ÚLTIMA HORA

Coisas que a correria não me deixa ver

Sempre que passo por uma amoreira, volto aos tempos de estudante no Landell. Na volta para casa, a pé, eu e os meus colegas da Licorsul fazíamos uma parada obrigatória. Colhíamos amoras direto do pé e as saboreávamos como se fossem o melhor lanche do mundo. E talvez fossem mesmo. Não pelo sabor, mas pelo tempo. Pela calma. Pela simplicidade.

Há coisas que só quem anda a pé consegue enxergar.

Depois que ganhamos um carro, parece que perdemos um pouco da capacidade de observar. Saímos de casa atrasados, pensamos no próximo compromisso, olhamos para o semáforo e mal percebemos a cidade ao nosso redor. Não sentimos o frio tocar o rosto. Precisamos tomar vitamina D porque já quase não pegamos sol. Nem notamos que, nesta época do ano, as árvores da Planalto ficam avermelhadas, como se anunciassem silenciosamente a chegada do inverno.

Às vezes um restaurante mudou de endereço, um prédio ganhou outra cor, uma casa foi demolida para dar lugar a um estacionamento. Chamamos isso de progresso. Mas também há perdas que ninguém contabiliza.

Poucos percebem quando alguém muda o corte de cabelo. Quando um amigo anda mais calado. Quando a lua está cheia. Quando um filho cresceu de repente. A correria nos roubou o hábito de reparar.

E, sem perceber, ela também nos roubou um pedaço da vida.

Esquecemos que a pressa esconde o essencial. Enquanto corremos de um compromisso para outro, mais de 170 mil pessoas não acordaram hoje. Milhões enfrentam doenças graves e dariam tudo por mais um amanhecer. Centenas de milhões de adultos sequer aprenderam a ler. A vida comum que levamos pode ser exatamente o sonho de alguém.

Então percebemos que as crianças cresceram, os pais envelheceram, alguns já partiram. Trabalhamos demais, descansamos de menos e colecionamos estresse como se fosse sinônimo de produtividade. Muitos relacionamentos são substituídos pela solidão ou pela ilusão de felicidade que cabe perfeitamente nas redes sociais, mas não na vida real.

Talvez ainda haja tempo.

Tempo de procurar amoras outra vez. De caminhar sem relógio e sem celular. De sentar em um parque apenas para observar o movimento. De olhar as estrelas, sentir o cheiro do churrasco de domingo, experimentar uma fruta colhida do pé, brincar de comidinha com uma criança ou simplesmente jogar conversa fora durante uma partida de cartas.

No fim das contas, a vida nunca deixou de acontecer. Quem deixou de olhar para ela fomos nós.

E talvez a maior pressa que devamos ter seja a de voltar a enxergar aquilo que sempre esteve diante dos nossos olhos.

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