A VIDA VIVIDA
EM TORNO DA CRIATIVIDADE
Dia sim e dia não, ou, dia sim outro também, no início da noite, nossa turma sentava no “meio fio” da entrada do Clube Aliança. Tinha de tudo ali, músicos, artistas, filhos de militares, aprendizes de alfaiate, por vezes discutiamos o nada, quer dizer, posturas pessoais como as do Ministro do Supremo com os Deputados e Senadores. Mas, por vezes, o grupo formava um “laboratório de ideias”. Assim Fausto Michelin, Beto Valduga, Grizzo Farina, Renato Michelin, Daltro de Abreu, todos meninos bonitos, pertencentes a elite social, constituíram o Arpége Show. Um belo dia, num momento “down” do tipo “to be or not to be” vendo que o grupo precisava de emoção, levantei uma proposição: “e se a gente formasse um time de futebol de salão?”. “Em Porto Alegre tem um, vamos fazer um aqui, todo mundo aqui é artista, talentosos, líderes”, conclui. Fez-se um silêncio e, como toda a ideia é seguida por colocações e questionamentos, tudo veio à mesa, quer dizer, “a calçada”.
O SIDERAL
Minha ideia era simples, “jogadores tem aqui “tem Clemer, tem Borre (esse era eu), temos um time inteiro, vamos treinar aqui na quadra do Aliança, comprar uniforme, bola (era cara), meias, calções”. Beto Valduga logo retrucou: “ma vá Henrique, vamo jogar contra quem, não tem adversário, não tem dinheiro para comprar nada, somos todos uns pelados e esse time não tem nem nome”! Matou todas o Beto. Como “quem pariu Matheus, que o embale” não deixei a peteca cair e falei: “o uniforme e a bola eu compro, o ‘kichute” é com vocês. O nome, bem, vamos pensar e nos detivemos todos a pensar, em certo momento, olhando para o céu em noite estrelada, disparei “SIDERAL”, vamos chamar de Sideral. Logo “na ausência de tu, vai tu mesmo”, brotou o nosso time de futebol de salão com os “artistas da bola” no SIDERAL e artistas da música também no ARPÉGE. O Beto, que era “matéria pensante” disparou de novo: “vamo jogar com quem?” Veio a contra ideia: “vamos incentivar o surgimento de times em Veranopólis, Nova Prata, Guaporé e fazer um torneio regional”, disparei, “eu cuido disso, tenho contatos”, completei. Na hora de comprar a bola e o uniforme, tive que lançar mão do “Bolsa Família”, do “vale gás”, traduzindo “vale balconista”, “vale levantador de pinos de bolão”, “vale contrabandista de rádios portáteis”, “vale ferro de passar”, “vale vassoura”, não tinha nem a “Lei Rouanet” que poderia ajudar via “Arpége”, tinha só a “Lei Dolce far niente”. Lá em Guaporé surgiu um time dentro do Colégio das Irmãs. Lá em Nova Prata, através do meu amigo Ivan Nedef. Em Veranópolis o esporte era focado no VERANENSE e no DALBAN, duas equipes fortes em futebol de campo, nada feito no SALÃO. Nos reunimos para elaborar a tabela, todos contra todos, quem fizer mais pontos é campeão, em caso de empate prorrogação e pênaltis. Fomos pro jogo, em Guaporé e Nova Prata na quadra das freiras e, em Bento, na quadra do Aliança. No primeiro torneio, final em Nova Prata, como a nossa competência estava mais no “rosto do que nos pés”, eles, ganharam, com o lema “todos contra Bento”. No segundo torneio, ano seguinte, final em Bento, pênaltis. O dono do uniforme, o dono da bola, foi o último a cobrar o pênalti na goleira da piscina. Gol feito, taça no armário. Todos achavam, inclusive eu, que a bola iria fora, mas, se houvesse glória, seria minha. Tomei distância, olhei, a goleira era tão pequena, pensamento atroz “dou de chales, dou de três dedos, dou de bico”? Corri, fechei os olhos, dei um bicão, quando abri os olhos silêncio total e eu exclamei “Where is the ball”? Por alguns segundos, procurou-se a bola. Um desligado torcedor gritou “a bola tá lá na piscina”! Onde ela tava? Presa no canto da rede, dentro do gol, BENTO CAMPEÃO, SIDERAL É O MAIOR; TOMA NOVA PRATA! O Sideral continuou jogando, tinha conceito, tiramos fotos ATÉ COM O PAVONI, tínhamos madrinha, a Vera Michelin, um dia ela intercedeu porque deu briga num treino e eu recolhi a bola: “não tem mais jogo, esporte é recreação, não tem briga” a bola era minha e as regras eram minhas. “Deixa pra lá Henrique, brigam hoje, tão de bem amanhã”. Não teve deixa. Um dia, num jogo treino, quebrei o calcanhar, continuei jogando, não doía. Ao chegar em casa o pé começou a inchar, no terceiro dia tava cheio de fitinhas amarradas por benzedeiras, todas vivendo do “bolsa fitinha”. Nada resolvido “chama o Dr Bozzetto”! Ele veio, abriu a porta do quarto, nem entrou e lascou “cria vergonha Henrique um homem do teu nível procurando curar com alternativas (foi delicado) procura o Dr. Caron, teu pé tá fraturado”. Sobre isso falo mais adiante.
ARPÉGE – PEDRINHO
Bento teve vários conjuntos musicais. Os principais foram o ARPÉGE, que surgiu em torno do Clube Aliança e o PEDRINHO, que surgiu sob a liderança de Pedro Rubechini, que fazia muito sucesso no Estado e fora dele. Pedrinho bolava os trajes, meu pai Almir os projetava, escolhia os tecidos e os confeccionava. O conjunto tinha vários trajes, todos vistosos, cheios de efeitos, uma atração a cada apresentação do conjunto que trocava de traje em pleno desempenho, no intervalo musical. Suas maiores expressões eram os crooner, com o romântico Carlos Arzuaga, o Glênio, com o MPB; na bateria o Volmir Basso; no acordeon o Cainelli; no bandoneon o Nadinho; na percussão e no piano, não lembro quem. O Pedrinho era SHOW, na apresentação e no repertório. O APÉRGE tinha no piano Daltro de Abreu e o Fausto Michelin que também era vocalista. No acordeão, o Tomasini; na bateria o Grizzo Farina; no violão e vocal, a maestria do Beto Valduga e na percussão, o Renato Michelin. Todos jovens que encantavam, levando as garotas curtir emoções pela beleza deles e seu repertório. Nos anos 60, o Clube Aliança era o “meu Clube, minha vida”, os bailes eram mensais com a animação musical se alternando entre o conjunto NORBERTO BALDAUF, de Porto Alegre, o ITAMONE, de Caxias, o PEDRINHO e o ARPÉGE, esta era a ordem de valores dos conjuntos. Edgar Pozzer, o crooner do Baldauf, era o “rei da cocada”, arrastava um público feminino numeroso, as menininhas se postavam em frente ao palco “sonhavam, deliravam, gritavam” com a presença do “belo Antônio”, eu era mais bonito do que ele me disse o “espelho meu”, mas não tinha a voz “melodiosa, romântica”. Quando ele cantava “Roberta”, seu repertório era, fundamentalmente, italiano, o salão vinha abaixo. Nós jovens, postados na entrada do salão, “PROCURANDO NEMO” víamos nossas chances diminuídas, a gente queria que o baile acabasse pois o “EXÉRCITO DO EDGAR” cada vez aumentava mais. Pozzer cantou até os 94 anos. No seu Bar, o Girassole, que fica na Getúlio Vargas, em POA, estive lá duas vezes, no olhar descarreguei meu ódio dos tempos do Aliança, era um fenômeno. BALDAUF no Aliança, casa cheia; PEDRINHO, casa 80% lotada; e ARPÉGE casa 50% lotada. Conjuntos da expressão nacional no Aliança? Só em grandes eventos como o aniversário do Clube. A inovação musical vinha no Jantar do Abacaxi, organizado, alternadamente, por casais associados. Fazer o melhor deles era também o objetivo, qualidade musical e gastronômica era imperativo para o sucesso. Um dia exageraram, no cardápio e nos preços. Os organizadores trouxeram, do Nordeste, POR AVIÃO, lagostas, siris, camarões, essas coisas do mar. Adicionaram decoração luxuosa, bem acima da média, assim como o preço. O jantar foi um estrondoso sucesso, mas a casa caiu, quem depois disso, se proporia a organizar o jantar que passou a tornar-se um ABACAXI? Em dias de festa, o salão de baile do Clube era ocupado no seu lado direito pela elite social e no lado esquerdo pelas autoridades. Meu pai, seu Almir, comprava sempre, como sócio, mesa à esquerda, de pista, mas, na entrada, entenderam? “Nem tanto ao mar, nem tanto a terra”. Meu pai e minha mãe elegantérrimos e eu, de vez em quando, de acordo com o baile, “calça preta, casaco branco e borboleta”. Quem me ensinou a dançar foi a Helena Zanatta, muito amiga e confidente. No começo ela balbuciava “pezinho pra frente, pezinho pra trás, pezinho a esquerda, pezinho a direita”. Fiel ao ditado “dê-me uma alavanca e moverei o mundo”, em pouco tempo virei par constante da Helena, ela era alegre, sorridente, comunicativa, independente, enquanto meus amigos no corredor de entrada do salão ficavam “vendo a banda passar”. Na mesa, um SAMBA, uma CUBA LIBRE, às vezes um UISQUINHO para “derreter as emoções”. Minha vontade de ser músico era tanta que um dia contratei o Beto Valduga, que também era professor de violão, para que me ensinasse a tocar. Na primeira aula, violão emprestado e bronca porque eu não tinha o meu, na segunda, o do-ré-mi-fá-só-lá-si. Na terceira o Beto “esbrontolou”: “tu nunca vai aprender a tocar violão”! Eu perguntei: “mas porque Beto?”. “tu é canhoto, cara”! Desiludido, abandonei a ideia, eu queria ser um Chico Alves, um Edgar Pozzer, um Carlos Arzuaga, músicas italianas, boleros e tangos seriam o meu forte, romantismo do tipo “hoje, eu quero a rosa mais linda que houver para enfeitar a noite do meu bem” ou, “queixo-me às rosas, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti”, ou “dio como ti amo, não é possível haver nas estrelas um bem tão precioso”, ou “fale baixinho venha ouvir coisas de amor, quero sentir os olhos teus junto dos meus”. O Beto bombardeou os meus sonhos, cheguei a dar razão ao meu avô que me corrigia na mesa quando eu era canhoto ao usar os talheres, sob o argumento de que “os canhotos não dão certo”. Hoje eu sou canhoto, direita, não sei quando estou usando a canhota, ou a direita. Mais adiante, bem mais, alguém me disse: “era só trocar as cordas no violão”. Acho que o Beto não quis me ensinar, acho mais “ele quis eliminar a concorrência, na BASE”. He, he, he. Parei, bom fim de semana lembrando que estou com comentário diário, às 07h45 na RAINHA FM 90.9.