Com pouco mais de uma década de história como município novamente instituído, Pinto Bandeira ainda carrega marcas de um processo de emancipação diferente. A cidade foi criada em 2000, deixou de ter essa condição em 2003 e recuperou a autonomia municipal posteriormente, entre 2012 e 2013.
De acordo com o secretário de Administração, Desenvolvimento Econômico e Finanças, Tailor Rigon, que atua na Prefeitura há 10 anos, a relação com municípios vizinhos, especialmente Bento Gonçalves, permanece, mas não representa uma situação de dependência. “Existe uma afinidade muito maior entre as gestões, por sermos um município que se originou de Bento Gonçalves, do que propriamente uma relação de dependência”, explica.
Estradas e transporte
A infraestrutura viária aparece entre os pontos que mais receberam atenção do poder público nos últimos anos. O principal acesso ao município, a VRS-855, passou por uma recuperação que, conforme Rigon, teve impacto significativo para a cidade. “Hoje, temos acesso praticamente a todas as comunidades. Se falta alguma coisa, são pequenos detalhes”, afirma.
Para a administração, a pavimentação também está relacionada à permanência de moradores no meio rural, especialmente dos mais jovens.
Rigon afirma que o asfaltamento modificou a rotina de quem vive e trabalha no interior, reduzindo o tempo de deslocamento e facilitando o transporte da produção. “Isso dá um ânimo maior para escoar a safra. Tu tem o carro limpo na garagem, tira o carro e não tem poeira nem barro”, relata.
Outro fator citado pelo secretário é o transporte gratuito disponibilizado para estudantes que frequentam universidades em Bento Gonçalves. Para cursos profissionalizantes, a Prefeitura também disponibiliza passagens para os jovens que precisam se deslocar para estudar.
A moradora Adrieli Zamiani Tolfo, que vive em Pinto Bandeira há cerca de 13 anos e é natural de Santa Catarina, também avalia que a cidade passou por mudanças importantes desde que chegou ao município. Segundo ela, a infraestrutura evoluiu, embora ainda existam pontos que poderiam avançar.
No transporte coletivo, entretanto, ela identifica uma limitação. “Eu acho que poderia ter diferentes horários, porque só tem um horário de manhã cedo, meio-dia e de noite. Claro que o município é pequeno e a maioria tem carro, mas poderia ter mais horários”, avalia.
Saúde
A saúde foi um dos temas em que os moradores demonstraram maior cautela ao fazer avaliações. Alguns apontaram que ainda há aspectos que poderiam ser aprimorados, especialmente em relação ao atendimento.
A cidade tem uma Unidade Básica de Saúde (UBS) que concentra o atendimento básico e conta com diferentes profissionais. Segundo a prefeitura, o espaço oferece consultas e atendimentos com especialistas, além de serviços odontológicos e exames. Alguns atendimentos ocorrem em dias específicos, conforme a carga horária dos profissionais e a demanda do município.
A Prefeitura também mantém convênios com hospitais da região para consultas e outros serviços, com atendimentos realizados em municípios como Bento Gonçalves, Farroupilha e Garibaldi. Para casos de maior complexidade e situações de emergência, os pacientes são encaminhados para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), em Bento Gonçalves. O município também realiza o transporte dos pacientes quando necessário. De acordo com Rigon, a lista de espera para cirurgias de baixa, média e alta complexidade costuma ser baixa, embora possa variar conforme os encaminhamentos realizados pela Secretaria de Saúde. “Não temos grandes reclamações. O principal ponto é que a UBS fecha às 17 horas. Então, quando existe uma urgência depois desse horário, o atendimento é encaminhado para a UPA”, explica.
A percepção dos moradores, contudo, não é uniforme. Moradora de Pinto Bandeira há 18 anos, Juiara Odorcik avalia que a saúde é um dos serviços que ainda provoca reclamações no município. “Eu vejo bastante gente reclamando na questão da saúde”, afirma.
Adrieli, por outro lado, possui uma avaliação mais positiva. “A saúde aqui é boa também. Tem lugares piores, então nós não podemos reclamar”, considera.
Ramayana Brandão, natural de Manaus e moradora da região há pouco mais de quatro anos, também aponta aspectos que, na avaliação dela, ainda podem melhorar na área da saúde. “Por ser um município pequeno, acho que ainda pode melhorar em alguns aspectos”, avalia.

Telefonia
Apesar da expansão do acesso à internet, a cobertura de telefonia ainda apresenta dificuldades em alguns pontos da cidade, com áreas onde o sinal é fraco, inexistente ou oscila conforme o local e o horário. Rigon considera que a situação é uma das principais demandas atuais. “O sinal oscila muito. É um problema em alguns pontos”, afirma.
