Sábado, 12 de Setembro de 2026

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Linha De Mari segue a rotina enquanto recupera áreas atingidas pelos deslizamentos

Na zona rural de Bento Gonçalves, a Linha De Mari está localizada entre os distritos de Tuiuty e Faria Lemos, nas encostas do Rio das Antas. A localidade é formada por diversas famílias, com predominância de produtores de uva e também criação de animais. A paisagem, embelezada pelo rio e pelos vales, também guarda mudanças ocorridas ao longo das últimas décadas e consequências deixadas pelos eventos climáticos de maio de 2024.

História

Vanice e Luciano com a filha Lívia, moradores da Linha de Mari

A origem do nome da localidade está ligada à presença da família De Mari na região. Morador da Linha De Mari desde que nasceu, Luciano De Mari conta que a história foi transmitida pelo pai e pelo avô. Segundo ele, inicialmente a localidade não tinha um nome definido. “O que eles contavam é que, no início, a Linha De Mari não tinha nome. Como a família De Mari era predominante na região, meu tio-avô e outros familiares foram até a prefeitura para propor o nome, e ficou Linha De Mari ”, relata.

Moradora da localidade há dez anos, quando se mudou de Veranópolis após o casamento com Luciano, Vanice De Mari fala sobre a convivência entre as famílias e a proximidade entre os vizinhos. “Aqui é tranquilo, é um lugar agradável. Tem bastante gente, então não nos sentimos sozinhos. Quando precisamos de alguma coisa, tem os vizinhos para quem recorrer”, conta. A tranquilidade e a boa relação entre os moradores são apontadas de forma unânime pelos entrevistados pela reportagem como características da localidade.

Produção

Vanice conta que veio de uma comunidade de Veranópolis com características diferentes. Segundo ela, o local onde vivia anteriormente era menor, enquanto a Linha De Mari reúne um número maior de famílias e concentra uma produção significativa de uvas. Por isso, considera necessário que a infraestrutura acompanhe as características da localidade.

Parte da estrada recebeu asfalto neste ano, medida que, para Vanice, facilita o transporte da produção. Ela espera que o serviço tenha continuidade. A moradora também cita a necessidade de ampliar a rede trifásica, que ainda não chega à propriedade onde vive e poderia auxiliar no funcionamento das máquinas utilizadas no trabalho rural.

Outros serviços

A localidade conta com abastecimento de água da Corsan, além de sinal de telefonia e acesso à internet. Na educação, as crianças da região frequentam a Escola Municipal de Ensino Fundamental São Valentim, no distrito de Tuiuty. O deslocamento é realizado diariamente por um ônibus municipal, que passa pela localidade para buscar os estudantes.

Ajuda do governo não chegou no produtor

Volmar Torresan mora na localidade vizinha, em São João Nepomuceno (Foto: Jornal Semnário)

Os eventos de maio de 2024 atingiram propriedades da região e provocaram perdas na produção rural. Na propriedade de Vanice e Luciano, que trabalham em sociedade com vizinhos, uma área de mais de três hectares foi atingida por uma barreira. A casa da família não foi atingida, mas parte dos parreirais foi perdida. “Além de não receber mais o valor dessa uva, ainda tivemos que investir em parreirais novos. Foi bastante investimento e trabalho”, conta Vanice.

A recuperação da área exigiu investimento próprio da família.

Na propriedade de Antônio Marin, foi perdido 1,2 hectare de parreiral durante os deslizamentos. Para retomar a produção, foi necessário retirar o barro, limpar a área com máquinas e esperar que o solo secasse antes de iniciar o replantio. “Tivemos que esperar um ano até enxugar a terra. Depois tivemos que comprar tudo, porque não encontramos mais nada que ficou embaixo. Sumiu tudo”, conta.

