Quinta-feira, 27 de Agosto de 2026

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Estelionato digital: delegada Raquel Peixoto pede por delegacia especializada em Bento Gonçalves

O estelionato cibernético já é o crime mais comum no país. Diante dessa realidade, a delegada titular da 1ª Delegacia de Polícia (1ª DP), Raquel Machado Peixoto, defende a criação urgente de uma estrutura policial especializada no combate a fraudes digitais em Bento Gonçalves

A criação urgente de uma Delegacia de Crimes Cibernéticos em Bento Gonçalves tornou-se o principal pleito da 1ª Delegacia de Polícia Civil do município para frear o avanço do estelionato digital. De acordo com a delegada titular, Raquel Machado Peixoto, a modalidade é hoje o crime mais frequente no Brasil, mas o Rio Grande do Sul conta com apenas uma unidade especializada na Capital, gerando uma sobrecarga que atrasa as investigações locais. “Cerca de 80% dos casos registrados ficam sob a responsabilidade da Polícia Civil, enquanto uma parcela menor é direcionada à Polícia Federal. Tudo depende do tipo do crime”, resume.

Os obstáculos do crime

O principal obstáculo no combate a essas fraudes é o anonimato e a estrutura interestadual das quadrilhas. A delegada explica que a facilidade de acesso à internet permite que os criminosos ajam sem se expor, utilizando telefones registrados em nome de sucessivos ‘laranjas’. “Quando a polícia consegue identificar a origem do golpe, frequentemente descobre que o mentor intelectual está detido dentro de um presídio em outro estado do país. Além da complexidade técnica, o tempo joga contra as autoridades. A investigação demora, o judiciário também e as ocorrências demoram”, desabafa Raquel, apontando também a existência de falhas nos sistemas de segurança de bancos e empresas privadas, o que fragiliza a proteção dos dados dos usuários e dificulta o rastreamento dos valores desviados.

Educação digital

Diante das limitações do aparato repressivo e das brechas corporativas, a Polícia Civil defende que o enfrentamento ao crime virtual também passa pela educação digital coercitiva e preventiva. A conscientização individual surge como a barreira imediata mais eficaz. A delegada ressalta que muitos dos cuidados fundamentais são paliativos, mas cruciais para interromper a abordagem financeira dos criminosos antes que o prejuízo se concretize.

A delegada reforça que a prevenção depende de medidas simples do cotidiano para evitar que a vítima caia no primeiro contato dos golpistas. “Não atenda chamadas de números que não estão na sua agenda. Sempre lembre que nenhuma instituição bancária ou financeira liga ou envia mensagens para pedir dados. Recuse propostas onde é preciso pagar uma taxa para liberar um benefício. E, na dúvida, sobre a veracidade da ligação, desligue imediatamente o telefone”, explica.

Nem todo mundo registra

O avanço dos crimes virtuais acendeu o alerta nas autoridades policiais e motivou um movimento por reforço na estrutura investigativa local. Até a última segunda-feira, 24 de agosto, a 1ª DP já havia contabilizado 547 boletins de ocorrência relacionados a estelionatos e fraudes digitais neste ano. O volume é ainda maior nos dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP/RS), que registrou 759 ocorrências (somando queixas presenciais e on-line) no mesmo período. Os números representam uma média de 3,2 crimes digitais por dia notificados ao Estado envolvendo vítimas do município, enquanto a delegacia local absorve formalmente 2,3 registros diários. O cenário real, no entanto, é substancialmente mais grave. “Isso é pouco perto dos casos onde o cidadão, por vergonha ou outro motivo, nem a ocorrência faz”, adverte a delegada.

O apelo pela delegacia

A forte subnotificação, causada pelo constrangimento das vítimas em terem caído em golpes financeiros ou extorsões, camufla um mercado criminoso em franca expansão. Diante da complexidade dessas investigações, que envolvem quebras de sigilo bancário, rastreamento de IP’s e engenharia social, a delegada Raquel faz um apelo contundente para a instalação de uma delegacia especializada em crimes cibernéticos em Bento Gonçalves. A estrutura descentralizada permitiria focar exclusivamente em fraudes de alta tecnologia, agilizando o bloqueio de contas e a identificação de quadrilhas que operam fora da região. Atualmente, o Rio Grande do Sul conta com apenas uma unidade com esse perfil: a Delegacia de Repressão aos Crimes Informáticos (DRCI), do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC), localizada em Porto Alegre”, explica Raquel.

A referência

O combate aos delitos digitais no Estado conta com a estrutura do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DERCC), localizado em Porto Alegre. O departamento atua no mesmo nível de prioridade que divisões de homicídios, utilizando Inteligência Artificial (IA) para rastrear quadrilhas, identificar golpes financeiros e combater fraudes complexas na deep web (o submundo da internet).

Se os criminosos evoluíram, os agentes gaúchos também mudaram o arsenal. Esqueça o estereótipo do policial focado apenas nas ruas; o trabalho aqui exige analistas de dados, engenheiros de software e investigadores focados em telas. Sob a coordenação do diretor do departamento, o delegado Eibert Moreira Neto, a delegacia utiliza algoritmos avançados de Inteligência Artificial. O sistema é capaz de cruzar dados de milhares de ocorrências simultâneas, mapear chaves Pix repetidas, identificar a triagem de telefones usados por criminosos e traçar a rota do dinheiro desviado em tempo real. Essa tecnologia permite descobrir se um golpe aplicado em uma dona de casa em Porto Alegre faz parte de uma engrenagem comandada por uma facção dentro de um presídio em outro Estado.

Além disso, os agentes operam rotineiramente no submundo da internet, monitorando fóruns da deep web onde dados de cidadãos gaúchos são comercializados ilegalmente e softwares maliciosos (malwares) são negociados.

Epidemia invisível

O avanço silencioso dos crimes patrimoniais por vias digitais consolidou o estelionato como o principal motor da criminalidade no Rio Grande do Sul em 2026. Dados atualizados até este mês de agosto de 2026 pela SSP/RS revelam que o Estado mantém um ritmo alarmante de cerca de 50 golpes virtuais registrados diariamente. O cenário gaúcho reflete uma realidade nacional avassaladora: no Brasil, o crime de estelionato atinge o patamar recorde de quatro golpes por minuto (258 por hora), totalizando mais de 2,2 milhões de ocorrências anuais.

O fenômeno, apelidado por especialistas de “epidemia de golpes”, migrou de forma massiva para o ambiente on-line. No território gaúcho, o acumulado deste ano já pressiona os órgãos de controle, dando sequência ao salto estatístico iniciado nos anos anteriores, quando o RS fechou ciclos com mais de 17 mil registros anuais apenas na modalidade digital. A maior parte das vítimas no RS (51,5%) é composta por mulheres, concentradas principalmente na faixa etária entre 18 e 59 anos.

Segundo a delegada, a combinação entre a conscientização preventiva do cidadão e a especialização policial torna-se a única barreira capaz de interromper a rota do dinheiro e proteger a população de novos prejuízos financeiros.

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