No domingo, 16, a comunidade de São Roque celebrou a 70ª edição da tradicional festa do padroeiro do bairro. A programação reuniu fé, devoção e confraternização, com a Missa da Saúde, às 10h, celebrada pelo pároco Moacir Canal e pelo vigário Ademar Pellegrini, seguida do almoço, ao meio-dia, no salão paroquial. Mais do que marcar sete décadas, a celebração reuniu gerações que ajudaram a construir e manter viva a história da comunidade.
Para quem acompanha a trajetória da festa há décadas, os 70 anos representam a continuidade de uma tradição que atravessa gerações. João Finatto, voluntário da comunidade há cerca de 30 anos, participa das atividades desde o fim da década de 1990 e acompanha as transformações da igreja, do salão e da própria organização da celebração.

A ligação com São Roque, porém, vem de antes de sua chegada ao bairro. O pai participava de uma comunidade que tinha o Santo como padroeiro e, todos os anos, separava o melhor porco da criação para ser sorteado na festividade. A tradição acabou se tornando parte da memória familiar. “Eu não deixo de vir na missa no sábado ou no domingo. Eu sempre participo”, afirma.
Ao longo dos anos, Finatto também acompanhou mudanças na estrutura e na dinâmica do evento. O trabalho dos garçons e a forma de servir foram se transformando, enquanto a colaboração de comunidades vizinhas passou a ser importante para completar as equipes. A busca por voluntários, especialmente entre os jovens, permanece como um dos desafios.
Segundo ele, o Curso de Liderança Juvenil (CLJ) contribui para aproximar essa faixa etária. Atualmente, cerca de 20 jovens participam de atividades como venda de rifas e ingressos e o serviço durante a festa. “É sempre bom ter a ajuda deles. Alguns ficam mais de idade e acabam se distanciando. Não é fácil fazer com que eles participem. Mas vamos indo”, relata.
Neste ano, cerca de 550 ingressos foram vendidos. Somando os trabalhadores envolvidos na organização, a estimativa é de aproximadamente 650 pessoas no salão. O número dá dimensão à mobilização necessária para um evento que é sustentado pelo trabalho voluntário.

Uma festa construída nos bastidores
O almoço servido no domingo é resultado de dias de preparação e do trabalho de dezenas de pessoas. A cozinheira-chefe Margarete Menegotto, que atua há 37 anos na profissão e participa de eventos em diferentes municípios da região, integra a equipe de São Roque há vários anos.
A preparação começou ainda no sábado, quando integrantes da comunidade cuidaram da limpeza e da organização dos utensílios. Margarete iniciou o preparo dos alimentos para deixar parte da produção encaminhada. No domingo, a equipe voltou ao trabalho às 5h. Entre os pratos tradicionais estão sopa, lesso, pien, maionese, saladas e massas. Para a edição de 70 anos, foram preparados quase 60 quilos de capeletti.
A relação da cozinheira com a comunidade também atravessa gerações. Em 1999, ela era uma das festeiras da celebração. “Foi também um ano muito maravilhoso. Gostei de ser festeira, é uma experiência muito boa”, recorda.
Maria Speranza Simadon participa da comunidade desde 2011, quando foi festeira pela primeira vez ao lado do marido. Em 2023, o casal voltou a assumir a função e, atualmente, auxilia na organização, nas compras e no apoio aos novos festeiros. Entre cozinha e serviço de garçons, ela estima a participação de mais de 70 voluntários.
Moradora do bairro há 30 anos, Maria também acompanha de perto as visitas da imagem de São Roque às comunidades, além de auxiliar nas diferentes etapas da preparação. Para ela, a participação na festa está diretamente ligada à fé e ao sentimento de pertencimento. “Somos muito devotos, já tive várias graças de São Roque. Agora tem mais que agradecer do que pedir”, afirma.
Entre a devoção e o compromisso de servir
A dimensão religiosa permanece no centro da programação. A Missa da Saúde foi um dos momentos de maior participação dos fiéis, especialmente durante a bênção com óleo bento. Para o padre Moacir Canal, a devoção a São Roque está fortemente relacionada à busca pela proteção da saúde. “Nós ungimos as pessoas com óleo santo, no final da missa e, de fato, todo mundo acorreu pedindo essa bênção”, afirma o sacerdote.

A devoção, porém, não se limita à celebração realizada dentro da igreja. Ao longo do período que antecedeu a festa, os festeiros levaram a imagem de São Roque para visitas a diferentes comunidades. Para Lara Bacon, que foi festeira junto com Felipe Cândido, esse foi um dos momentos mais marcantes da experiência. “É muito bonito ver como as pessoas te recebem, tem essa devoção também por São Roque”, relata Lara. Ela ressalta que as visitas permitiram perceber que a expressão da fé não depende do tamanho da comunidade. “Não há diferença numa igreja com 200 pessoas ou com três pessoas, porque o que importa é a presença de Deus e da fé de cada pessoa”, afirma.
A experiência também aproximou comunidades diferentes. Lara integra a comunidade São João, enquanto Cândido pertence à Paróquia São Roque. A circulação da imagem pelo interior desse percurso de fé ajudou a fortalecer os vínculos entre os grupos.

