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Entre trilhos, vinhos e histórias, Bento Gonçalves busca fortalecer sua identidade turística

Bento Gonçalves construiu sua identidade turística a partir de elementos que atravessam gerações: a imigração italiana, a produção de vinhos, as paisagens do interior, a gastronomia e a ferrovia. Ao longo dos anos, esses componentes deram origem a experiências que ultrapassaram os limites da cidade e passaram a integrar os roteiros de visitantes de diferentes regiões do país. Para Andréia Zucchi, diretora executiva da Giordani Turismo, o próximo passo é continuar desenvolvendo o destino sem descaracterizar justamente aquilo que o tornou atrativo.

A relação entre história e turismo está na própria origem de um dos principais produtos da empresa. Lançada em 2003, a Epopeia Italiana surgiu da necessidade de preencher uma lacuna na experiência de quem chegava à região. O visitante conhecia os cenários deixados pela colonização, especialmente no Caminhos de Pedra, mas nem sempre compreendia as razões que levaram os imigrantes a deixar a Itália e atravessar o oceano em busca de uma nova vida. “A Epopeia Italiana é justamente isso. É a história real do casal Lázaro e Rosa Giordani”, explica Andréia. A atração conduz o público por nove cenários, desde a vida do casal na Itália até a viagem de navio e a chegada ao Brasil. A estrutura original foi modernizada em 2016, quando os cenários receberam uma renovação e a tecnologia de som e iluminação foi atualizada.

Maria Fumaça integra a história ferroviária de Bento Gonçalves e permanece entre os principais atrativos turísticos da região. Foto: Divulgação

Além da Maria Fumaça

A evolução dos produtos também levou a Giordani Turismo a ampliar sua atuação para além da Maria Fumaça. Passeios temáticos como o Natal Sobre Trilhos e o L’essenza del Vino passaram a integrar o portfólio. Mais recentemente, a empresa levou a experiência ferroviária para a fronteira com o Uruguai, com o Trem do Pampa, em Santana do Livramento, que completou dois anos de operação em julho.

O projeto foi precedido por mais de uma década de preparação e nasceu da percepção de que a região reunia características capazes de sustentar uma nova experiência turística. Além da proximidade com o Uruguai e do fluxo de visitantes atraídos pelo turismo de compras, Santana do Livramento possui tradição vitivinícola e uma história ferroviária que ajuda a compor o roteiro. “O Pampa, naquele relevo único com os parreirais. É um passeio que se complementa com a visita: as pessoas fazem a degustação a bordo e também na vinícola”, relata. O roteiro inclui a visitação à Almadén e permite combinar a experiência da vinícola com a viagem, com transporte incluído entre os pontos.

Conhecer os destinos

A estratégia acompanha uma mudança na forma como o visitante busca conhecer os destinos. Em vez de oferecer apenas um atrativo isolado, a proposta é combinar diferentes elementos, paisagem, gastronomia, vinho, história e patrimônio, em uma experiência integrada. Essa mesma lógica aparece no Ciao Bus, projeto da empresa Santo Antônio, integrante do grupo Giordani Turismo.

Lançado há dois anos, o ônibus panorâmico de dois andares percorre Bento Gonçalves, Vale dos Vinhedos e Monte Belo do Sul no sistema hop-on hop-off, permitindo que o visitante embarque e desembarque nos pontos de parada. Atualmente, a operação ocorre aos sábados e domingos, mas existe potencial para ampliação conforme a demanda. “O nosso turista, em sua maioria, ainda vem com transporte próprio. Por isso, estamos trabalhando para mostrar a esse visitante que há um conforto e uma grande vantagem em utilizar o nosso transporte: a liberdade e a tranquilidade de não se preocupar em onde estacionar”, afirma.

A proposta ganha importância em um destino no qual boa parte dos atrativos está espalhada pelo território. Ao deixar o carro de lado, o visitante pode circular entre vinícolas, restaurantes e cafeterias sem precisar administrar estacionamento, deslocamento ou a combinação entre consumo de bebidas e direção.

Trem do Pampa levou a experiência ferroviária da Giordani Turismo para Santana do Livramento

Uma estrutura turística que amadureceu

Para Andréia, Bento Gonçalves avançou significativamente na estrutura necessária para receber visitantes. Informações sobre horários de funcionamento estão mais acessíveis, os estabelecimentos passaram a organizar melhor suas operações e a oferta de hospedagem e gastronomia se diversificou.

