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Apesar das adversidades, samba mantém seu espaço em Bento

Presente em rodas de amigos, festas populares e grandes celebrações, o samba segue escrevendo sua história em Bento Gonçalves.

O cenário atual é resultado do esforço de muitos artistas que abriram caminho quando o estilo ainda ocupava espaços restritos. O músico Marcelo Chaves, responsável pelo projeto Pagode do Chaves, afirma que o reconhecimento conquistado atualmente é fruto de uma construção coletiva.

Segundo ele, nomes como Feijão e Tomate foram fundamentais para impulsionar a cultura do samba em Bento Gonçalves. Posteriormente, grupos como Partido de Primeira e C’du Samba ampliaram a visibilidade do gênero ao ocupar casas noturnas e eventos de grande porte. “Foi graças a essa galera da antiga que o samba ganhou reconhecimento. No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, o gênero deixou de estar apenas nos fundos dos quintais e passou a ocupar espaços importantes da cidade”, recorda.

Marcelo Chaves, Eduardo Anflor Bernardes, Andril de Lucena Araújo, Alexandre Paulo de Oliveira e Tainan Correia Garcia

Na época, o samba passou a integrar a programação de estabelecimentos tradicionais e eventos como Expobento e Fenavinho, aproximando o estilo de um público cada vez maior. Para ele, os artistas que mais servem de inspiração para seu trabalho são Fundo de Quintal, Revelação, Art Popular, Bokaloka, Negritude, Katingulê, Só Pra Contrariar, Raça Negra e Exaltasamba.

Atualmente, o músico mantém o projeto Pagode do Chaves, trabalho solo no qual contrata outros artistas para acompanhá-lo nas apresentações. Apesar do samba ser a base do repertório, ele também incorpora músicas de outros gêneros adaptadas ao ritmo do pagode. “Seguimos trabalhando para que melhore mais ainda. Os principais que se apresentam comigo são Eduardo Anflor Bernardes, Andril de Lucena Araújo, Alexandre Paulo de Oliveira, Tainan Correia Garcia e Ademilton Rodrigues dos Santos”, afirma.

Patrimônio cultural e instrumento de valorização

Se por um lado o samba cresceu como entretenimento e manifestação artística, por outro também se consolidou como ferramenta de preservação cultural. É com esse propósito que atua a Banda Raízes, criada em 2019 como braço artístico do Movimento Negro Raízes e que tem como integrantes Solana Corrêa (vocalista), Danner Terra (violão), Agenor Lopes (pandeiro), Keven Dutra (tantan) e Marcus Flávio (surdo e arranjos).

A vocalista explica que a iniciativa surgiu para preservar, valorizar e difundir o samba como Patrimônio Cultural Imaterial, além de reforçar a importância da cultura afro-brasileira na formação da identidade nacional. “A iniciativa surgiu da percepção de que, apesar da importância histórica e cultural desse gênero musical, ele ainda possuía pouca visibilidade em Bento Gonçalves e na Serra Gaúcha. A Banda tem um repertório exclusivo de samba sem misturar outros gêneros musicais, trazendo uma mensagem de respeito e valorização do samba”, explica.

Danner Terra, Marcus Flávio, Solana Corrêa, Agenor Lopes e Keven Dutra

Por isso, o grupo também busca homenagear personagens que ajudaram a construir a história do samba local. Entre eles está Lauro Batista Ribeiro, sambista que promovia rodas de samba em bares da cidade na década de 1970 e que é lembrado como um dos pioneiros da manifestação cultural no município.

Mais do que apresentações musicais, a banda procura transformar cada show em um espaço de reflexão e valorização da história do samba. Durante as apresentações, os integrantes compartilham informações sobre a origem do gênero, seus principais compositores e sua relação com a resistência da população negra brasileira.

Crescimento do público

Tanto Chaves quanto Solana observam um aumento do interesse pelo samba nos últimos anos. Para eles, a presença do gênero em eventos culturais e espaços públicos tem contribuído para aproximar novos públicos. “A cada apresentação percebemos um público maior. É comum recebermos relatos emocionados de pessoas que lembram de familiares, de momentos importantes da vida e que agradecem por ouvir clássicos do samba ao vivo. Observamos que muitas pessoas que inicialmente não tinham contato com o gênero passam a acompanhar, mostrando que o samba conquista naturalmente quem tem a oportunidade de vivenciá-lo”, relata Solana.

No entanto, segundo ela, o gênero ainda ocupa um espaço menor do que merece na programação cultural da cidade. “Entendemos que a cultura brasileira é plural, e o samba precisa estar presente de forma permanente nessa diversidade cultural”, ressalta.

Projetos como o “Ensaio na Rua”, promovido pelo Movimento, também têm ajudado a democratizar o acesso à cultura ao levar apresentações para praças, bairros e outros espaços públicos.

Desafios para os músicos

Apesar dos avanços, Chaves aponta que um dos principais desafios está relacionado à estrutura necessária para uma apresentação de qualidade. “O samba exige um grupo maior. Para fazer um trabalho bem feito, normalmente são necessários quatro ou cinco músicos. Isso acaba reduzindo o cachê individual dos integrantes e torna a atividade mais difícil financeiramente”, explica.

Já Solana enfatiza a necessidade de combater preconceitos históricos associados. “Nasceu das comunidades negras e, durante muito tempo, sofreu preconceito justamente por sua origem. Ainda hoje existem estereótipos que associam o samba a uma manifestação de menor valor cultural, quando, na verdade, ele representa uma das maiores riquezas da identidade brasileira. Superar isso passa pela educação, reconhecimento da contribuição da população negra para a cultura nacional e ampliação dos espaços destinados ao samba”, afirma.

O futuro do samba

Mesmo diante dos desafios, os músicos demonstram otimismo em relação ao futuro do gênero em Bento Gonçalves. A internet, as redes sociais e a renovação constante do público são apontadas como fatores que ajudam a fortalecer a cena local.

Para Chaves, a missão agora é dar continuidade ao trabalho iniciado pelas gerações anteriores. “Estamos trabalhando para que o samba esteja cada vez melhor. Devemos isso a quem lutou muito para que ele chegasse ao lugar que ocupa hoje”, afirma.

Na mesma linha, Solana reforça que o gênero continua sendo uma expressão viva da cultura brasileira e convida a comunidade a participar das rodas e apresentações promovidas na cidade. “O samba é acolhimento, alegria, memória, respeito e cultura. É uma expressão artística que atravessa gerações e faz parte da história do Brasil. Participar de uma roda de samba é viver uma experiência coletiva de música, convivência e celebração da diversidade cultural. Nosso convite é simples: venha ouvir, cantar, conhecer a história por trás das canções e descobrir por que ele continua emocionando pessoas há mais de um século. O samba é patrimônio do Brasil e pertence a todos nós”, finaliza.

Samba de Moça surge do desejo de reunir mulheres apaixonadas pelo gênero

Há quase uma década, um grupo de mulheres vem ajudando a manter o gênero presente nos palcos de Bento Gonçalves. Formado por Bruna Borges (vocal), Paloma Trevisan (cavaquinho e gaita), Luciane Beatriz Staub (bateria), Andy Gregori (percussão e cavaquinho) e Tanira Loss (baixo), o Samba de Moça construiu uma trajetória de valorização do samba tradicional, pela representatividade feminina e pela busca por mais espaço para o gênero na região.

Segundo a vocalista Bruna Borges, a ideia de criar o grupo surgiu a partir da vontade de reunir mulheres apaixonadas pelo samba e construir um projeto que refletisse essa identidade musical. “A motivação principal foi trazer mais representatividade feminina para o gênero e fortalecer o samba na nossa região, criando um projeto com verdade, união e muita musicalidade”, afirma.

Ampliação da diversidade

Em uma região frequentemente associada à cultura italiana, à música gaúcha e a outros estilos tradicionais, o grupo encontrou no samba uma forma de ampliar a diversidade cultural. Para as integrantes, levar o ritmo para diferentes espaços da Serra Gaúcha representa tanto um desafio quanto uma conquista. “O samba é patrimônio da cultura brasileira e também tem seu lugar aqui. É muito significativo ver o público se conectando com essa riqueza musical, muitas vezes descobrindo ou redescobrindo o gênero”, destaca Bruna.

Paloma Trevisan, no cavaco e gaita; Bruna Borges no vocal, e Luciane Beatriz Staub (Miqüí) como baterista. Foto: Ana Tiz.

Embora o gênero tenha uma história consolidada em grupos, bandas e rodas de samba, as integrantes acreditam que ainda há espaço para ampliar sua presença em eventos públicos e programações culturais promovidas pelo município.

Nos shows, o grupo reúne pessoas de diferentes idades. O público acima dos 30 anos é predominante, principalmente pela valorização do samba tradicional no repertório, mas crianças, jovens e novos admiradores também gostam. “O público tem sido muito receptivo. Em nossos shows percebemos pessoas que já acompanham o samba há muitos anos e outras que estão tendo um primeiro contato com o gênero, o que demonstra que existe interesse e abertura para que ele continue crescendo”, indica.

Além dos desafios naturais enfrentados por artistas independentes, o Samba de Moça precisou superar barreiras relacionadas ao fato de ser um grupo formado exclusivamente por mulheres em um ambiente ocupado mais por homens. “Isso nos trouxe a responsabilidade de mostrar nosso trabalho com qualidade, respeito e muita dedicação”, ressalta a cantora.

Tradição e influências

A proposta musical do grupo tem como base o samba tradicional, mas sem deixar de dialogar com outras influências. O repertório reúne clássicos consagrados, músicas afetivas, canções de MPB e também referências do pagode. Entre as inspirações estão nomes como Beth Carvalho, Alcione e Clara Nunes, artistas que ajudaram a escrever a história do samba brasileiro. “Não buscamos engessar o samba, mas mantê-lo vivo, respeitando sua história enquanto levamos nossa identidade para cada apresentação”, relata.

Ao longo dos quase dez anos de trajetória, o grupo participou de eventos importantes da cidade e região, incluindo apresentações na Rua Coberta, na Expobento e no Festival Internacional de Balonismo. Para as integrantes, cada apresentação representa uma oportunidade de aproximar novos públicos do gênero.

Mais do que números ou grandes palcos, são os encontros com o público que permanecem na memória das integrantes. Relatos de pessoas que recordam familiares, revivem momentos especiais ou se emocionam com determinadas canções fazem parte da rotina após os shows. “Esses momentos mostram que o samba vai muito além da música. Ele desperta memória, afeto e conexão”, comenta Bruna.

O grupo também mantém uma música de trabalho gravada, apresentada originalmente pela cantora Tati Freitas e adaptada para uma versão em samba com a identidade do Samba de Moça.

Mesmo reconhecendo os avanços conquistados, as integrantes defendem que o samba pode ocupar mais espaços. Para elas, quanto maior for a oferta de apresentações abertas ao público, maiores serão as oportunidades para que novas pessoas conheçam e valorizem o ritmo.

Para quem ainda não conhece o trabalho, Bruna faz o convite para assistir a um show, cantar, dançar e sentir tudo aquilo que o samba proporciona. “O Samba de Moça é um convite para viver o samba de forma leve, verdadeira e cheia de energia”, conclui.

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