Para o pároco, a festa é resultado de um trabalho que não termina quando a celebração acaba. “É um trabalho praticamente de um ano, porque acaba uma festa, a gente já começa com a nova”, explica. A apresentação dos novos festeiros, realizada no domingo, marca justamente o início de um novo ciclo de preparação.
Segundo o sacerdote, a dedicação dos festeiros foi fundamental para a realização da 70ª edição. Os ingressos para o almoço, inclusive, estavam esgotados desde a quarta-feira anterior à festa. “Sinal de que o nosso povo está também colaborando e ajudando na festa de São Roque”, avalia.
Sete décadas e uma comunidade em transformação
A história da festa acompanha também as transformações físicas da própria comunidade. Nos últimos anos, a igreja passou por intervenções de conservação, incluindo a reforma do presbitério e a pintura interna e externa do templo. A Casa Paroquial, iniciada antes da pandemia e interrompida no período, também voltou a receber investimentos.
De acordo com Canal, os recursos da festa, somados a outras fontes da paróquia, são destinados à manutenção e às melhorias. A continuidade das obras mostra como a celebração religiosa também contribui para a preservação do patrimônio comunitário.
João Finatto relaciona esse processo de transformação ao sentimento de orgulho de quem acompanhou a trajetória da comunidade. Ele cita as melhorias na igreja e no salão e menciona também o ginásio e a continuidade das obras da Casa Paroquial. Para ele, depois de um período de paralisação provocado pela pandemia, a comunidade voltou a avançar.
O padre resume os 70 anos como uma caminhada já consolidada. Para ele, a trajetória da festa e da paróquia representa uma história que já produziu frutos e segue em construção.
O lema escolhido para a celebração: “Seguindo São Roque, abrimos portas para Cristo morar entre nós”, reforça essa dimensão religiosa. Na avaliação do sacerdote, São Roque ocupa o papel de exemplo de fé, mas o centro permanece sendo Jesus Cristo. “Os Santos nos ajudam a chegar a Cristo”, explica.
O compromisso de quem aceita servir
Assumir a função de festeiro significa entrar em um ciclo de trabalho que começa meses antes da festa. Felipe Cândido reconhece que o convite inicialmente provoca incerteza diante da quantidade de tarefas. “Quando a gente é convidado, sim, vem uma certa incerteza, vem um certo medo”, conta.
A experiência, porém, ganhou outro significado ao longo do ano. Segundo ele, apesar das críticas pontuais, o apoio recebido foi maior. Ele ressalta os cumprimentos e elogios de pessoas que acompanharam o trabalho dos festeiros jovens. “É muito gratificante quando Deus chama, Ele não abandona”, afirma.
Ao deixar a função, Cândido e Lara também transmitiram uma mensagem aos próximos festeiros: não ter medo de assumir a missão e colocar a fé como referência para o serviço. Para Lara, a experiência das visitas às comunidades foi justamente uma das demonstrações mais fortes desse compromisso.

Uma celebração que pertence ao bairro
A presença de moradores antigos ajuda a dimensionar o significado da Festa de São Roque para além de um evento anual. O prefeito Amarildo Lucatelli, que mora no bairro há mais de 40 anos, mantém uma ligação construída desde a juventude com a comunidade. “Que bom estar aqui hoje prestigiando a nossa maior festa do bairro São Roque”, afirma. Ele lembra que chegou ao bairro aos 18 anos e que, desde então, participa e auxilia a comunidade. Agora, como prefeito, considera a presença na festa uma forma de prestigiar o trabalho realizado por padres, festeiros, cozinheiros, churrasqueiros e voluntários.
A memória do bairro também aparece nas lembranças de quem conheceu a comunidade em outras épocas. Lucatelli recorda o antigo salão ligado ao padre Chico e ressalta a capacidade que o sacerdote tinha de reunir as comunidades do interior.
Mesmo com as mudanças na estrutura e na dimensão da festa, permanece uma característica que atravessa as sete décadas: a fé dos moradores. A comunidade cresceu, os espaços foram modificados, novas gerações chegaram e a organização da celebração ganhou novas formas. O vínculo com São Roque, porém, continua sendo o ponto de encontro.
A 70ª Festa de São Roque termina, assim, como mais uma etapa de uma história que não se encerra no domingo. Ao anunciar os novos festeiros, a comunidade inicia outro ciclo. O trabalho voluntário recomeça, as visitas às comunidades voltam ao horizonte e a próxima celebração começa a ser preparada.
Veja alguns flagrantes sociais da festa a seguir:











