O município registrou, em 2025, 28 vítimas de homicídio. Entre elas, sete tinham até 21 anos, sendo três menores de 18 anos, evidenciando a presença significativa de jovens entre as mortes violentas no município.
Os casos envolvendo adolescentes reforçam o impacto da violência letal em idades precoces. Entre as vítimas estão Matheus Ferreira Martins, morto aos 16 anos no dia 6 de agosto; Eduardo Menezes dos Santos, de 17 anos, morto em 28 de setembro; e o venezuelano Daynis del Jesus Hernandez Valdez, de 15 anos, morto em 6 de novembro.
De acordo com a tenente-coronel Karine Soares Pires, do 43º Batalhão de Polícia Militar (43º BPM), os homicídios registrados ao longo do ano apresentam uma característica em comum: todos estão relacionados ao tráfico de drogas.
Segundo ela, tanto vítimas quanto autores são, muitas vezes, cooptados por organizações criminosas. “As mortes ocorrem especialmente por cobrança de dívidas, punições internas do tráfico e conflitos interpessoais agravados pela criminalidade”, explica.
A oficial também aponta que, assim como em outras cidades brasileiras, há regiões onde a violência letal é mais acentuada, geralmente associadas à baixa condição socioeconômica e à presença de grupos criminosos ligados à comercialização de entorpecentes.
Recrutamento precoce e aumento do risco
A comandante explica que a Brigada Militar tem identificado mudanças no perfil das ocorrências envolvendo jovens. Um dos principais fatores é a captação cada vez mais precoce por parte do crime organizado. “Grupos criminosos passaram a recrutar adolescentes para exercer funções no comércio ilegal de drogas, como ‘olheiros’, no transporte de entorpecentes e até participação direta em confrontos armados e execuções. Esse fenômeno altera o padrão das ocorrências atendidas pela BM, que passam a envolver jovens em situações de maior risco e violência”, afirma.
A vulnerabilidade social aparece como elemento central nesse cenário. “Os jovens, muitas vezes motivados pelo abandono familiar e por lares desestruturados, passam a se envolver em diversos delitos, que vão desde pequenos furtos até o tráfico de drogas ou associação a grupos criminosos”, explica.
Um ciclo difícil de romper
Para o advogado, professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), André Roberto Ruver, o panorama local reflete uma realidade nacional. Dados do FBSP indicam que a morte violenta é a principal causa de óbito entre jovens no Brasil, com quase metade das vítimas de homicídio sendo pessoas entre 15 e 29 anos.
Assim como a comandante, ele também aponta para uma dinâmica recorrente de violência. “Esses jovens não são figuras passivas, mas estavam, muito provavelmente, inseridos em um ciclo em que a violência é recorrente”, analisa.
Ele explica que o envolvimento com o tráfico coloca adolescentes em uma posição ambígua: “Ao mesmo tempo em que são responsabilizados por atos infracionais, também são vítimas de um sistema que falhou em protegê-los. Inseridos em uma dinâmica onde a violência é ferramenta de poder e resolução de conflitos, acabam expostos a um risco elevado de morte prematura. A realidade mostra que o jovem que comete um ato infracional hoje pode facilmente tornar-se a vítima de homicídio amanhã”, afirma.
Fatores sociais e falhas estruturais
Entre as razões que alimentam essa dinâmica, o especialista ressalta a exclusão socioeconômica e a falta de oportunidades. “A doutrina da segurança pública aponta que a desigualdade e a falta de oportunidades legítimas pressionam jovens de classes sociais mais baixas a buscar no crime um meio de ascensão ou pertencimento. Cria-se um cenário de ‘anomia’, uma descrença nas instituições”, explica.
Outro ponto crítico é a falta de acompanhamento após o fim das ações de ressocialização. “A passagem por medidas socioeducativas nem sempre consegue quebrar o ciclo de violência. A doutrina aponta uma lacuna crítica: a ausência de acompanhamento do Estado após o jovem completar 21 anos, permitindo que ele retorne ao mesmo ambiente de risco sem uma rede de apoio estruturada”, ressalta.
Diante desse cenário de criminalidade envolvendo menores, o debate sobre a redução da maioridade penal volta à tona. O advogado analisa: “Do ponto de vista jurídico, a redução da maioridade penal enfrenta uma barreira constitucional robusta. Da perspectiva prática e criminológico, a medida se mostra ineficaz para reduzir a violência. Ao invés de solucionar o problema, ela tende a agravá-lo, transformando o sistema prisional em uma porta de entrada definitiva para o crime organizado e desviando o foco das verdadeiras causas da delinquência juvenil”, frisa
Ele indica uma alternativa mais eficaz para enfrentar essa conjuntura. “A resposta mais efetiva e estratégica para a violência entre jovens não está no Código Penal, mas no fortalecimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, na qualificação do sistema socioeducativo e, acima de tudo, na implementação de políticas públicas que ofereçam aos jovens um horizonte de vida digna e com oportunidades reais, longe do crime”, salienta
Para o especialista, a situação observada no município é um reflexo de uma crise mais ampla. “A morte de jovens, mesmo aqueles com antecedentes, representa um fracasso coletivo”, conclui.
Prevenção e políticas públicas
Para a Brigada Militar, o enfrentamento da violência letal entre jovens não depende apenas do policiamento. Embora a atuação ostensiva seja fundamental, a solução passa por ações integradas.”Não depende apenas do policiamento, seja preventivo ou repressivo. Embora a atuação da Brigada Militar seja fundamental para a repressão imediata e preservação da ordem pública, a solução efetiva e duradoura exige ações integradas com diversas políticas públicas, que atuem diretamente na educação destes jovens, combatendo a evasão escolar; na assistência social, realizando o acompanhamento de famílias em situações de vulnerabilidade; além de qualificar os jovens para sua inserção no mercado de trabalho formal, reduzindo a vulnerabilidade social.
Entre as iniciativas preventivas está o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), voltado principalmente a contextos de vulnerabilidade social, exposição precoce a drogas e fragilização de vínculos familiares.
Dados reforçam presença juvenil na criminalidade
Indicadores também mostram a forte presença de jovens em ocorrências policiais. Segudo a BM, apenas no segundo semestre de 2025, 25 menores foram apreendidos em Bento Gonçalves por diferentes delitos, principalmente relacionados ao tráfico de drogas.
No mesmo período, dos 397 indivíduos presos, em flagrante ou por termo circunstanciado, 40% tinham entre 15 e 27 anos, sendo o tráfico novamente o principal crime registrado.