Embora sejam frequentemente classificados como gêneros de nicho no Brasil, o blues, o jazz e o soul seguem encontrando espaço e público em Bento Gonçalves. Impulsionada por músicos locais, festivais, bares e projetos culturais, a cena desses estilos musicais demonstra vitalidade e atrai tanto apreciadores experientes quanto novos ouvintes que descobrem essas sonoridades por meio de apresentações ao vivo.
Para a cantora Etiene Nadine, a conexão com esses gêneros nasceu dentro de casa. Vinda de uma família de músicos, ela cresceu ouvindo jazz, blues e soul, influências que considera parte de sua essência artística. Segundo a cantora, existe público para esses estilos na cidade, mas a presença dele depende diretamente da oferta de eventos. Como exemplo, ela cita o espetáculo em homenagem à cantora Nina Simone em que ela se apresentou, que lotou a Casa das Artes, e a apresentação da norte-americana Crystal Thomas, promovida pelo Circula Cult no Dia da Mulher, que também registrou casa cheia.

Na avaliação de Etiene, o cenário cultural de Bento Gonçalves tem se mostrado mais receptivo a diferentes propostas musicais nos últimos anos, especialmente quando há incentivo de gestores e produtores culturais abertos à diversidade artística. Ainda assim, ela aponta desafios para quem atua com jazz, blues e soul em cidades do interior. Um dos principais obstáculos é encontrar espaços voltados à apreciação musical. “Em casamentos e eventos corporativos esses estilos são muito requisitados, mas quando há um show específico de blues ou jazz, muitas vezes o público acaba pedindo músicas de outros gêneros”, observa.
A cantora salienta ainda que a trajetória construída nesses estilos foi fundamental para sua carreira. Entre os momentos marcantes estão apresentações no Cosquín Rock, na Argentina, participação no Mississippi Delta Blues Festival, em Caxias do Sul, considerado um dos maiores festivais de blues da América Latina, além da indicação de um álbum ao Prêmio da Música Brasileira. Para ela, blues, jazz e soul continuam sendo pilares de seu trabalho artístico e das produções que desenvolve atualmente. “Pude também ter acesso a nomes como Elza Soares, Lô Borges, João Bosco, sendo atração no Mimo Festival, e no Cena Contemporânea dividir o palco com divas como Tia Carroll e Crystal Thomas”, declara.
Sobre o fim da banda Etiene & All Stars, que marcou uma fase importante da sua trajetória, ela afirma que mudança é evolução e que é grata aos anos de aprendizado com os músicos da banda e a tudo que ela proporcionou. “Os guris moram no meu coração, somos amigos, todos ainda trabalhamos juntos, em outras bandas e formações diferentes”, conta.
Conexão
Outra artista que ajuda a fortalecer essa cena é a cantora e educadora musical Priscila Bortolosso. Sua ligação com os gêneros começou ainda na adolescência, motivada pelo interesse pelas técnicas vocais características de cada estilo. Desde 2014 atuando profissionalmente na música, ela criou a banda Priscila And The Honeydrippers com a proposta de oferecer ao público uma experiência que conecta diferentes gerações. “O nosso repertório inspirou, e continua sendo fonte de muita coisa que ouvimos em artistas do cotidiano. Para o pessoal das antigas é uma conexão afetiva muito grande, e para os mais jovens é justamente essa ligação que os faz perceber que a Etta James influenciou muito do que é a Beyoncé como intérprete, por exemplo. São músicas que atravessam gerações”, revela.
Segundo Priscila, muitas pessoas reconhecem canções interpretadas pelo grupo sem saber que suas origens estão ligadas ao blues, ao jazz ou ao rhythm and blues. “O diferencial da P&H é a identidade de cada músico. Trazemos releituras muito marcantes e envolventes. Hoje nós somos em três músicos da formação original, que sou eu no vocal, Alexandre Crestani na guitarra, e Edenilson Allmeida na bateria. E contamos ainda com Marcelo Montipó no contrabaixo, e Ricardo Sivieiro no teclado”, conta.

A cantora também percebe que Bento Gonçalves possui um público interessado nesses estilos. Ela cita iniciativas como o Blues & Jazz Festival, o Bodega Negroni In Blues, além de espaços como o Nosferatu Pub e o Complexo da Estação. Priscila ressalta ainda a importância do apoio da Fundação Casa das Artes na promoção de eventos voltados ao gênero.
Para ela, embora a renovação de público aconteça de forma gradual, os shows ajudam muitas pessoas a compreender a influência que estes gêneros exercem sobre artistas populares da atualidade. “O que mais acontece é ouvirmos pessoas que assistem nossos shows e muitas vezes não sabem que aquela música famosa do Elvis Presley por exemplo, é R&B. Então eles acabam criando essa percepção do que é jazz, blues, soul, etc”, frisa.
Contato desde cedo
Já Marieli Oliveira, cantora e professora de técnica vocal de Garibaldi, conta que começou a se interessar por música desde muito pequena. “Não me recordo de uma época em que eu não quisesse ser cantora. A música sempre esteve muito presente na minha vida, principalmente por influência da minha mãe, que ouvia muitos estilos e me apresentou a grandes artistas como Etta James, Michael Jackson, Whitney Houston e Tina Turner”, pondera.
Ela acredita que esse contato desde muito cedo foi fundamental para sua formação musical. “Antes mesmo de entender tecnicamente, eu já me identificava com a força das vozes, com a interpretação e com a emoção que esses artistas colocavam na música. Com o tempo, fui estudando, conhecendo outros artistas e entendendo melhor essas referências que já faziam parte da minha vida desde criança”, avalia.
O principal desafio, segunda ela, é a elitização desses estilos. “Muitas vezes, o contratante entende que uma banda que toca jazz é um luxo, eu não discordo disso, porque realmente existe uma sofisticação muito bonita nesse tipo de trabalho. Mas, ao mesmo tempo, essa percepção acaba tornando o gênero mais distante do público em geral. O jazz exige uma formação musical e uma instrumentação bastante específicas. Não é simplesmente reunir músicos de uma banda de rock e trocar o repertório: instrumentos como piano, contrabaixo acústico, metais e toda a linguagem do gênero exigem músicos preparados e, consequentemente, tornam o trabalho um pouco mais caro”, ressalta.

