Sem o alambrado e com o concreto caindo aos pedaços, o espaço onde o Clube Esportivo de Bento Gonçalves viveu suas maiores glórias, o antigo Estádio da Montanha, cravado no coração da cidade, na Cidade Alta, na Rua Oswaldo Aranha, virou ferida aberta ao urbanismo da cidade. Enquanto moradores e visitantes da região dividem opiniões e sugerem ideias sobre o que fazer com o lugar que foi palco do futebol gaúcho por 58 anos, quem passa pelo topo da colina sente um aperto inevitável no peito, afinal o estádio deixou saudades
As ruínas do antigo Estádio da Montanha hoje repousam em um silêncio quase desrespeitoso. Mas para o torcedor alviazul, o lugar está longe de estar vazio. É um fenômeno curioso esse que acontece com quem viveu a era de ouro da Montanha. Basta desacelerar o passo ao lado das velhas arquibancadas esburacadas para que os sentidos preguem uma peça. Se você fechar os olhos por três segundos, o barulho do trânsito ao redor desaparece. Em seu lugar, vem aquele eco distante: o ranger da roleta de ferro, o cheiro de pipoca e pastel misturado ao vento frio da serra gaúcha, e o baque seco da bola batendo na madeira da antiga casamata, e o grito de gol da torcida.

O silêncio em ruínas
O ideal para o Estádio da Montanha é a concessão do espaço para uma grande empresa se instalar em Bento Gonçalves, como a Havan, por exemplo, afirma o aposentado Beno Ceresa. “Quem viveu os tempos de glória deste gramado e assistiu a grandes jogos contra o Grêmio e o Internacional, sente um enorme vazio hoje; é muito estranho passar por aqui e escutar apenas o silêncio das ruínas”, lamenta Ceresa.
Para Maria Isabel Silva Soares, que diariamente passa pelo estádio no seu trajeto pelas ruas à procura de um emprego, a área seria perfeita para o setor imobiliário. “Para mim, este espaço é perfeito para a construção de um condomínio de apartamentos. Além de ser uma excelente nova opção de moradia para a cidade, o projeto ganharia muito destaque por conta da vista linda que o terreno oferece”, disse.

A mesma ideia tem a dona de casa, Jandira Prestes, que afirma que o terreno possui a vocação perfeita para abrigar um empreendimento residencial planejado. “A criação de um condomínio de apartamentos no local expandiria a oferta habitacional da região”, resume.
O que diz o Município
O futuro do antigo Estádio da Montanha segue sem definições. Questionada sobre o andamento de projetos para a área, a prefeitura de Bento Gonçalves, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que o tema não tem novos desdobramentos ou planos em andamento no momento.

Surge o estádio
O lendário Estádio da Montanha, batizado oficialmente como Dr. Getúlio Dornelles Vargas, foi o coração pulsante do Clube Esportivo Bento Gonçalves por 58 anos. A trajetória do gigante começou a ganhar forma em 19 de abril de 1942, com o lançamento de sua pedra fundamental, e culminou em uma inauguração festiva no dia 26 de agosto de 1945. O endereço histórico testemunhou glórias inesquecíveis até o final de 2003, quando o clube se despediu dos gramados antigos para inaugurar uma nova era no moderno Parque Esportivo Montanha dos Vinhedos, aberto oficialmente em 29 de fevereiro de 2004. Na época, a diretoria do Esportivo negociou a área da Montanha para quitar dívidas e custear o Estádio Parque da Montanha dos Vinhedos, no bairro São João.

Revitalização
Sob a gestão de Henrique Alfredo Caprara, entre 1997 e 1999, o Estádio da Montanha foi modernizado. As melhorias incluíram a pintura geral da estrutura, reformas nas arquibancadas, além da construção de novos banheiros e de uma cafeteria. Os refeitórios e os alojamentos das categorias de base também foram totalmente reformulados.

Épocas de Ouro
O Estádio da Montanha foi o pilar da histórica campanha que levou o Esportivo ao vice-campeonato gaúcho em 1979, ficando atrás apenas do Grêmio na competição. Foi palco das grandes conquistas da equipe alvi-azul bento-gonçalvense como os títulos da Divisão de Acesso em 1969 e 1999; a Copa Governador do Estado em 1973, 1977 e 1980; a Copa RS em 1982; e o campeonato do interior gaúcho em 1970, 1971, 1976, 1979, 1982 e 1987.





