Segunda-feira, 06 de Julho de 2026

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Especialistas alertam para os perigos da obsessão pelo emagrecimento

A busca pelo corpo considerado ideal nunca esteve tão presente. Nas redes sociais, imagens de silhuetas extremamente magras ou altamente definidas se multiplicam diariamente, acompanhadas por promessas de dietas rápidas e transformações físicas. Por trás desse cenário, porém, cresce uma preocupação silenciosa entre os profissionais de saúde: o aumento dos transtornos alimentares e dos casos de magreza extrema.

Transtornos como anorexia nervosa, bulimia e compulsão alimentar são doenças psiquiátricas graves que afetam a saúde física, emocional e social dos pacientes. Quando não identificados precocemente, podem provocar complicações severas e, em situações extremas, levar à morte.

Segundo a professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e nutricionista Karina Giane Mendes, os transtornos alimentares modificam profundamente a relação da pessoa com a comida e com o próprio corpo. “São condições de saúde mental que alteram de forma persistente a alimentação e a relação com o corpo. Eles envolvem pensamentos, crenças, sentimentos e comportamentos relacionados à comida, ao peso e à imagem corporal, causando sofrimento, prejuízo na rotina e complicações clínicas”, explica.

Nutricionista Karina Giane Mendes

Ela destaca que a anorexia nervosa é caracterizada principalmente pela restrição alimentar intensa, medo de ganhar peso e percepção distorcida da própria imagem. Já na bulimia ocorrem episódios de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios, enquanto no transtorno de compulsão alimentar há perda de controle sobre a alimentação, sem os métodos compensatórios frequentes.

Os serviços e pesquisas mostram com frequência maior presença de mulheres jovens e adultas, mas isso não define quem pode adoecer. “Os transtornos alimentares não são limitados a um único sexo, idade, classe social ou padrão corporal. Por isso, é importante evitar estereótipos. A ideia de que anorexia ou bulimia só acontecem em meninas jovens e muito magras pode atrasar o reconhecimento do problema e a procura por ajuda em muitas pessoas”, ressalta.

Quando emagrecer deixa de ser saudável

Para Karina, o problema não está apenas no desejo de perder peso, mas na forma como esse objetivo passa a dominar a vida da pessoa. “Deixa de ser saudável quando o peso passa a comandar a rotina, as escolhas, o humor e até os relacionamentos. Surgem restrições persistentes, medo intenso de engordar, culpa após comer e comportamentos que comprometem a saúde física, emocional e social”, indica.

Ela alerta que uma alimentação equilibrada pressupõe flexibilidade e permite escolhas conscientes. Já o comportamento obsessivo é marcado por regras rígidas, culpa constante, medo da fome e preocupação excessiva com calorias.

Uma doença complexa

Para o psiquiatra Carlos Gomes Ritter, não existe uma única causa para os transtornos alimentares. “São condições extremamente complexas. Precisamos considerar fatores biológicos, psicológicos, familiares e socioculturais”, enfatiza.

Segundo o especialista, a magreza extrema frequentemente representa muito mais do que um objetivo estético. “Muitas vezes simboliza uma tentativa de alcançar controle sobre a própria vida, sobre o ambiente familiar ou profissional. Pode ser uma forma de lidar com inseguranças ou perseguir um ideal de perfeição impossível”, indica.

Redes sociais ampliam a pressão estética

Os especialistas concordam que as redes sociais intensificaram a exposição a padrões corporais irreais.
Ritter explica que algoritmos passam a oferecer continuamente conteúdos relacionados ao emagrecimento para quem demonstra interesse pelo tema. “A pessoa passa a se comparar constantemente com corpos que muitas vezes não correspondem à realidade. São imagens frequentemente editadas, mas acabam sendo vistas como um padrão possível e necessário”, destaca.

Karina também demonstra preocupação com os mitos disseminados na internet. Entre eles, destaca a ideia de dividir alimentos entre “bons” e “ruins”, considerar a fome um inimigo e acreditar que restrições extremas representam saúde. “Restringir demais pode fazer parte de um ciclo de dieta, compulsão e compensação. Exemplo: a pessoa começa a dieta na segunda-feira, come menos do que precisa ao longo da semana, não consegue sustentar a restrição e acaba comendo em maior quantidade no fim de semana. Então vêm a culpa, a frustração e a tentativa de recomeçar a dieta na segunda-feira. Cuidar da alimentação não deveria significar viver em vigilância permanente, medo ou punição”, exemplifica.

