Localizado em Garibaldi, o bairro Tamandaré reúne características que o tornam uma região singular na Serra Gaúcha. Distante da área central do município, o local concentra parte importante das atividades industriais da cidade, abriga dezenas de empresas e ocupa posição estratégica entre Bento Gonçalves, Farroupilha e Garibaldi.

O desenvolvimento econômico observado nos últimos anos é acompanhado por mudanças na ocupação do território, ampliação da pavimentação e crescimento da atividade empresarial. Ao mesmo tempo, a população aponta desafios relacionados à mobilidade, ao transporte coletivo e, principalmente, ao acesso pela RS-453.

Apesar das demandas, a avaliação predominante entre os entrevistados é positiva. Segurança, tranquilidade e localização estratégica aparecem entre os principais atributos destacados por quem mora ou trabalha no bairro.

Entre o perfil residencial e a força industrial

Ao longo das últimas décadas, Tamandaré passou por transformações significativas. A região, que já teve características mais rurais, consolidou-se como uma importante concentração industrial de Garibaldi.

Moradora da região há 28 anos, Cristiane Salini acompanhou de perto esse processo. Segundo ela, a infraestrutura viária evoluiu consideravelmente ao longo do tempo. “Quando eu era criança, muitas ruas eram de chão. Hoje o acesso melhorou bastante com a pavimentação. Evoluiu muito nesse aspecto”, relata.

Cristiane observa que o crescimento não ocorreu apenas na área residencial. Para ela, a expansão empresarial também se tornou uma marca. “Vejo novos loteamentos surgindo e também um aumento importante da parte industrial”, afirma.

A percepção é compartilhada por Michel Bianchi, administrador de uma empresa familiar do ramo madeireiro instalada no bairro desde a década de 1970. “A localização é excelente. Estamos próximos de grandes centros e temos facilidade de ligação com Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Porto Alegre e Farroupilha. O potencial de desenvolvimento é enorme”, destaca.

Para Michel Bianchi, Tamandaré ocupa posição estratégica dentro da economia de Garibaldi. “É um dos principais polos industriais do município. Temos mais de uma centena de empresas instaladas e uma participação importante na atividade econômica da cidade”, observa.

A quantidade de empresas também é vista como uma vantagem operacional para quem trabalha na região. Funcionário de uma matalúrgica instalada no bairro há quase três anos, Rian Pelegrini destaca que a proximidade entre os negócios facilita a utilização de serviços complementares. “Temos empresas parceiras muito próximas. Quando precisamos terceirizar algum processo, como pintura ou usinagem de peças, conseguimos encontrar fornecedores aqui mesmo na região. Isso agiliza a logística e reduz o tempo de transporte”, relata.

Deslocamento é obstáculo para trabalhadores e moradores

Embora a localização seja considerada uma vantagem para a comunidade, o transporte coletivo aparece como uma das principais dificuldades relatadas nas entrevistas.

Cristiane afirma perceber redução na oferta de horários ao longo dos anos. “Antigamente eu via mais ônibus circulando por aqui. Hoje parece que os horários diminuíram bastante”, comenta.

Segundo ela, a situação é sentida principalmente por pessoas que não possuem veículo próprio. “A minha mãe, por exemplo, sente falta de ter um mercado mais próximo quando precisa se deslocar e não tem carro disponível”, relata.

Entre os empreendedores, a avaliação segue na mesma direção. Michel Bianchi considera que a deficiência acompanha o bairro há muitos anos. “Sempre foi uma dificuldade. Houve tentativas de implantação de linhas para atender melhor a região industrial, mas elas não tiveram continuidade”, explica.

A limitação também impacta diretamente na contratação de mão de obra.
Segundo Michel Bianchi, a maioria dos trabalhadores utiliza veículo próprio para se deslocar. “A realidade hoje é que grande parte das pessoas depende do carro para chegar ao trabalho”, afirma.

Priscila Cortelini, que trabalha há dois anos em uma empresa localizada no bairro e também mora em Tamandaré, relata que a questão frequentemente interfere nos processos de contratação. “Temos bastante dificuldade porque existem poucos horários de ônibus. Isso acaba pesando muito quando buscamos novos funcionários”, relata.

