Parece estranho pensar que a metade da vida talvez não aconteça aos 50 anos, mas aos 35 ou 40, com raras exceções.
Passada a primeira metade — entre as peraltices da infância e os hormônios da adolescência — vieram o primeiro amor, as notas do boletim misturadas às escolhas da faculdade, o emprego, o casamento, os filhos, a construção da vida adulta.
E agora, nesta altura do caminho, vivemos uma mistura curiosa: trabalhamos muito enquanto tentamos aproveitar o tempo que ainda temos com as pessoas que amamos. Principalmente aqueles que ainda têm a graça de contar com pais, sogros, tios e avós presentes.
Ainda nos sentimos jovens, embora não tanto. Ainda não somos velhos, embora os cabelos brancos já apareçam sem pedir licença.
Tentamos conciliar uma vida de pouco tempo, algum cansaço e dinheiro quase sempre contado — mas ainda com disposição. Temos alguns casais de amigos, lutamos pela casa própria e carregamos uma memória afetiva rara: fomos a geração que viveu antes da explosão da tecnologia.
Somos da época dos bilhetes escritos à mão, das visitas sem aviso, dos convites impressos, das festas esperadas por semanas e dos encontros presenciais que aconteciam quase todos os dias.
As costas ainda não doem tanto, mas já sabemos que precisamos mudar hábitos pensando nos próximos anos.
E então surgem pensamentos antes distantes.
Como envelheceremos? Quem será o primeiro amigo a partir? Precisaremos de cirurgias, próteses, remédios? Continuaremos casados? Teremos a chance de conhecer os netos? Não sabemos.
E talvez seja justamente isso que torne a vida tão bonita e assustadora ao mesmo tempo.
A incerteza dá medo, mas também dá valor ao agora.
Talvez este texto faça você perceber que a metade da vida pode já ter passado. E que, daqui em diante, temos diariamente um dia a menos.
Isso é inevitável para todos nós.
O que podemos escolher é como viver o caminho: ao lado de quem amamos, fazendo o que faz sentido, colecionando memórias e não apenas obrigações.
Porque no fim da vida talvez a grande pergunta seja simples: ao olhar para trás, teremos orgulho da forma como vivemos?
Daqui a cem anos nenhum de nós estará aqui. Um desconhecido poderá morar na nossa casa e talvez ninguém mais lembre do nosso nome.
Por isso o hoje é uma dádiva.
Talvez seja por isso que ele se chama presente.