Quarta-feira, 29 de Julho de 2026

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Carreata mobiliza Bento na 42ª Festa de São Cristóvão, que cresce a cada ano

Com os 400 ingressos do almoço esgotados antecipadamente, celebração movimentou comunidade, motoristas e devotos em uma programação de fé e tradição

O som dos motores tomou conta das ruas de Bento Gonçalves logo nas primeiras horas da manhã de domingo, 26. Caminhões, carros, motocicletas e famílias acompanharam a imagem de São Cristóvão na tradicional procissão motorizada que abriu a 42ª edição da festa dedicada ao padroeiro dos motoristas.

As atividades começaram às 8h, com a saída da procissão da Igreja São Roque. Ao chegar em frente à Igreja São Cristóvão, motoristas e passageiros receberam a tradicional bênção, um gesto que simboliza o pedido de proteção para quem enfrenta diariamente as estradas.

Na sequência, às 10h, a comunidade participou da missa festiva celebrada pelo pároco da Paróquia Santo Antônio, padre Volmir Comparin. O encerramento da programação ocorreu no Salão da Comunidade São Pedro Salgado, na Linha Salgado, onde foi servido um almoço com pratos típicos da culinária italiana da Serra Gaúcha.
A edição deste ano teve como festeiros Carlos Rodrigo de Lara Pereira e Eliane Gnoatto, Everton M. N. da Silva e Tamires Franceschi da Silva, Ledovino e Marisete Luisa Volpini, além de Alex e Mireli M. Vicentin. A equipe administrativa foi formada por Jandiro e Inês Parisotto, Valter e Fandila Volpini, Inavia Tancini e Alda Menegotto Vicentini.

Uma tradição construída pela comunidade

Festeiros: Tamires e Everton da Silva, Mireli e Alex Vicentin, Marisete e Ledovino Volpini, Eliane Gnoatto e Carlos Rodrigo de Lara Pereira

Por trás de um único dia de celebração existe um trabalho que se estende por meses. A organização da festa mobiliza dezenas de voluntários responsáveis por arrecadar recursos, buscar patrocinadores, organizar rifas, preparar a infraestrutura e coordenar toda a programação religiosa e festiva.

Há 17 anos à frente da equipe administrativa, Jandiro Parisotto diz que a maior recompensa está em ver a comunidade reunida. “É trabalhoso, muito trabalhoso, mas a emoção que toma conta da gente no dia do evento e a felicidade de ver as pessoas participando são muito grandes”, ressalta. Para ele, o sucesso da festa depende diretamente do envolvimento da população. “Sem a participação do povo, não existe festa”, acrescenta.

Segundo Parisotto, a festa cresceu significativamente nos últimos anos, tanto em público quanto em organização. Apesar da grande procura pelo almoço, ele acredita que o principal objetivo não é aumentar a venda de ingressos, mas fortalecer a participação da população na procissão motorizada. “O importante é ter mais gente participando do evento, da carreata, que é muito bonita”, ressalta. Para ele, por integrar o calendário oficial de Bento Gonçalves, a celebração pode ganhar ainda mais visibilidade nos próximos anos. “Vou tentar engajar mais gente nessa dinâmica de fazer a festa”, garante.

O crescimento da celebração também traz novos desafios. Como a Comunidade São Cristóvão não possui mais salão próprio, o almoço é realizado em parceria com a Comunidade São Pedro Salgado, que disponibiliza o espaço e participa da organização do evento.
Parisotto faz questão de reconhecer esse apoio. “Praticamente toda a equipe que trabalha aqui é de Salgado.

Tenho uma gratidão enorme por eles”, afirma. Ao mesmo tempo, revela que a organização já estuda alternativas para ampliar a capacidade da festa. “Estamos pensando, para o ano que vem, em buscar um espaço maior para colocar mais gente nesse evento”, observa.

Investimentos que retornam para a comunidade

Mais do que preservar uma tradição religiosa, a Festa de São Cristóvão também contribui para o desenvolvimento da comunidade. Os recursos arrecadados com os eventos e com o aluguel dos espaços são destinados a melhorias na infraestrutura da Vila Nova I, que financiam melhorias na igreja e arredores.
Segundo o coordenador da equipe administrativa, Jandiro Parisotto, entre os investimentos em andamento estão a implantação de uma academia comunitária e a construção de uma praça em frente à igreja. Ele observa que a comunidade conta com apoio do poder público, mas acredita que essa parceria poderia ser ampliada para viabilizar novas iniciativas. “Todo o dinheiro da comunidade, do aluguel do salão e dos eventos é investido na própria comunidade. Pode ter certeza de que tudo é aplicado em melhorias”, afirma.

Devoção que atravessa gerações

Equipe diretiva: Jandiro, Inês e Aline Parisotto, Fandila e Valter Volpini, Ivania Tancini e Alda Menegotto Vicentini

Entre os responsáveis pela organização da edição deste ano está o casal Everton M. N. da Silva e Tamires Franceschi da Silva. Embora seja a primeira experiência como festeiros, a participação na festa acompanha a história da família há muitos anos. “Já vem de uma tradição da família mesmo, e é gratificante participar. Pelo santo, pela devoção, pela fé”, relata Tamires. Segundo ela, assumir a função representa dar continuidade a uma caminhada construída por familiares e amigos da comunidade.

Silva explica que a devoção a São Cristóvão faz parte da história da família, mesmo sem ligação profissional com o transporte. “Meu sogro já foi festeiro e a gente vem dando continuidade a essa devoção ao padroeiro”, afirma. Ele destaca que a proteção atribuída ao santo não se restringe aos caminhoneiros. “Não trabalhamos na área de transportes, mas a importância de São Cristóvão para nós é muito grande”, acrescenta.

A preparação para a festa começou há cerca de cinco meses antes da celebração. Durante esse período, os festeiros participaram de reuniões, buscaram patrocinadores, organizaram o tradicional rifão e mobilizaram parceiros da comunidade. “Sempre temos com quem contar. Nossos parceiros estão sempre aí, e isso faz a festa ficar bonita”, ressalta Tamires. Segundo ela, 180 brindes foram arrecadados para o rifão, resultado da colaboração de empresas e moradores.

A procura pelo almoço confirmou o crescimento da festa. Os 400 ingressos foram vendidos antecipadamente e muitas pessoas acabaram sem lugar no salão. “Foi um ano em que faltou lugar para muita gente na festa, mas acolhemos quem foi possível para que tudo acontecesse da melhor forma”, observa.

Uma fé que acompanha a comunidade 

A história da Festa de São Cristóvão também se confunde com a trajetória de moradores que acompanham a comunidade há muitos anos. É o caso de Ledovino Volpini, festeiro desta edição e morador do bairro Vila Nova há cerca de 35 anos. Devoto do santo, ele conta que a ligação se fortaleceu desde que passou a morar na região. “Sempre fui devoto de São Cristóvão. Depois que vim morar aqui, abracei a comunidade”, afirma. Para ele, a celebração já faz parte da identidade do local e ocupa um lugar de destaque entre as festas religiosas do município.

Ao longo das últimas décadas, Volpini também acompanhou as transformações da Vila Nova. Segundo ele, o bairro deixou para trás antigos preconceitos e hoje se consolidou como uma região estruturada, com empresas, comércio, escolas e serviços públicos. “Não existe mais o medo de entrar no Vila Nova. Eu passo na rua e é bom dia, boa tarde com todo mundo. É bom morar no bairro”, observa.

Além da participação na festa, ele acompanha de perto o desenvolvimento da comunidade religiosa. A criação de novos espaços facilitou o trabalho dos voluntários, que atuam durante todo o ano na organização das atividades. “Há dois anos nós alugamos um salão embaixo. Então melhorou para quem trabalha na comunidade, porque o serviço era muito”, relata.

A devoção ao padroeiro também acompanha sua rotina como motorista. Volpini afirma que nunca passou por acidentes graves e atribui essa proteção à sua fé. “Faz anos que estou dirigindo e nunca aconteceu nada. Sou devoto de São Cristóvão, então ele sempre me ajuda lá no alto”, declara.

Pensando nas próximas edições, ele acredita que a procura crescente demonstra a força da festa e exige planejamento. “O pessoal tem que se organizar para pegar ingresso, porque faltou bastante desta vez”, afirma, ao destacar que a procissão continuará sendo conduzida por uma transportadora diferente a cada ano.

Proteção para quem vive nas estradas

Diogo e Leonir Civardi, responsáveis por levar a imagem do Santo na carreata

Entre os participantes da celebração estava o caminhoneiro Marcos Massutti, que há 13 anos percorre as rodovias brasileiras. Para ele, a devoção a São Cristóvão se fortalece justamente nos trajetos mais longos e nos momentos de maior risco. Ao recordar um acidente envolvendo um colega de profissão, em que houve apenas danos materiais, ele atribui o desfecho à proteção do padroeiro. “Poderia ter sido pior. Quando acontece um acidente e ninguém se machuca, para mim é uma grande demonstração da proteção de São Cristóvão”, afirma. Hoje realizando percursos mais curtos, Massutti também acompanha as mudanças na BR-116 e acredita que as obras em andamento contribuirão para melhorar a segurança dos motoristas. Ao final, estende uma homenagem aos colegas de profissão e aos agricultores. “Os motoristas passam muitos dias longe de casa, enfrentando a estrada para levar o sustento. E os colonos também têm um trabalho muito duro. Desejo proteção e saúde para todos que estão na lida todos os dias”, declara.

O privilégio de conduzir o padroeiro

A fé também acompanha a rotina da família Civardi. Responsável pela empresa que conduziu a imagem de São Cristóvão durante a procissão motorizada, Leonir Civardi afirma que participar da homenagem representa um privilégio e exigiu um esforço especial da equipe, que adaptou uma carreta exclusivamente para a ocasião. “Isso é uma alegria muito grande. Fomos buscar uma carreta emprestada para fazer uma bela apresentação. Não para aparecer, mas, sim, para honrar o santo”, ressalta. Ao recordar uma perda vivida pela empresa, ele diz que a experiência reforçou ainda mais a confiança na proteção divina. “A gente sempre lembra de rezar, de pedir proteção, para que a gente não esteja no lugar errado, na hora errada”, afirma.

O exemplo deixado por São Cristóvão

O padre Volmir Comparin refletiu sobre o significado de São Cristóvão para os cristãos e destacou que a figura do santo vai além da proteção aos motoristas.

Segundo o sacerdote, a tradição cristã ensina que São Cristóvão carregou Cristo para atravessar um rio, gesto que inspira cada fiel a carregar Cristo na própria vida. “Cristo, quando ele é presença na pessoa, ele é a luz do mundo, ele é a paz, ele é o amor”, afirma.

Para Comparin, a grande carreata realizada pelas ruas de Bento Gonçalves representa muito mais do que uma manifestação pública de fé. Ela também reforça valores como prudência, responsabilidade e respeito à vida. “Os motoristas têm um zelo na sua profissão, prudência na hora da direção e também na própria vida, nas decisões. São Cristóvão ajuda as pessoas a ter boas decisões na vida”, destaca.

Celebração fortalecida a cada edição

Ao completar 42 edições, a Festa de São Cristóvão reafirma sua importância para a comunidade da Vila Nova I e para Bento Gonçalves. Mais do que uma celebração religiosa, o evento mobiliza voluntários, transportadores, famílias e moradores em torno de uma tradição construída coletivamente ao longo de mais de quatro décadas. Para o coordenador da equipe administrativa, Jandiro Parisotto, o sucesso da festa está diretamente ligado ao envolvimento da comunidade. “Sem a participação do povo, não existe festa”, afirma.

O crescimento do público e a grande procura pelo almoço também fazem a organização pensar nos próximos passos. Com a estrutura atual já próxima do limite, a comunidade estuda alternativas para ampliar a capacidade do evento e receber um número ainda maior de participantes nas próximas edições. “Estamos pensando, para o ano que vem, em buscar um espaço maior para colocar mais gente nesse evento”, conclui Parisotto.

Fotos: Nathielly Paz

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