O Aeroclube de Bento Gonçalves se aproxima de oito décadas de atuação mantendo atividades que vão além dos voos recreativos. A entidade abriga uma escola de formação de pilotos, recebe aeronaves executivas, oferece voos panorâmicos e participa de operações de apoio à comunidade em situações de emergência. Nos próximos anos, a instituição também pretende ampliar sua estrutura para acompanhar o crescimento da movimentação aérea na região.

Segundo o presidente do Aeroclube, Fábio Romani, a entidade reúne diferentes funções em uma mesma estrutura. Além do clube voltado aos praticantes da aviação esportiva, existe um centro de instrução homologado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), responsável pela formação de pilotos privados, comerciais e instrutores de voo. O local também abriga atividades ligadas ao voo a vela. “O Aeroclube tem praticamente duas entidades dentro de uma só. Temos um clube de voo, onde as pessoas que gostam de aviação realizam seus voos esportivos e convivem em um ambiente de confraternização, mas também temos uma escola reconhecida pela Anac para formar profissionais que vão atuar na aviação civil brasileira”, explica.
Romani destaca ainda que existe uma confusão frequente entre os conceitos de Aeroclube, aeródromo e aeroporto. Embora as estruturas funcionem no mesmo espaço, elas possuem atribuições diferentes. A área operacional da pista está vinculada ao aeródromo, enquanto o Aeroclube atua como entidade privada voltada à formação, ao fomento da aviação e à prestação de serviços relacionados ao setor.
A secretária executiva do Aeroclube, Adiane Cavalleri, observa que boa parte da população ainda desconhece a dimensão do trabalho realizado pela entidade. “Muitas pessoas de Bento Gonçalves não têm conhecimento da importância do Aeroclube Recebemos em média 30 aeronaves por mês, muitas delas trazendo empresários, turistas e visitantes de diversas regiões do país e eventualmente do exterior. Isso movimenta a economia, fortalece o turismo e gera desenvolvimento para a cidade”, afirma.
Além da atividade de ensino e da prática aeronáutica, a estrutura é utilizada para operações de interesse público. Entre elas estão voos relacionados ao transporte de órgãos para transplantes, deslocamentos por motivos de saúde e ações emergenciais.
Durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, o local serviu de base para operações de resgate aéreo. “Em determinados momentos, nove helicópteros atuaram simultaneamente a partir do local, contribuindo para o resgate de 319 pessoas. Foi um momento que evidenciou para a comunidade a importância de contar com uma estrutura aeronáutica preparada para atender situações de emergência”, relembra.

O Aeródromo
O avanço da infraestrutura aeroportuária de Bento Gonçalves segue em fase de tramitação junto aos órgãos federais, com etapas técnicas já concluídas e novas homologações ainda pendentes. O Aeródromo Municipal opera atualmente sob regras de voo visual diurno (VFR), com restrições impostas pela ausência do sistema APAPI, equipamento exigido pela Anac para aprimorar a segurança nas aproximações.
De acordo com o secretário de Turismo, Henrique Núncio, o município já encaminhou os principais processos de adequação para a liberação do aeroporto. Em parceria com o Aeroclube de Bento Gonçalves, a administração tramita a homologação para operação noturna, instalação do APAPI e liberação do terminal de passageiros e do pátio de manobras. “O aeródromo está homologado para VFR diurno, mas seguimos com os processos de VFR noturno, APAPI e estrutura do terminal, que aguardam análise da Anac”, afirma.
Estudos técnicos concluídos
Segundo a Secretaria de Turismo, não há novas exigências técnicas em andamento. Todos os estudos necessários para balizamento noturno, pátio de manobras e instalação do APAPI já foram protocolados no Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) e na Anac. “Os estudos já foram concluídos e entregues aos órgãos responsáveis. Não há demanda adicional conhecida neste momento”, afirma.
Os investimentos realizados até agora somam cerca de dois milhões, envolvendo Prefeitura, Aeroclube e a iniciativa Unidos por Bento, após as enchentes de 2024. A expectativa é de que, após as homologações, o aeródromo opere sem necessidade de grandes aportes, concentrando recursos apenas em manutenção.
O secretário destaca que a infraestrutura deve atender principalmente à aviação executiva e operações de pequeno porte. “A ideia é ampliar as operações e manter o aeródromo como alternativa regional para aeronaves menores”, afirma.