Uma das lembranças que ela mais gosta é da primeira vez que cantou no Garibaldi Vintage. “Foi em uma das sacadas principais da Buarque de Macedo e eu iria cantar músicas de artistas que amo muito, como Donna Summer, Elis Regina, Tina Turner e outras grandes referências. Naquela edição, havia cerca de 20 mil pessoas, e foi simplesmente incrível. Eu nunca tinha estado diante de um público tão grande, eles cantavam mais forte que eu!”, revela.
Atualmente, Marieli está à frente da Queens Of Soul, uma banda que homenageia grandes divas do pop e do soul dos anos 70 aos anos 2000. Além disso, é vocalista do Pista VIP, do Vocal Allegro, atua como backing vocal em diversos trabalhos e possui em torno de 42 alunos exclusivamente na parte de canto, além de outros em áreas distintas.
Rafael Teclas diz que jazz funciona como linguagem de improvisação e liberdade criativa
No campo instrumental, o pianista, compositor e educador musical Rafael Vignatti, conhecido como Rafael Teclas, frisa que o jazz funciona como uma linguagem baseada na improvisação e na liberdade criativa. O interesse pelo gênero surgiu por volta dos 20 anos, período em que aprofundava seus estudos musicais. “Era uma fase que eu estava descobrindo algumas coisas sobre improvisação com o meu instrumento. A partir daí o período foi marcado por criação de melodias, mas claro que com muito estudo”, salienta.
Atualmente, além da carreira artística, ele atua na formação de novos músicos e considera importante apresentar aos alunos sonoridades diferentes das que costumam fazer parte de seu cotidiano. “É o papel de todo educador musical”, enfatiza.
Para ele, o piano tem muita relação com música de concerto, MPB e o próprio jazz, mas ressalta que o instrumento é procurado muito mais para música de concerto.

Teclas acredita que o jazz ainda possui um público restrito quando comparado a gêneros mais populares, o que exige versatilidade dos músicos para manter suas carreiras. Mesmo assim, ele vê avanços importantes na região, especialmente por meio de eventos como o Bento Jazz & Wine Festival. Para o pianista, o festival desempenhou um papel pioneiro ao aproximar artistas, promover intercâmbios culturais e oferecer apresentações gratuitas ao público. “É democrático, ao ar livre e gratuito. Iniciativas como essa são fundamentais para aproximar as pessoas do gênero”, afirma. Ele observa ainda que, após o surgimento do festival, outras iniciativas semelhantes começaram a aparecer na Serra Gaúcha, contribuindo para ampliar a visibilidade da música instrumental. “Pra quem gosta mesmo do gênero, é muito legal poder fazer, inclusive, o intercâmbio, assistir outros shows, ver outros artistas. E para quem não é acostumado com o gênero, também, porque é uma boa oportunidade”, sublinha.
Segundo ele, os eventos ainda são escassos na região. “Tem mais eventos em Porto Alegre mesmo, mas aos poucos as coisas vão acontecendo”, avalia.
Marieli Oliveira complementa. “Acho interessante perceber como o jazz, que historicamente nasceu ligado a contextos culturais populares e às comunidades negras dos Estados Unidos, acabou ganhando, ao longo do tempo, uma associação com ambientes mais sofisticados e até mais elitizados. Em Garibaldi e região, percebo que esse movimento começou a aparecer bastante nas vinícolas e em eventos ligados ao turismo e à gastronomia, mas aos poucos o soul e o jazz também estão ocupando outros espaços. Algumas bandas têm conseguido levar essa sonoridade para bares, eventos ao ar livre e ambientes mais populares, e acho isso muito positivo”, salienta.
Projeto autoral
O disco “Mosaico de Memórias”, de Rafael Teclas Trio, que além dele conta com Tiago Andreola (contrabaixo) e Alison Sebem (bateria), traz influências de uma vertente do jazz, que veio de uma gravadora específica alemã, chamada ECM. “Se aproxima mais da música europeia, com a sua estrutura se assemelhando um pouco mais à música de concerto. Foge do jazz tradicional dos EUA. Além disso, a MPB foi uma influência natural nesse processo”, conta.
Compõem a cena de jazz, blues e soul alguns outros artistas da região, como Bruna Toledo, Mari Kerber, a gaitista de blues Débora de Oliveira, Marcos Petta, Andy Serrano, Ale Ravanello, Ricardo Pelegrini, Tiago Andreola, Alison Seben, Alexandre Crestani, Luciano Leães e Hard Blues Trio.