Ela observa que dietas muito rígidas frequentemente alimentam um ciclo de privação, compulsão alimentar, culpa e novas restrições, dificultando uma relação saudável com a alimentação. “Evito usar o termo ‘dieta’ de forma automática, porque, para muitas pessoas, ele vem carregado de ideia de restrição, proibição e recomeços constantes. Na prática, o problema não é a palavra em si, mas o que ela costuma representar: comer menos do que precisa, seguir regras rígidas e sentir culpa quando não consegue manter esse padrão. Prefiro falar em organização da alimentação, mudanças de hábitos ou cuidado alimentar, porque isso abre espaço para uma relação mais flexível e sustentável com a comida, sem transformar cada escolha em acerto ou erro”, evidencia.

Sinais de alerta

Os especialistas orientam que familiares e amigos estejam atentos a mudanças importantes de comportamento.
Entre os principais sinais estão:

  • Perda significativa de peso;
  • Preocupação excessiva com alimentação e calorias;
  • Medo intenso de engordar;
  • Restrições alimentares cada vez maiores;
  • Isolamento em situações que envolvem refeições;
  • Exercícios físicos em excesso;
  • Episódios de compulsão;
  • Uso de laxantes, diuréticos ou medicamentos para emagrecer;
  • Culpa intensa após comer;
  • Insatisfação constante com o próprio corpo, mesmo diante de magreza acentuada.
    Segundo Karina, a abordagem deve ser acolhedora. “O mais importante é conversar sem julgamentos e sem transformar a conversa em comentários sobre peso ou aparência. Em vez de vigiar, pressionar ou dizer que é ‘falta de força de vontade’, familiares e amigos podem mostrar que perceberam o sofrimento e ajudar essa pessoa a buscar atendimento. Lembrando que o diagnóstico deve ser feito por um médico”, frisa. Ritter reforça que confrontos ou tentativas de controlar a alimentação costumam ser pouco eficazes. “O objetivo deve ser acolher, ter paciência e estimular uma avaliação especializada”, afirma.
Psiquiatra Carlos Gomes Ritter

Restrições afetam todo o organismo

A magreza extrema compromete diversos sistemas do organismo. A nutricionista Karina Giane Mendes explica que a restrição alimentar prolongada pode provocar desnutrição e deficiências nutricionais, além de comprometimento do funcionamento físico e de prejuízos sociais. “Em crianças e adolescentes, a ingestão insuficiente das necessidades energéticas e nutricionais pode prejudicar o crescimento, o desenvolvimento e a aprendizagem. Em adultos, restrição alimentar persistente e baixo peso significativo não devem ser vistos apenas como uma questão estética ou de força de vontade. Eles podem comprometer o funcionamento do organismo, com fraqueza, tonturas, frio excessivo, perda de massa muscular, alterações hormonais, gastrointestinais e cardiovasculares. Por isso, esses casos precisam de avaliação clínica e de um tratamento feito com cuidado, de forma gradual e individualizada”, reitera.

Ritter acrescenta que os efeitos também atingem diretamente o cérebro. “A desnutrição afeta o funcionamento cerebral. Surgem dificuldades de concentração, perda de memória, ansiedade intensa, depressão, isolamento social e, em casos graves, pensamentos suicidas e sintomas psicóticos”, pontua.

Segundo ele, a anorexia nervosa figura entre os transtornos psiquiátricos com maior índice de mortalidade, entre 20 e 30%.