Limites para um aeroporto regional
Apesar dos avanços, a estrutura atual não comporta a operação de aviões a jato em voos comerciais. Entre os entraves estão a largura da pista e a área disponível no entorno, abaixo do exigido para esse tipo de operação. Também seriam necessários sistemas mais complexos de navegação por instrumentos, o que elevaria custos. “Para operação comercial com jatos seria necessária uma pista mais larga e uma área de escape maior, além de equipamentos IFR de alto custo, o que hoje não se justifica pelo volume de tráfego esperado”, explica Núncio.
A projeção da gestão municipal é consolidar o aeródromo como apoio à aviação executiva e como alternativa regional a aeroportos próximos. A expectativa é de ampliação gradual das operações após a liberação das etapas pendentes pela Anac, sem previsão de expansão para modelo de aeroporto comercial de grande porte.
Formação de pilotos
Atualmente, a instituição conta com cerca de 30 alunos em formação e realiza, duas vezes ao ano, turmas preparatórias para a prova da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O curso teórico abrange cinco disciplinas fundamentais para a formação do piloto: Navegação Aérea, Teoria de Voo, Regulamentos de Tráfego Aéreo, Conhecimentos Técnicos de Motores e Meteorologia.
De acordo com o aluno e gestor de Segurança Operacional, Airton Soares, após a aprovação no exame da Anac, o candidato deve obter o Certificado Médico Aeronáutico (CMA), documento que atesta sua aptidão física e psicológica para o exercício da atividade aérea. Somente após essa etapa é iniciado o treinamento prático de voo.
Segundo Soares, a formação teórica tem duração média de três meses. Já a fase prática varia de acordo com a disponibilidade do aluno, as condições meteorológicas e a frequência dos voos realizados, fazendo com que o tempo total de formação seja diferente para cada estudante.
A escola recebe alunos de diferentes perfis. Alguns pretendem seguir carreira na aviação comercial ou executiva, enquanto outros buscam a formação como realização pessoal. “Hoje temos alunos com mais de 60 anos. Alguns estão em busca de uma profissão, enquanto outros aproveitam a oportunidade para concretizar um sonho antigo”, observa Adiane.
A formação pode ser iniciada a partir dos 16 anos de idade, embora o voo solo só possa ser realizado após os 18 anos e com a conclusão do ensino médio.
Nos últimos anos, parte dos alunos formados na instituição ingressou em companhias aéreas e empresas da aviação executiva. A direção destaca que a escola também recebe estudantes vindos de outras cidades da região.

Aproximação com a comunidade
Outro foco da atual gestão é ampliar a aproximação com a população. Segundo Adiane, ainda existe entre alguns moradores a percepção de que o Aeroclube seria um espaço restrito a associados. “Durante muitos anos existiu a percepção de que o Aeroclube era um espaço restrito, mas essa realidade mudou significativamente. O Aeroclube é aberto ao público. As pessoas podem vir, tomar um chimarrão, acompanhar a movimentação das aeronaves, conhecer os aviões e até realizar voos panorâmicos. Tudo isso respeitando sempre as áreas destinadas aos visitantes e as normas de segurança operacional”, destaca Adiane.
Além das visitas espontâneas, a instituição recebe escolas e grupos interessados em conhecer o funcionamento das atividades aeronáuticas. Soares ressalta que a proposta é tornar o ambiente mais acessível para quem tem curiosidade sobre o setor.
O presidente afirma que um dos compromissos assumidos pela atual diretoria foi justamente romper essa barreira. “Hoje recebemos escolas, entidades, famílias e visitantes que desejam conhecer a aviação de perto”, afirma.
Nos últimos anos também foi implantada a operação de voos panorâmicos, modalidade que permite aos visitantes conhecer Bento Gonçalves e parte da Serra Gaúcha a partir de sobrevoos realizados por aeronaves homologadas para essa atividade.
Segundo a direção, a iniciativa tem atraído tanto moradores quanto turistas interessados em conhecer a região sob outra perspectiva.
Segurança e manutenção
A segurança operacional é um dos pontos destacados pela administração do Aeroclube. A frota utilizada para instrução é composta atualmente por três aeronaves, submetidas a inspeções periódicas e manutenções obrigatórias. Adiane explica que os cronogramas de manutenção são seguidos rigorosamente. “Quando a aeronave atinge o limite previsto para manutenção, ela para de operar até que todos os procedimentos sejam concluídos”, afirma.
Além disso, a instituição acompanha as atualizações das normas da Anac e mantém assessoria especializada para garantir o cumprimento das exigências regulatórias.

Projetos de expansão
O principal projeto da entidade para os próximos anos é a ampliação dos hangares. A proposta busca aumentar a capacidade de atendimento a aeronaves de maior porte e acompanhar o crescimento das operações executivas na região.
Segundo Romani, a expectativa é que a movimentação aérea aumente gradualmente com as melhorias previstas para a infraestrutura do aeródromo. “A ampliação dos hangares permitirá receber mais aeronaves e melhorar o atendimento aos usuários da aviação executiva”, afirma.
Nos últimos anos também foram realizados investimentos em salas de recepção, espaços para passageiros e tripulações, alojamentos para alunos e melhorias estruturais voltadas ao atendimento das operações conhecidas como FBO, serviço destinado à recepção e suporte de aeronaves executivas.
A direção acredita que os investimentos devem fortalecer a posição de Bento Gonçalves dentro da malha de aviação regional, especialmente para operações ligadas ao turismo e aos negócios.
Ao mesmo tempo, a entidade pretende continuar investindo na formação de pilotos e na aproximação com a comunidade. Para os gestores, a população ainda conhece pouco as atividades desenvolvidas no local e as possibilidades oferecidas pela escola de aviação. “Queremos que as pessoas saibam que o Aeroclube está aberto à comunidade. Quem tiver interesse em conhecer a estrutura, a escola ou a aviação pode nos visitar”, conclui Romani.