O produtor afirma que os recursos para a recuperação vieram de financiamentos. Entre as alternativas utilizadas, cita uma operação com rebate de 25%, uma linha com juros zero por meio de recursos de uma cooperativa e o programa Terra Forte, do Governo do Estado. Parte dos recursos precisou ser destinada à adubação e à conservação do solo, além de atender às exigências previstas no projeto.

Mesmo com o replantio, a área ainda não voltou a produzir. Antônio explica que foi necessário deixar o terreno parado durante um ano devido à quantidade de barro acumulada. Depois do plantio, as novas parreiras ainda precisam de tempo para crescer antes de iniciar a produção. “Vai ser um ano para os parreirais subirem e ficarem prontos. Depois, mais um ano para começar a colher. Se der bem, tomara a Deus que tenha boas temperaturas”, afirma.

Marin relata que as estradas foram reparadas após os estragos, mas ainda há trechos que precisam de manutenção.

Segundo ele, a passagem de patrola e a colocação de terra ajudaram na recuperação dos acessos. Ainda assim, um trecho atingido por uma barreira necessita de brita para melhorar a base da estrada e evitar que a água provoque novos danos. “Nós não conseguimos. A prefeitura teria que fazer esse serviço”, explica.

A situação se repete em São João Nepomuceno, localidade vizinha à Linha De Mari. No último fim de semana, o prefeito Amarildo Lucatelli esteve no local para conversar com os moradores. Segundo Volmar Torresan, nesta semana alguns reparos estavam sendo realizados na localidade.

Volmar relata que as enchentes provocaram perdas e também afetaram o acesso a serviços básicos. “Era um aguaceiro que vinha dos morros, a gente ficou com medo. Ficamos um monte de tempo sem luz e perdemos os freezers de carne. Desceu uma barreira, que levou um parreiral até o rio”, conta.

Depois dos estragos, a família registrou as perdas, mas, segundo Volmar, não recebeu recursos referentes aos prejuízos. “A gente se inscreveu em um monte de programas para tentar recuperar as perdas, mas não conseguimos nenhum centavo”, conta.

Gerações dedicadas ao trabalho na lavoura

A história de Antônio Marin também se mistura à trajetória da Linha De Mari. Aos 74 anos, ele conta que nasceu ali e permaneceu ao longo da vida. Ao lado da esposa, Angela, construiu a vida na propriedade, onde a família mantém a produção e a criação de animais. Segundo ele, o caminho foi de trabalho e pela necessidade de persistir diante das dificuldades. “Eu sempre vivi aqui. Gostamos da cultura. Temos as parreiras aqui de cima e agora o meu filho vai evoluindo. E assim a gente vai indo”, conta.

A vida construída na propriedade também envolve diferentes gerações da família. Hoje, Antônio e Angela vivem ali com o filho, Sidnei, a nora, Marisa, e as netas Luísa e Laura. Luísa, que acompanhava a conversa, já participa das atividades do dia a dia e afirma que pretende permanecer no local. Entre as tarefas, ajuda o avô na ordenha das vacas.

Ao relembrar 2024, Antônio se emociona ao falar dos acontecimentos e das pessoas próximas que perdeu durante a tragédia. Entre as vítimas, estava um casal que vivia nas proximidades e era amigo da família. As lembranças se somam às perdas enfrentadas pela propriedade e ao processo de reconstrução que ainda faz parte da rotina.

Trabalho em família

A relação de Sidnei com o pai é de trabalho conjunto na propriedade. Para ele, Antônio é uma referência nas decisões do dia a dia, principalmente pela experiência acumulada ao longo dos anos. Essa importância ficou ainda mais evidente em um período em que o pai precisou se afastar temporariamente das atividades para fazer fisioterapia. Sem a presença dele no trabalho, Sidnei percebeu o quanto a experiência de Antônio fazia parte da rotina da família. “O pai é o nosso guia. Toda vez que a gente tem uma dúvida, está acostumado a trabalhar junto e sabe que ele vai estar ali para perguntar como fazer. A gente nem percebe o quanto ele representa para nós. Ele sempre foi caprichoso, detalhista, gosta das coisas bem feitas e bem acabadas. É algo que eu aprendi com ele”, conta.