A mesma percepção é compartilhada por Pelegrini, que é morador de Bento Gonçalves. “Para quem mora em Bento, dependendo da localização, o deslocamento pode ser complicado. Temos colegas que precisam utilizar mais de um ônibus para chegar até aqui”, afirma.

Acesso à RS-453 concentra críticas

Entre todos os temas abordados durante as entrevistas, nenhum apareceu com tanta frequência quanto a situação do acesso do bairro à RSC-453. O entroncamento é apontado por moradores e empresários como o principal desafio de infraestrutura da comunidade.

O local concentra diariamente o fluxo de caminhões e veículos que utilizam a rodovia, uma das mais importantes conexões da região. Atualmente sob concessão da Caminhos da Serra Gaúcha (CSG), a RSC-453 é utilizada por milhares de motoristas diariamente e também desempenha papel fundamental na logística das empresas instaladas em Tamandaré.

Segundo Michel Bianchi, a reivindicação por melhorias no local existe há mais de duas décadas. “Há muitos anos buscamos alguma solução. Já foram realizadas reuniões, visitas técnicas e propostas de diferentes alternativas, mas a situação permanece praticamente a mesma”, afirma.

Ele explica que o problema envolve uma combinação de fatores. “Existe baixa visibilidade, intenso fluxo de veículos e um grande número de empresas utilizando o acesso diariamente. Isso gera insegurança tanto para quem entra quanto para quem sai do bairro”, relata.

O empresário destaca ainda a circulação frequente de veículos pesados e de grande porte. “Além dos automóveis, há muitas carretas e caminhões transitando pela região. Isso torna a operação ainda mais complexa”, observa.

Segundo ele, acidentes e colisões são registrados com frequência. “Já presenciei capotamentos e diversas batidas no local. Muitas ocorrências acabam nem chegando ao conhecimento público”, afirma.

A preocupação é compartilhada por Marcos Bianchi, proprietário de um restaurante. “O acesso atual é muito complicado. Uma melhoria beneficiaria as empresas, os moradores e também os empreendimentos ligados ao turismo”, avalia.

Segundo ele, visitantes costumam comentar sobre a dificuldade. “Muitas pessoas dizem que o acesso é perigoso, principalmente quando chegam pela primeira vez”, relata.

Priscila relata que, em algumas situações, prefere realizar trajetos mais longos para evitar utilizar diretamente o entroncamento. “Dependendo do destino, faço um percurso maior porque considero aquela saída complicada”, comenta.

Segundo Pelegrini, a situação afeta inclusive o transporte de matérias-primas e o escoamento da produção industrial. “Dependendo do porte do caminhão, as manobras ficam mais difíceis e isso acaba impactando a logística das empresas”, explica.
A reportagem entrou em contato com CSG, concessionária responsável pela administração da RSC-453, para questionar se há estudos ou projetos voltados a melhorias no acesso ao bairro. Até o fechamento desta edição, a empresa não havia retornado aos questionamentos.

Acesso entre o bairro Tamandaré e a RSC-453 é apontado por moradores e empresários como o principal gargalo de mobilidade (Foto: Jornal Semanário)

Segurança é vista como ponto positivo

Se a mobilidade aparece como principal desafio, a segurança surge como uma das características mais valorizadas pelos entrevistados.

Moradora há quase três décadas, Cristiane afirma considerar o bairro tranquilo. “É um lugar sossegado para viver. Não vejo registros frequentes de assaltos ou situações que gerem preocupação constante”, relata.

A percepção é compartilhada por Priscila. “Comparando com outros onde já morei, considero um bairro bastante seguro”, afirma.
Segundo ela, o cotidiano permite que empresas e moradores mantenham uma rotina calma. “Ainda conseguimos trabalhar com certa tranquilidade. Claro que existem cuidados, mas não é um lugar que transmite sensação constante de insegurança”, comenta.
Marcos Bianchi também avalia positivamente a situação. “É uma região calma e o policiamento tem sido frequente”, observa.

Apesar da avaliação positiva, Michel Bianchi acredita que investimentos em monitoramento poderiam reforçar a proteção da comunidade. “Um sistema de câmeras seria uma medida interessante para ampliar ainda mais a segurança”, sugere.

