Quinta-feira, 27 de Agosto de 2026

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Familiares, amigos e colegas relembram a trajetória de Paulo e Valkíria, vítimas de acidente na BR-470

O amor pela família, a parceria no casamento, a paixão por carros e a dedicação ao trabalho são algumas das lembranças que permanecem entre familiares, amigos e colegas de Paulo Marcelo da Silva e Valkíria Freitas dos Santos, ambos de 40 anos, que morreram em um acidente de trânsito na noite de domingo, 23, na BR-470, em Bento Gonçalves. O casal deixa um filho, Miguel dos Santos da Silva, de 17 anos.

A colisão ocorreu por volta das 20h45min, no km 210 da rodovia, nas proximidades do bairro Nossa Senhora da Saúde. Paulo e Valkíria estavam em um Chevrolet Chevette, que colidiu contra um caminhão Scania, emplacado em Francisco Beltrão (PR). Os dois ocupantes do automóvel morreram no local. O motorista do caminhão não ficou ferido. As circunstâncias e as causas da colisão serão investigadas pelas autoridades.

Para quem convivia com o casal, entretanto, a história de Paulo e Valkíria vai muito além da tragédia. Fica a memória de duas pessoas que construíram uma vida marcada pela união, pelo trabalho e pela presença constante junto à família.

Valkíria Freitas dos Santos e Paulo Marcelo da Silva, ambos tinham 40 anos. Fotos: Arquivo pessoal

Uma vida construída a dois

Prima de Valkíria, Francielle Simões Alves de Lima descreve a professora como uma mulher trabalhadora, batalhadora e profundamente ligada à família. Segundo ela, a prima tinha uma personalidade forte e marcante, era cuidadosa com os pais e não desistia facilmente daquilo em que acreditava.

O nascimento de Miguel é apontado como um dos momentos mais marcantes da vida do casal. “O filho era motivo de orgulho e estava no centro dos planos que ela e Paulo construíam para o futuro. Estavam sempre em busca dos seus objetivos”, salienta.

O casal também compartilhava a paixão por carros, especialmente os Chevettes. Os dois participavam de encontros do grupo Cheveteiros, além de frequentarem eventos de carros, encontros de gaiolas, acampamentos e momentos de lazer juntos. “Sempre foram muito parceiros”, conta a prima.

As férias na praia, os encontros com amigos e os momentos simples do cotidiano faziam parte da vida dos dois. Entre os sonhos que compartilhavam estava o desejo de Paulo de abrir a própria oficina mecânica e ter seu negócio. Juntos, também imaginavam construir uma casa em um sítio próximo a um rio.

Acima de todos os planos, porém, estava o futuro do filho. “O maior sonho era ver o filho bem, assistido, dando suporte para crescer e ser um adulto com futuro, profissão”, conta Francielle.

Valkíria e seu filho, Miguel dos Santos da Silva

O mecânico apaixonado pelo que fazia

Paulo era conhecido por amigos como um homem trabalhador, prestativo e apaixonado por automóveis. A profissão de mecânico fazia parte de sua identidade e também se conectava a uma paixão que carregava desde jovem.

O amigo Rosimir Gonçalves conhecia Paulo desde os tempos em que os dois participavam de corridas na Alameda Fenavinho. Com o passar dos anos, cada um seguiu seu caminho profissional: Paulo tornou-se mecânico e Rosimir, motoboy, seguindo posteriormente para o serviço público.

Mesmo com os caminhos diferentes, a amizade permanece na memória. “Era um baita cara e vai nos fazer falta aqui. Sempre sorridente e disposto a ajudar. Gostava mesmo de carros antigos”, recorda.

Amor de irmãos

A irmã única de Paulo, Bruna Alexandra da Silva, também lembra do irmão como um homem que fazia questão de estar perto das pessoas que amava. Segundo ela, os finais de semana frequentemente eram marcados por almoços, jantares, churrascos e massas em família.

