Mesmo com novos investimentos e melhora na segurança, moradores apontam demandas antigas e afirmam que o bairro ainda enfrenta estigmas

Localizado na zona norte de Bento Gonçalves, o bairro Zatt carrega em sua história as marcas de um crescimento construído aos poucos pelos próprios moradores. Hoje, predominantemente residencial, o local ainda convive com desafios de infraestrutura, mas habitantes e comerciantes apontam as mudanças positivas vividas nos últimos anos, especialmente em relação à segurança, serviços e novos investimentos públicos.

As melhorias recentes incluem a inauguração de uma creche e a revitalização da praça do bairro, entregues em 2024. Além disso, as obras do posto de saúde começaram em dezembro de 2025 e devem ser concluídas ainda em 2026.

Desenvolvimento construído ao longo das décadas

Morador do Zatt há 34 anos, João dos Santos acompanhou desde o início a ocupação da região. Segundo ele, quando chegou ao bairro, praticamente não havia estrutura básica. “Não tinha luz, não tinha água, não tinha esgoto, não tinha nada. A gente chegou no peito”, relembra.

Ele explica que os terrenos foram loteados sem a infraestrutura necessária e que, naquela época, o bairro era formado praticamente por colônia e áreas pouco habitadas. Apesar das dificuldades enfrentadas no passado, João afirma que a realidade atual é completamente diferente. “Hoje é 90% melhor”, resume.

O aposentado Luis Cunha Martins, que vive no Zatt há 23 anos, também aponta a transformação da região. Segundo ele, as ruas de chão e a precariedade ficaram para trás em diversos pontos do. “O bairro está melhor do que antes”, afirma.

Mudança na percepção

A segurança aparece como um dos pontos mais citados pelos moradores entrevistados. Dos Santos lembra que o Zatt já foi considerado um dos bairros mais perigosos da cidade. “Tinha noite em que a gurizada atacava, se atirava. Ali do lado era ponto de droga 24 horas por dia”, conta.

Hoje, porém, ele afirma perceber uma mudança significativa no cotidiano da comunidade, atribuindo parte disso ao policiamento mais frequente. “Agora está uma maravilha”, diz.

Martins também avalia positivamente a segurança do bairro e ressalta a presença constante da Brigada Militar e da Guarda Civil Municipal.

Já para o barbeiro Lucas Alves Rubetti, que iniciou há cerca de duas semanas um empreendimento no bairro, ainda existe um estigma em relação ao Zatt, mesmo que a realidade atual seja diferente da imagem construída no passado. “Como é o Zatt, as pessoas acham que é perigoso. Mas eu não acho”, comenta.

Rubetti afirma que, desde que começou a trabalhar no bairro, não presenciou nenhuma situação de insegurança.

Principal demanda

Apesar dos avanços, a infraestrutura segue sendo a principal reivindicação dos moradores e comerciantes ouvidos pela reportagem.

O asfaltamento das ruas foi o ponto mais citado. Dos Santos afirma que algumas vias já receberam melhorias, mas ainda há trechos aguardando pavimentação. “O que nós precisamos é o asfaltamento. É muito difícil andar de carro por aqui”, reforça.

Rubetti também menciona os buracos em algumas ruas como um dos principais problemas atualmente.
Já o comerciante João Henrique Finatto Tairol acredita que o bairro precisa de mais atenção do poder público, especialmente em questões ligadas às estradas e ao saneamento. “A gente depende muito de um asfalto bom. Vazamento de água, essas coisas, prejudicam tudo”, comenta.

Comércio e serviços

Mesmo sendo um bairro mais afastado da região central, os moradores avaliam que o Zatt possui serviços básicos importantes para o cotidiano.

Dos Santos aponta a presença de mercados e a regularidade do transporte público. Segundo ele, nos horários de pico os ônibus passam com maior frequência e, nos demais períodos, o intervalo é de aproximadamente de meia em meia hora.

A coleta de lixo também é apontada como eficiente pelos moradores. Segundo dos Santos, o serviço ocorre diariamente, incluindo coleta seletiva e recolhimento de vidro em dias específicos da semana. No comércio, o cenário é de cautela. Proprietário de um mercado no bairro há 15 anos, Tairol afirma que o movimento já foi melhor. “Hoje está bem mais calmo. Acho que o povo está meio sem dinheiro”, avalia.

Ele ressalta que as dificuldades enfrentadas atualmente estão mais ligadas ao cenário econômico do que ao bairro em si, citando aumento de impostos, aluguel e despesas para manter o negócio funcionando.

Distância e acesso

Para alguns moradores, especialmente os mais recentes, a distância de determinados serviços ainda é um desafio.

Natural do Maranhão e morando há cerca de três meses no Zatt, Irene Moreira Sampaio conta que escolheu o bairro por já ter familiares vivendo na região há muitos anos. Apesar de gostar do local, ela aponta dificuldades relacionadas ao deslocamento e à ausência de alguns serviços próximos. “Faltam alguns comércios, como farmácias. Para acessar alguns serviços e estabelecimentos, muitas vezes precisamos ir até o bairro Ouro Verde”, relata.

Ela também comenta problemas pontuais na iluminação pública, afirmando que alguns postes apresentam oscilações.

Além disso, Irene ressalta que o período de chuva dificulta ainda mais os deslocamentos, especialmente para quem depende do transporte disponibilizado pela empresa para trabalhar, já que o embarque ocorre em pontos específicos.

Liderança comunitária

O presidente da Associação de Moradores do bairro Zatt, Antônio Dallasen, afirma que a entidade busca manter atuação constante junto à comunidade e ao poder público. Segundo ele, reuniões com a Prefeitura e ações realizadas no bairro fazem parte do trabalho desenvolvido pela associação.

Zatt foi palco do maior simulado de desastres do Estado

O bairro Zatt recebeu, nesta quarta-feira, 6 de maio, o maior simulado de movimentos de massa promovido pela Defesa Civil do Estado. A atividade, que simulou situações de deslizamentos e resposta a desastres naturais, foi realizada na região por conta das áreas íngremes e de pontos considerados mais suscetíveis durante eventos climáticos intensos.

Morador há mais de três décadas no Zatt, Dos Santos afirmou que aprovou a iniciativa. “Aquilo foi muito bom”, resume.

Segundo ele, embora a região onde mora não tenha sido afetada diretamente durante episódios de chuva intensa, há pontos do bairro onde os moradores enfrentam maiores riscos em períodos de temporais. O treinamento também levou orientações à comunidade sobre como agir diante de alertas emitidos pela Defesa Civil.

Dallasen também destacou a importância do simulado promovido pela Defesa Civil nesta semana no bairro. Conforme ele, apesar de algumas críticas por parte de moradores, a atividade foi importante para conscientizar a população sobre situações de risco e possíveis ocorrências futuras. “A gente tem que mostrar o que é a realidade”, finaliza.