A internet ajuda a amenizar parte da dificuldade, permitindo que moradores utilizem aplicativos para chamadas e comunicação.
Entre os moradores, a avaliação varia conforme a região e a operadora. Adrieli considera que algumas empresas apresentam melhor cobertura do que outras.
Educação
A educação aparece como um dos destaques de Pinto Bandeira. Juiara avalia positivamente a rede municipal. A cidade possui três instituições municipais, incluindo a creche, que funciona das 6h às 18h, e uma escola estadual no centro. Universitários também contam com transporte gratuito para Bento Gonçalves. Para Rigon, a oferta de serviços contribui para a permanência de famílias e jovens no município. “Tu consegue estudar sem ter esse custo. Isso facilita muito. A pessoa não precisa querer sair e morar fora depois que já está habituada à sua casa, à sua família e à cidade”, afirma.
Marcas das enchentes
Os eventos climáticos extremos de 2024 deixaram marcas principalmente em áreas de encosta. Segundo Rigon, aproximadamente oito pontes do interior foram levadas ou comprometidas e posteriormente reconstruídas, enquanto os acessos também foram recuperados. A produção agrícola teve perdas, principalmente entre produtores de uva e pêssego. “Hoje, os acessos estão todos refeitos. O maior impacto das atualmente é psicológico”, afirma.
Demais serviços
Pinto Bandeira possui mercados, farmácias e bancos, mas Bento Gonçalves ainda é referência quando os moradores precisam de maior variedade de produtos e serviços. Na avaliação da administração, o comércio local atende às necessidades básicas, embora os estabelecimentos sejam de menor porte. Entre os moradores, a percepção é semelhante, com deslocamentos para o município vizinho principalmente quando há necessidade de opções mais específicas.
O abastecimento de água também é considerado estável, com atendimento pela Corsan em grande parte do território e poços artesianos comunitários em algumas localidades. Segundo Rigon, períodos prolongados de estiagem podem gerar preocupação com a capacidade da barragem para atender toda a população.
A segurança aparece como um dos destaques entre os moradores. O município possui monitoramento na área urbana, nas praças e nas principais saídas, conforme Rigon. Juiara e Ramayana também apontam a tranquilidade como uma das características positivas de Pinto Bandeira, aspecto que contribui para a permanência de moradores no município.
Pêssego continua sendo principal cultura, mas cresce a produção de outras frutas

A agricultura é uma das principais bases da economia de Pinto Bandeira, com o pêssego como principal cultura e a vitivinicultura também presente, especialmente na produção de uvas para espumantes. O cultivo de pêssego rendeu ao município o título de Capital Estadual do Pêssego de Mesa.
Morador da Estrada dos Pessegueiros, na Linha Rio Branco, José Antônio Nichetti trabalha há cerca de 40 anos com pêssego e uva e, mais recentemente, intensificou o cultivo de caqui e nectarina. Segundo ele, a produção de pêssegos já superou os volumes atuais. “Nós já produzimos mais de 30 milhões de quilos e hoje estamos em torno de 24 a 25 milhões. A tendência é aumentar novamente, inclusive com a decadência da produção de uva em algumas áreas”, explica.
Mercado e custos
Apesar da força do setor, o cenário atual apresenta dificuldades relacionadas principalmente à comercialização. “O principal problema hoje é o mercado. Precisamos produzir com cada vez mais qualidade, principalmente nas frutas de caroço, nas uvas e também no caqui. O custo de produção aumentou depois da pandemia e não voltou a baixar. Pelo contrário, continua subindo”, afirma Nichetti.
A alta dos custos envolve diferentes etapas da produção. “A mão de obra está cara e os custos estão altos. Quando a venda trava, o preço acaba baixando. Por isso, hoje precisamos pensar tanto em quantidade quanto em qualidade: é preciso produzir mais por hectare e entregar um produto melhor para conseguir agregar valor”, explica.
Nichetti também aponta as condições climáticas como um fator de atenção para quem trabalha no campo.
Acesso
Nichetti reconhece que os principais acessos do município receberam melhorias e estão em boas condições, especialmente com a ampliação da pavimentação. “O problema está nos acessos que entram nas propriedades. Para esses trechos, o incentivo ainda é muito pequeno e o Poder Público não está conseguindo atender essa demanda”, relata.
A pavimentação das vias do interior também é citada por Rigon como uma das frentes de investimento da administração municipal. Segundo ele, nos últimos anos houve avanço significativo na infraestrutura viária, com a pavimentação de acessos a comunidades e localidades do município.