Paulo Marcelo da Silva e a irmã, Bruna Alexandra da Silva

Paulo era padrinho do filho da única irmã e mantinha uma relação próxima com os familiares. “Ele era um irmão muito querido. Gostava muito do filho dele, da esposa e de nós. Era um companheiro exemplar porque ajudava todo mundo que podia. Estava sempre disposto”, relata Bruna.

Segundo ela, ele gostava muito de velocidade e carros, mas que nunca deixou a família de lado, pois era sua prioridade. “Desde sempre, como irmãos nos demos bem. Claro que na infância sempre tem aquelas briguinhas, mas sempre fomos unidos”, relembra

Para ela, a união entre Paulo e Valkíria era uma das características mais marcantes do casal. “Eles eram muito cúmplices. Onde um estava, o outro estava junto. Estavam sempre juntos, sempre unidos. A Val era uma cunhada maravilhosa, mãe e professora exemplar. Serão um casal que ainda todo mundo vai admirar”, afirma.

Paulo deixa, além da irmã e do filho, o pai José Paulo da Silva, além de demais familiares, amigos e colegas. Sua mãe, Sônia Maria Mercali da Silva, já faleceu. “O que resta agora é ficarmos com a lembrança deles, as fotos e o exemplo que deixaram”, declara.

Ela deixa uma mensagem final para o filho do casal. “Que ele siga o exemplo dos pais, um casal com honestidade, amor, cumplicidade. Eles te amavam muito. Foram muito amados e continuarão sendo”, finaliza.

A professora que será para sempre lembrada

Valkíria dedicou sua trajetória profissional à educação municipal. Ao longo da carreira, trabalhou na Escola Municipal de Tempo Integral (EMTI) São Roque – Professora Nilza Côvolo Kratz, na Escola Municipal Infantil (EMI) Mamãe Coruja e na Escola Municipal Infantil (EMI) Irmã Angelita.

Professoras da Mamãe Coruja Kellen Mariano, Bianca Dalvit, Rosângela dos Santos, Eridiane, Daiane Gorges , Edineia de Siqueira e Valkíria

Em 2026, ela iniciou uma nova etapa profissional ao atuar no Atendimento Educacional Especializado (AEE). Na EMI Mamãe Coruja, trabalhava às segundas-feiras, atendendo crianças da educação inclusiva e auxiliando as professoras no acompanhamento dos alunos.

Para a diretora da escola, Eridiane de Souza, Valkíria era uma pessoa dedicada, comprometida e apaixonada pelo que fazia. “Ela era uma profissional incrível. Era alguém que abraçava o que fazia”, lembra.

Segundo Eridiane, Valkíria buscava constantemente formas de melhorar o atendimento às crianças e trabalhava em conjunto com as famílias e com a equipe pedagógica.

Ela também acompanhava um aluno com Transtorno do Espectro Autista (TEA), dedicando-se ao atendimento e à construção de estratégias que contribuíssem para seu desenvolvimento. “Ela sempre procurava ver o que a gente poderia fazer juntamente com as famílias para melhorar esse atendimento”, conta a diretora.

Este era o primeiro ano dela no AEE. Conforme Eridiane, inicialmente a nova função representava um desafio, mas a professora rapidamente demonstrou identificação com o trabalho. “Ela amava o que fazia, a função que estava exercendo neste ano”, afirma.

Valkíria também estava organizando um espaço destinado ao atendimento no prédio da EMTI São Roque. Buscava materiais e recursos pedagógicos para tornar o ambiente mais adequado às crianças e dizia que pretendia deixar o local com a sua identidade.

Uma profissional que marcou colegas e alunos

A amiga Josiane Macagnan, que trabalhou com Valkíria na EMI Criança Feliz, define a professora como uma das melhores pessoas que teve a oportunidade de conhecer. “Era extremamente amorosa, carinhosa, dedicada e tinha um jeito único de ser”, recorda.

A amiga Josiane Macagnan e Valkíria

Para Josiane, ela não apenas exercia a profissão: ela incentivava quem estava ao seu redor. Ouvia sugestões, valorizava a participação dos colegas e contribuía para que outras profissionais também encontrassem motivação na Educação Infantil.