Serviços públicos recebem avaliações positivas

A comunidade relata satisfação com áreas como abastecimento de água, coleta de lixo e manutenção dos serviços públicos, sem apontar problemas significativos nesses setores.

Na área da saúde, a assistência prestada prestado no bairro foi amplamente elogiada pelos moradores ouvidos pela reportagem. Priscila destaca a facilidade para marcar horários e a agilidade no do serviço oferecido pela unidade de saúde local. “O atendimento é rápido, o agendamento funciona bem e as profissionais são muito atenciosas”, relata.

Segundo ela, a principal dificuldade ocorre quando há necessidade de encaminhamentos que dependem de procedimentos realizados na área central de Garibaldi, exigindo deslocamentos até o município.

Escola e estrutura comunitária aparecem entre as demandas

Algumas questões relacionadas à infraestrutura comunitária também foram mencionadas durante as entrevistas. Entre elas, a situação da escola estadual localizada no bairro aparece como uma das principais preocupações apontadas.

Priscila é mãe de dois alunos da instituição e afirma que a comunidade sente falta de uma atenção maior voltada à estrutura escolar. Segundo ela, o colégio é o único do bairro e atende um número reduzido de estudantes, característica que influencia sua organização. “É uma escola pequena. Como há poucos alunos, algumas turmas são unificadas. Tem séries diferentes estudando na mesma sala de aula”, relata.

Conforme a moradora, a instituição enfrenta dificuldades relacionadas à manutenção e à disponibilidade de recursos. Entre os problemas observados por ela estão a necessidade de melhorias na estrutura física e a falta de investimentos para atender demandas do dia a dia escolar. “Tem algumas deficiências estruturais. Existem janelas quebradas e outras questões que poderiam receber mais atenção”, afirma.

Além da escola, Priscila também cita a situação do ginásio da comunidade. Segundo ela, o espaço permanece sem conclusão e poderia ampliar as opções de atividades para estudantes e moradores. “É um espaço importante, mas que ainda não foi finalizado”, observa.

A moradora também chama atenção para a segurança no entorno da escola. De acordo com ela, o aumento da circulação de veículos após a pavimentação da via principal elevou a preocupação dos moradores, especialmente nos horários de entrada e saída dos estudantes. “Existe uma faixa elevada em frente à escola, mas muitos motoristas passam em velocidade acima do ideal. Depois que a rua foi asfaltada, a movimentação aumentou bastante”, relata.

Segundo Priscila, a situação já resultou em atropelamentos de animais e reforça a necessidade de medidas que contribuam para reduzir a velocidade dos veículos no trecho.

Cristiane relata que a falta de um mercado de maior porte afeta especialmente pessoas com menor facilidade de deslocamento. “Quem não possui veículo acaba sentindo falta de opções mais próximas para compras do dia a dia”, comenta.
Pelegrini compartilha avaliação semelhante. “Acredito que um mercado maior seria uma demanda importante para atender melhor a população local”, afirma.

Infraestrutura elétrica

Marcos Bianchi afirma que as quedas no fornecimento de energia são frequentes e acabam impactando a rotina do estabelecimento. “À medida que o bairro cresce, algumas estruturas acabam ficando defasadas e precisam de adequações. Aqui no restaurante falta luz com frequência, não sei o que acontece”, relata.

Bairro mantém potencial de crescimento

Mesmo diante dos desafios apontados, os entrevistados convergem em uma avaliação positiva sobre o futuro de Tamandaré.
Para Michel Bianchi, o potencial de desenvolvimento ainda está longe de ser totalmente aproveitado. “Temos localização privilegiada, força industrial e capacidade para crescer ainda mais. O que precisamos é de investimentos e atenção para resolver os gargalos existentes”, afirma.

Entre as diferentes vozes ouvidas na comunidade, a principal mensagem é semelhante: o crescimento de Tamandaré já é uma realidade, mas melhorias em mobilidade e infraestrutura viária continuam sendo apontadas como fundamentais para acompanhar a expansão do bairro e fortalecer seu papel na economia regional.