Além das estradas, Nichetti aponta a necessidade de fortalecer a organização dos produtores e das entidades representativas. “Precisamos nos organizar mais, fortalecer as entidades e associações para defender o nosso setor. Temos que buscar maneiras de agregar um preço um pouco melhor à produção e proteger as propriedades”, defende.
Nichetti também explica que a dificuldade de mão de obra está relacionada também à oferta limitada de moradias no município. A falta de casas ou outras opções de habitação para trabalhadores restringe a possibilidade de trazer pessoas de outras localidades para atuar nas propriedades.
Para o produtor, a questão precisa ser considerada junto às condições econômicas da atividade. A permanência das famílias no campo e a entrada de novos trabalhadores dependem, segundo ele, de condições que permitam manter a produção e garantir renda.
Turismo aumenta, mas faltam atrativos e estrutura
A sommelière Lindiane Brum considera que a cidade já possui elementos capazes de diferenciá-la. “Já possui uma identidade enoturística muito bem estabelecida, principalmente pela qualidade dos vinhos e espumantes, pela força das vinícolas e pelas características únicas do terroir. Mas ainda estamos em uma fase de consolidação do destino como um todo”, avalia.
A procura pelo município já apresenta reflexos concretos. “Conversando com proprietários de vinícolas, eles relatam que as visitas cresceram bastante. Há vinícolas que recebiam cerca de 60 mil turistas por ano e passaram a receber aproximadamente 100 mil. A pavimentação também teve impacto, porque o turista procura chegar com mais facilidade aos empreendimentos”, conta Rigon.
Juiara Odorcik, que vive em Pinto Bandeira há 18 anos, conta que percebeu uma mudança recente no fluxo de visitantes. “Os turistas começaram a vir em maior quantidade. Antes, o movimento era bem mais escasso. Com a construção das cabanas e o reconhecimento das vinícolas pela Denominação de Origem, Pinto Bandeira ficou mais conhecido e o pessoal passou a vir mais”, relata.

Estrutura é um desafio
Juiara observa que, apesar do crescimento, ainda são poucas as opções disponíveis para quem permanece na cidade. “Ainda falta muita estrutura. Hoje, existem as vinícolas e as cabanas, mas ainda não há tantas outras opções para o turista conhecer e permanecer no município”, aponta.
A empreendedora Sônia Grégio também identifica a necessidade de investimentos voltados à recepção dos visitantes. “Falta incentivo e falta infraestrutura para o turismo. Não temos nem um banheiro público adequado na praça para receber os turistas. São coisas básicas que fazem diferença quando se quer receber pessoas de fora”, afirma.
Para Sônia, que atua como empreendedora no município, o potencial não está restrito às vinícolas. “Temos paisagens lindas, mas o turista precisa ter um lugar para parar, observar e conhecer. Não temos um belvedere ou pontos estruturados para isso. Há cachoeiras e outros lugares bonitos que poderiam ser melhor aproveitados”, relata.
Para Lindiane, entretanto, a questão não depende apenas da criação de novos empreendimentos. “O grande desafio hoje é transformar diferentes atrativos em um roteiro integrado. Para aumentar a permanência, precisamos oferecer mais opções de gastronomia, hospedagem, cafés e experiências ligadas à agricultura, aos produtos locais, à natureza e à cultura das comunidades”, explica.
Reconhecimento internacional
A Denominação de Origem (D.O.) dos espumantes de Pinto Bandeira é um dos elementos que diferenciam o município. Reconhecida em 2022, a certificação relaciona o produto às características do território e exige regras específicas de produção dentro da área delimitada. A D.O. Altos de Pinto Bandeira é a primeira exclusiva para espumantes do Novo Mundo.
Para Lindiane, a certificação elevou o nível de reconhecimento. “Trouxe um novo patamar de reconhecimento para a cidade. Ela mostra que não estamos falando apenas de uma região que produz bons espumantes, mas de um território com características próprias, terroir, identidade e regras de produção específicas”, afirma.
A profissional avalia, porém, que o reconhecimento técnico ainda precisa ser convertido em uma percepção turística mais ampla. O consumidor especializado já consegue compreender o significado da certificação, mas o conceito ainda não está necessariamente associado ao município para o público em geral.
O secretário Tailor também relaciona diretamente a D.O. ao aumento da visibilidade do município. “Temos, inclusive, pessoas da França que souberam da Denominação de Origem dos espumantes e demonstraram interesse em conhecer o município e entender como é produzido o espumante daqui”, relata.
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