (SUS) desempenha um papel crucial na prevenção, oferecendo tratamento psiquiátrico e psicológico gratuito à comunidade.




