Bento Gonçalves já registrou 755 fraudes virtuais este ano, o que representa uma média de 3,11 vítimas por dia. No Rio Grande do Sul, são 48.168 crimes registrados neste ano. Aproveitando-se da vulnerabilidade do sono e da confusão típica da madrugada, quadrilhas especializadas em trapaças telefônicas miram prioritariamente idosos, simulando falsas emergências com parentes em apuros para impedir que as vítimas cheguem a confirmar os fatos com o restante da família
O cerco noturno aos bento-gonçalvenses, principalmente os mais idosos, não se restringe aos falsos sequestros: ao cair da noite, as investidas criminosas por ligações, WhatsApp e redes sociais mudam para falsas centrais de segurança de bancos alertando sobre fraudes inventadas ou para anúncios atraentes de veículos em plataformas na internet, armadilhas desenhadas para arrancar transferências bancárias e Pix sob o pretexto de socorrer parentes em supostas emergências. Criminosos estão usando o telefone para aplicar um golpe muito realista de falso sequestro de familiares que já fez muitas vítimas em Bento Gonçalves.
Um dos exemplos mais recorrentes é o “golpe do falso funcionário de banco”, onde o crime engana as pessoas, através de um telefonema. Ao ligar para a vítima, os criminosos colocam até aquela música de espera igual à do banco. Eles, inclusive, confirmam dados reais da pessoa, como nome, CPF, endereço e o nome de parentes.
“O telefonema parecia ser mesmo de um banco”
Uma aposentada de 67 anos, iniciais M.H.S, moradora do bairro Licorsul, perdeu R$ 8 mil nessa armadilha. Os golpistas ligaram, no início da noite, dizendo que o cartão dela tinha sido clonado. Depois, mandaram ela transferir o dinheiro para uma suposta “conta de segurança”.
“Eles sabiam tudo sobre a minha pessoa, datas de nascimento e até os nomes dos meus pais. O telefonema passou tanta confiança, e a abordagem parecia tão segura que eu só fui perceber o erro após o prejuízo”, relatou.
“Minha filha chegou na hora. Eu quase fiz o Pix”
A vulnerabilidade emocional diante do chamado “golpe do falso sequestro” quase fez mais uma vítima. A diariasta de iniciais A.S.S, de 57 anos, moradora do bairro Ouro Verde, viveu momentos de terror na madrugada ao receber um telefonema em que uma voz idêntica à de sua filha chorava, dizendo estar amaeaçada por criminosos, e então um homem pegou o telefone e exigiu o pagamento imediato de R$ 1,5 mil.
O depósito via Pix só não foi concretizado porque a jovem chegou em casa no exato momento da extorsão, interrompendo o avanço do estelionato que se valia do desespero da mãe. “A voz da mulher no telefone era idêntica à da minha filha. Tomada pelo pânico, abri o aplicativo do banco e quase enviei o dinheiro. Foi quando minha filha chegou em casa”, revelou.
“Fui vítima do falso empréstimo pelo telefone”
Mais um cidadão tornou-se vítima do sofisticado golpe do falso empréstimo consignado ao acreditar que tratava de uma proposta legítima de redução de juros. O lesado de iniciais J.A.S, 71 anos, morador do bairro Progresso, relatou a precisão dos criminosos ao telefone: “me ligaram, por volta das 21h, oferecendo uma redução de juros no meu empréstimo consignado. Passaram todos os dados do meu contrato atual, parecia um atendimento oficial. Mandaram um link para assinar digitalmente e validar a troca”, explicou.
O desfecho revelou o prejuízo financeiro e o impacto de longo prazo deixado pelos estelionatários: “Na verdade, pegaram um novo empréstimo de R$ 6 mil no meu nome e sumiram com o dinheiro”, contou.
“Fiquei sem o carro e perdi o dinheiro”
Mais um consumidor foi vítima do golpe do falso intermediário de vendas ao tentar comprar um veículo seminovo pela internet. Atraído por uma oferta vantajosa, a vítima, identificada pelas iniciais V. A, 29 anos, representante comercial que reside no bairro Maria Goretti, realizou uma transferência bancária como garantia do negócio antes de perceber que tratava de uma fraude.
“Vi o anúncio de um carro usado na internet por um preço ótimo. Era por volta das 20h, então eu liguei para o vendedor, que na verdade era um intermediário golpista. Ele me convenceu a fazer o pagamento de R$ 2 mil para garantir o negócio. Quando fui ao local ver o veículo, no dia seguinte, o verdadeiro dono nem sabia do anúncio. Fiquei sem o dinheiro e sem o carro”, relatou a vítima.
“Era um número novo com a foto do meu filho”
Uma moradora do bairro Fenavinho, em Bento Gonçalves, foi a mais nova vítima do golpe do perfil falso no WhatsApp, sofrendo um prejuízo financeiro após criminosos se passarem por seu familiar. A costureira de 61 anos, identificada pelas iniciais T.C.M, recebeu mensagens urgentes de um número desconhecido no telefone, às 22h, que utilizava a foto de seu filho, solicitando valores para o conserto de um automóvel. “Meu celular tocou e era um número novo com a foto do meu filho no perfil. Na mensagem de voz, uma pessoa com tom urgente dizia que o aparelho antigo tinha estragado e que precisava pagar o conserto do carro na oficina mecânica urgente. Enviei R$ 1,5 mil pelo aplicativo. Só descobri o golpe no outro dia, quando o meu filho verdadeiro voltou do trabalho”, desabafou a moradora.
O caso serve de alerta para a comunidade bento-gonçalvense sobre a necessidade de sempre confirmar a identidade da pessoa por ligação convencional ou chamada de vídeo antes de efetuar qualquer transferência.
“Acreditei que era uma ligação do banco”
Um motorista de 48 anos, de iniciais G.P.I, morador do bairro Conceição, em Bento Gonçalves, teve um prejuízo de R$ 10 mil após ser alvo do golpe da falsa central de segurança. Os criminosos ligaram para a vítima, por volta das 19h, se passando por funcionários do banco e simularam uma compra suspeita para convencê-la a entregar o cartão magnético. “Ligaram dizendo que meu cartão havia sido usado em uma compra suspeita de R$ 4 mil em outra cidade. Para cancelar, pediram que eu digitasse minha senha no teclado do telefone e entregasse o cartão cortado ao meio para um motoboy da segurança do banco que viria buscar. Eles usaram o chip inteiro para fazer saques. Levaram R$ 10 mil da minha conta corrente. Acreditei realmente que era a ligação do Banco”, disse.
“O golpe vem por telefonema na madrugada”
Uma moradora de 52 anos, iniciais V.S.H, do bairro Zatt, foi vítima do golpe do telefonema na madrugada, por volta das 2h30min, após receber a ligação de uma mulher que afirmava estar acompanhada com o seu neto, supostamente alcoolizado, em uma festa em Caxias do Sul. A golpista exigiu uma transferência de R$ 350 para pagar a conta do jovem na casa noturna, prometendo deixá-lo em casa em total segurança. Desesperada, a idosa realizou o pagamento via Pix e só percebeu o golpe na manhã seguinte.
A polícia orienta
Segundo a delegada titular da 1ª Delegacia de Polícia de Bento Gonçalves (1ª DP), Raquel Peixoto, os estelionatários entram na casa das pessoas pelas telas dos celulares. “Eles exploram o desespero, a ambição por dinheiro fácil e a distração do cidadão”, adverte.
A delegada Raquel reforça que o primeiro passo é copiar todas as conversas, salvar os comprovantes de transação e registrar a ocorrência imediatamente.