Tratamento exige trabalho em equipe

O tratamento deve envolver diferentes profissionais. Karina explica que nutricionista, psicólogo e psiquiatra precisam atuar de forma integrada. “Mais do que ter vários profissionais atendendo a mesma pessoa, o ideal é que exista uma atuação interprofissional. Isso quer dizer que psiquiatra, psicólogo e nutricionista não trabalham separados, cada um cuidando apenas da sua parte. Eles conversam entre si e pensam juntos no melhor caminho para aquele paciente. O psiquiatra acompanha a saúde clínica, possíveis transtornos associados e a necessidade de medicamentos ou de um cuidado mais intensivo. O psicólogo trabalha o sofrimento emocional, os pensamentos e os comportamentos ligados à comida, ao peso e à imagem corporal. O nutricionista ajuda na recuperação nutricional, na organização das refeições, na redução da restrição e na construção de uma relação mais tranquila com a comida. Esse trabalho conjunto é importante porque o transtorno alimentar não afeta só a alimentação. Ele pode comprometer o corpo, as emoções, os relacionamentos, a rotina e a vida social. Às vezes, a pessoa melhora em um aspecto, mas ainda precisa de cuidado em outros. Por isso, quando os profissionais atuam de forma integrada, o tratamento tende a ser mais completo”, salienta.

Segundo ela, o tratamento precisa olhar ao mesmo tempo para a segurança clínica, a recuperação nutricional e os aspectos psicológicos e comportamentais do transtorno. “Um dos maiores desafios é que a restrição e o medo de ganhar peso podem persistir mesmo diante de baixo peso significativo. Às vezes, a própria pessoa tem dificuldade de reconhecer a gravidade da situação, o que pode dificultar a adesão ao cuidado. Mesmo quando há melhora do peso ou dos sintomas mais aparentes, isso não quer dizer que a pessoa já esteja bem na relação com a comida e com o corpo. Ainda podem permanecer dificuldades para lidar com a fome, escolher alimentos ou acreditar que é possível ter uma alimentação e um peso adequados. Por isso, é um processo que exige tempo, acompanhamento contínuo e atenção à prevenção de recaídas”, indica.

Relação com a comida precisa ser saudável

O psiquiatra Carlos Gomes Ritter acrescenta que medicamentos nem sempre são necessários, mas a avaliação psiquiátrica é fundamental para identificar transtornos associados, como ansiedade e depressão. “Muitos apresentam sintomas ansiosos antes mesmo do surgimento do transtorno alimentar. É comum também transtornos de personalidade, automutilação e abuso de substâncias, principalmente de medicamentos para emagrecer”, diz.

Ele destaca que o diagnóstico precoce aumenta significativamente as chances de recuperação e reduz o risco de complicações clínicas.

Recuperação é possível

Embora o tratamento exija tempo e acompanhamento contínuo, os especialistas afirmam que a recuperação é uma realidade.

Segundo Karina, o processo vai muito além do ganho de peso. “Ao longo do tratamento, é possível reduzir sintomas, crenças distorcidas, culpa após comer e ansiedade em situações sociais envolvendo alimentação. Ainda assim, algumas dificuldades podem persistir por mais tempo, como o desejo de não comer, a dificuldade de lidar com a fome, a restrição ou o uso da comida para aliviar sofrimento. Uma recuperação mais completa envolve reconstruir uma alimentação regular e suficiente, trabalhar a relação com a comida e o corpo e manter estratégias de cuidado para prevenir recaídas”, avalia.

Ritter afirma que muitos pacientes conseguem retomar uma vida plenamente saudável quando recebem tratamento adequado e contam com o envolvimento da família. “Mas claro, pode haver recaídas em períodos de estresse”, alerta.

Ao final, Karina e Ritter deixam um alerta importante: transtornos alimentares não são escolhas, vaidade ou falta de disciplina. “Eu gostaria de reforçar que uma relação difícil com a comida e com o corpo não é sinal de fraqueza, futilidade ou falta de disciplina. Quando comer, sentir fome, olhar-se no espelho ou pensar no peso passa a causar sofrimento intenso, isolamento, culpa ou medo, isso merece cuidado. Ninguém precisa esperar estar ‘grave o suficiente’ ou ter um sofrimento visível para procurar ajuda. O tratamento pode ajudar a construir uma relação mais segura e menos punitiva com a alimentação, o corpo e a própria vida. Às vezes, o primeiro passo é falar com alguém de confiança e buscar uma equipe que saiba acolher esse sofrimento sem julgamento”, finaliza Karina.

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