A ampliação das rotas também contribuiu para aumentar o tempo possível de permanência. Um visitante pode dedicar dias diferentes ao Vale dos Vinhedos, Caminhos de Pedra, Faria Lemos, Pinto Bandeira e às atrações localizadas na área urbana. “A gastronomia também se diversificou muito. Não é mais restrita àquela sequência tradicional de galeto e massa que era servida antigamente”, observa. Segundo ela, a variedade atual dos cardápios ajuda a atender diferentes perfis de visitantes e amplia as possibilidades para quem permanece mais tempo na região.

A profissionalização também ocorreu dentro da própria Giordani. A empresa, que começou há 34 anos com Andréia e Suzana na operação cotidiana, passou a estruturar departamentos especializados à medida que cresceu. Hoje, conta com mais de 130 funcionários, além de áreas específicas de marketing, comercial, tecnologia, recursos humanos, manutenção, financeiro, contábil e administrativo. “Nós não entregamos um bem material, entregamos um serviço”, resume Andréia. Para ela, a experiência do visitante depende de uma cadeia que começa antes mesmo do embarque e envolve atendimento, segurança, manutenção, treinamento e todos os profissionais que participam da operação.

Esse acompanhamento também é orientado pelos próprios visitantes. A empresa monitora avaliações e pesquisas de satisfação e utiliza os resultados para identificar pontos de melhoria. Andréia cita mudanças realizadas na oferta de bebidas como exemplo de adaptações feitas a partir das manifestações do público.

O desafio de fazer o turista permanecer

Embora reconheça os avanços, Andréia identifica uma oportunidade especialmente no centro: criar espaços que traduzam, também na área urbana, a experiência que o visitante encontra nas comunidades do interior.

Na avaliação dela, falta um ambiente permanente onde o turista possa simplesmente sentar, tomar um café ou uma taça de vinho, comprar produtos típicos e consumir itens da gastronomia regional sem precisar se deslocar para as rotas turísticas. “Os visitantes sentem falta de poder comprar o nosso pão, o cappelletti e a massa fresca. A garrafa de vinho é mais fácil de encontrar, mas faltam outros itens regionais, principalmente da gastronomia típica”, aponta.

A ideia inclui quiosques ou espaços fixos com alimentos, bebidas e souvenirs. O objetivo seria oferecer ao visitante uma experiência mais completa e, ao mesmo tempo, criar novas oportunidades de circulação e consumo no centro.

Para Andréia, essa estrutura ajudaria a completar um dos pilares da atividade turística. “O pilar do turismo é sustentado por hospedagem, gastronomia, atrativos e compras. Tem que haver onde passear, onde se hospedar, o que comer e o que comprar”, afirma.

A valorização do comércio local poderia, ainda, ser incorporada à própria ambientação da cidade. Na visão da diretora, vitrines e espaços públicos poderiam adotar temáticas ligadas à Vindima, à imigração italiana, às estações do ano e a outras características regionais, transformando o centro em parte da experiência turística.

Ciao Bus percorre Bento Gonçalves, Vale dos Vinhedos e Monte Belo do Sul no sistema hop-on hop-off

A autenticidade como força do turismo

A diversificação, porém, não significa abandonar os elementos que já caracterizam Bento Gonçalves. Andréia defende que novos atrativos sejam incorporados ao destino, mas sempre associados à história e à identidade local. “O visitante busca o que é autêntico. O contato com os moradores e com as pessoas do interior é de uma riqueza imensa”, ressalta.

Essa autenticidade aparece em experiências que dificilmente podem ser reproduzidas artificialmente: moradores que recebem visitantes em suas propriedades, famílias que preservam receitas, pessoas que ainda falam o dialeto italiano e atividades que apresentam costumes transmitidos entre gerações.

Para ela, essa característica é um dos principais ativos do turismo local. A força do destino não está apenas nos empreendimentos estruturados, mas na possibilidade de o visitante estabelecer contato com um modo de vida que permanece presente na região.

Nesse cenário, o turismo rural continua sendo central. As rotas do interior concentram parte significativa dessa experiência, enquanto a área urbana possui atrações como a Maria Fumaça, a Epopeia Italiana, a gastronomia e outros locais turísticos.

Ao mesmo tempo, há espaço para ampliar a variedade de atrações. Andréia considera que Bento pode receber novos produtos que não estejam diretamente ligados ao vinho, desde que mantenham conexão com a história e a identidade do município. “A paisagem e o visual impressionam e encantam muito o visitante. O turismo contemplativo vem crescendo bastante, e o Ciao Bus veio para contribuir com isso”, avalia.

Uma disputa que também passa pela comunicação

A proximidade com Gramado coloca Bento Gonçalves em uma posição particular no mercado turístico gaúcho. Segundo Andréia, as agências de receptivo de Gramado comercializam excursões de um dia para Bento, tendo a Maria Fumaça como um dos principais chamarizes.