A amizade entre as duas ultrapassou os limites da escola. Conversas, brincadeiras e risadas faziam parte da convivência. “Qualquer assunto com a Val virava risada, história engraçada ou alguma brincadeira”, lembra Josiane.

Mesmo depois de deixarem de trabalhar juntas, mantiveram contato. Trocaram vídeos, lembranças e mensagens. Mais recentemente, a relação ganhou uma nova dimensão quando Valkíria passou a ser aluna de Josiane no Pilates.

Entre tantas lembranças, uma das mais simples tornou-se uma das mais significativas: o café com leite que Valkíria preparava para a amiga durante as manhãs de trabalho. “Ela sempre buscava café para ela e fazia questão de trazer um café com leite para mim. E ninguém nunca fez um igual ao dela”, recorda.

Para a amiga, ela também falava com orgulho da família, especialmente do marido e do filho. Era igualmente dedicada aos pais e fazia questão de estar presente na vida deles.

Sentindo a ausência

Na EMI Mamãe Coruja, a notícia da morte de Valkíria provocou choque entre funcionários e professores. Na segunda-feira, justamente o dia em que ela costumava atender as crianças da escola, a equipe esperava pela professora.

Eridiane conta que foi difícil compreender que Valkíria não chegaria para cumprir seu trabalho. “É difícil acreditar que aquela pessoa que tu via toda segunda-feira não vai mais vir para a escola”, relata.

A diretora afirma que Valkíria conquistou colegas e crianças com sua maneira tranquila, receptiva e carinhosa. “Ela encantava e conquistava todas as professoras, crianças e funcionários”, afirma.

A escola também vinha desenvolvendo ações voltadas à educação para o trânsito e à valorização da vida. Para Eridiane, a morte da professora tornou ainda mais doloroso o momento vivido pela comunidade escolar.

A lembrança dela, segundo a diretora, deverá permanecer também por meio do trabalho de conscientização realizado pela escola.

Valkíria, a amiga Janaína de Lima Bianeck e a prima, Francielle Simões Alves de Lima

Demais pronunciamentos

A EMTI São Roque se manifestou nas redes sociais, lamentando a morte da profissional e prestando solidariedade aos familiares, amigos e à comunidade escolar.

A EMI Irmã Angelita também se solidarizou com o acontecido. “Estamos em choque, a professora era jovem, cheia de projetos profissionais, querida por todos. E somente 40 anos”, lamenta.

A Secretaria Municipal de Educação de Bento Gonçalves (SMED) também se manifestou. Em nota lamentaram, com profundo pesar, o falecimento da professora. “Servidora do município desde 2013, Valkíria dedicou sua trajetória à educação. A Secretaria de Educação se solidariza com familiares, amigos, colegas de trabalho e toda a comunidade escolar”, diz o trecho da nota.

Uma família que permanecerá na memória de todos

Além de esposa, mãe, filha e professora, Valkíria era uma mulher muito presente na vida dos pais, Maria Elizabete Lopes de Freitas e Flávio Aurélio Fredo dos Santos, que estão vivos.

Para os familiares, a perda representa a ausência de duas pessoas que tinham um papel central na vida de quem estava ao redor.

A prima Francielle deixa uma mensagem de despedida ao casal. Para ela, Paulo e Valkíria foram pessoas de valor, amigos especiais, pais comprometidos e filhos atenciosos, que enfrentavam juntos as dificuldades da vida.

Entre fotografias, histórias, encontros, viagens, cafés, carros antigos, brincadeiras e lembranças familiares, permanece a história de um casal que, segundo aqueles que tiveram a oportunidade de conviver com eles, fazia questão de estar junto.

Paulo e Valkíria partiram juntos, deixando para trás familiares, amigos, colegas de profissão e, principalmente, um filho que agora carrega a memória de dois pais que sonhavam em acompanhar cada etapa de sua vida.

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