Além dos ensinamentos do pai no trabalho, Sidnei também lembra da dedicação da mãe às atividades da casa. Angela mantém a produção de queijos, uma prática que, segundo ele, é realizada pela família desde a geração da avó. O cuidado com a casa, o pátio e os arredores também faz parte da rotina mantida por ela. “Minha mãe não para. Ela acorda antes de todo mundo e quase sempre é a última a dormir, porque tem os queijos dela. Isso sempre foi feito aqui em casa, desde a minha avó. Todo o trabalho dela de manter a casa limpa, organizada, o pátio e os arredores também é algo que a gente tem aqui”, afirma.

O trabalho compartilhado entre Antônio, Angela e os filhos mantém na propriedade práticas que atravessam gerações. Para a família, a presença dos mais jovens também abre a possibilidade de continuidade das atividades no campo.

Duas irmãs e uma vida compartilhada

Simone Zmieski, ao centro, acompanha as irmãs Dominga e Onorata De Mari (Foto: Jornal Semnário)

A história da localidade também aparece nas lembranças de Dominga, de 91 anos, e Onorta De Mari, de 94. As duas são irmãs e vivem na região. Segundo Simone Zmieski, que trabalha cuidando delas há quase um ano e meio, as duas costumam lembrar do período em que participavam mais ativamente da comunidade.

Simone mora em São João Nepomuceno e passa a semana na casa das irmãs em função do trabalho. Ela conta que as duas falam sobre a época em que a comunidade era mais ativa e sobre o trabalho que realizaram ao longo da vida. “Elas falam que trabalharam muito, ajudaram na comunidade, na roça e nos parreirais”, relata Simone.

Família e convivência

As duas irmãs se casaram com dois irmãos e, depois do casamento, as duas famílias passaram a viver juntas na mesma casa, na localidade. Cada casal teve dois filhos, que cresceram mantendo a convivência com as tias e os primos.

Hoje, as duas irmãs são viúvas e permanecem na comunidade. Aos finais de semana, recebem a visita dos filhos e dos demais familiares, mantendo a convivência construída ao longo dos anos. “Durante as enchentes, acho que elas ficaram um mês ou dois lá para cima, mas não quiseram ficar na cidade”, explica.

Boa convivência

Para Simone, que vive no local há quase 20 anos, a relação entre os moradores permanece como uma das características do interior. Ela aponta a tranquilidade e a proximidade entre os vizinhos como aspectos presentes no cotidiano. “É tudo de bom. É calma. A gente se dá bem com todos os vizinhos e ajuda quando alguém precisa.”, afirma.

A aposentadoria traz um antigo morador de volta

Amarildo De Mari retornou à localidade após se aposentar (Foto: Jornal Semanário)

Depois de deixar a localidade em 1983, Amarildo De Mari voltou a morar ali há um ano, após se aposentar. Durante a vida profissional, trabalhou como motorista e decidiu retornar ao lugar onde cresceu. Atualmente, mantém um vinhedo na propriedade e mora sozinho, enquanto a esposa vai ao local de vez em quando.
“Eu moro aqui há um ano, mas me criei aqui. Fui embora em 1983 e voltei agora, faz um ano. Voltei porque me aposentei. Trabalhei sempre como motorista e agora prefiro ficar no interior. Tenho um vinhedo aqui também”, conta Amarildo.

Sobre a infraestrutura da localidade, considera que a situação está boa, embora a falta de água seja um problema frequente. Segundo ele, o abastecimento pela Corsan tem interrupções recorrentes.
“Por enquanto está bom. A Corsan que tem problema, que falta água todo dia. Todo dia tem mensagem que falta água”, afirma.

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