O movimento contribui para apresentar o destino a novos visitantes, mas também produz um problema de comunicação quando a localização do passeio não é informada corretamente. A diretora relata que, em algumas divulgações, a imagem da Maria Fumaça aparece associada a Gramado, embora o passeio seja realizado em Bento Gonçalves. “É fundamental passar ao cliente que ele estará a duas horas de distância de Gramado, que haverá esse tempo de deslocamento com a família e que ele precisa saber exatamente onde está indo”, afirma.

A Giordani Turismo já recorreu a notificações judiciais e extrajudiciais diante de informações consideradas inverídicas. A preocupação, segundo Andréia, está relacionada tanto à preservação da marca quanto à experiência do próprio visitante.

Por outro lado, ela reconhece que a comercialização feita a partir de Gramado também pode funcionar como uma porta de entrada. O turista conhece Bento em uma visita de um dia, se encanta com a experiência e pode retornar posteriormente para permanecer mais tempo.

Epopeia Italiana apresenta, em nove cenários, a trajetória de Lázaro e Rosa Giordani e a chegada da famíla ao Brasil

Turismo como construção coletiva

A consolidação do destino, na avaliação de Andréia, não depende apenas das empresas diretamente ligadas ao turismo. A atuação conjunta entre iniciativa privada, poder público e comunidade é apontada como fundamental. “Nós ficamos muito felizes com essa parceria público-privada, que já dura muitos anos. Bento Gonçalves é um dos poucos destinos onde a iniciativa privada trabalha de forma muito próxima com o poder público”, afirma.

Ela defende, porém, investimentos ainda maiores na promoção de Bento Gonçalves em âmbito nacional. A participação em feiras, a apresentação do destino a agentes de viagens e a captação de eventos são consideradas ferramentas importantes para ampliar a visibilidade da cidade.

A relação com a comunidade também integra essa construção. A Giordani mantém ações de apoio a entidades e iniciativas locais e disponibiliza, tradicionalmente no início de cada ano, uma tarifa diferenciada para moradores realizarem o passeio.

A proposta é aproximar quem vive na cidade daquilo que atrai os visitantes. “Essa tarifa acessível permite que o morador usufrua do passeio, passeie, veja como a nossa cidade é bonita e entenda o que encanta o turista”, explica.

A própria empresa, segundo Andréia, entende que o sucesso de seus produtos está ligado à existência de um destino estruturado ao redor deles. Hotéis, restaurantes, vinícolas, atrativos e uma comunidade preparada para receber são partes de uma mesma engrenagem. “O turista pode permanecer mais dias aqui porque tem o que fazer: há restaurantes, rede hoteleira e diversos atrativos turísticos. Ele não viria para cá apenas para andar de trem”, afirma.

Inovar sem perder a essência

O futuro projetado por Andréia combina duas necessidades que, à primeira vista, poderiam parecer opostas: modernizar a oferta turística e preservar a essência do destino.

A experiência da própria Giordani segue essa lógica. A empresa atualizou cenários, incorporou tecnologia e criou novos produtos, mas mantém a ferrovia, a história da imigração e a relação com o vinho como elementos estruturantes de sua atuação.

Para Andréia, o desenvolvimento turístico precisa seguir o mesmo princípio em toda a região. Novos empreendimentos e atrativos são necessários, mas não devem transformar Bento em um destino genérico. “Se perdermos isso, as nossas rotas rurais e o nosso povo empreendedor e autêntico, que tem cuidado e capricho com suas casas e jardins, nós perderemos a nossa identidade”, alerta.

Nesse entendimento, a busca não é pelo maior número possível de visitantes, mas por um público interessado naquilo que a região tem de genuíno. A proposta se aproxima de um turismo de experiência e contemplação, baseado menos na quantidade de atrações e mais na capacidade de proporcionar uma vivência significativa. “Não se trata de parques gigantes ou artificiais, mas de uma natureza que desperta o desejo de contemplação, para a pessoa acalmar a alma, desacelerar e se reenergizar. É o turismo de experiência e contemplação”, define.

É dessa concepção que nasce também a mensagem que a Giordani procura levar ao público: “Viva a História”. Em um cotidiano marcado pela presença constante das telas, a experiência turística aparece como uma oportunidade de trocar o consumo virtual pela vivência concreta. “A nossa mensagem é convidar as pessoas a saírem do virtual para viverem o real”, conclui Andréia.

Entre os trilhos da Maria Fumaça, os parreirais, as comunidades do interior e os novos caminhos que surgem para o visitante, Bento Gonçalves tem diante de si o desafio de continuar crescendo sem deixar para trás aquilo que a tornou destino turístico. Para a diretora executiva da Giordani Turismo, é justamente nessa combinação entre inovação e autenticidade que está uma das maiores forças da região.

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