Experiências locais e atuação de profissionais reforçam a importância da informação e do respeito às decisões das gestantes
“Ter informação muda completamente a forma como a mulher encara o parto.” A frase define a experiência de Kelly Todescatto, de Bento Gonçalves, que optou por um parto humanizado na primeira gestação e, agora grávida novamente, pretende repetir o processo. Com acompanhamento de uma doula e preparo durante o pré-natal, ela relata ter vivido o nascimento da filha, Serena, em 2021, com mais segurança e autonomia.
O parto humanizado é caracterizado pelo respeito às escolhas da gestante, com foco no protagonismo da mulher, uso reduzido de intervenções e adoção de práticas baseadas em evidências científicas.
Esse cenário ocorre em meio a um debate mais amplo sobre a assistência ao parto no Brasil, especialmente em relação à garantia de um atendimento respeitoso às gestantes. O levantamento “Nascer no Brasil”, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), aponta que, em 2012 — último dado de abrangência nacional localizado pela reportagem —, 30% das mulheres atendidas em hospitais privados relataram algum tipo de violência obstétrica. No Sistema Único de Saúde (SUS), o índice chega a 45%, segundo dados da Agência Câmara de Notícias.
Em Bento Gonçalves, a busca por modelos de parto mais humanizados tem crescido nos últimos anos, acompanhando uma mudança na forma como as gestantes se informam e participam das decisões. A doula e psicóloga Paula Dalla Costa Siqueira, que atua há cerca de uma década na área — profissional que oferece suporte físico, emocional e informativo à gestante antes, durante e após o parto —, observa que as mulheres chegam cada vez mais conscientes de seus direitos e interessadas em exercer protagonismo. “Hoje há uma busca muito maior por informação, acolhimento e por uma experiência em que possam participar ativamente das decisões sobre seus corpos e seus partos”, afirma.
Esse movimento se reflete nas experiências de quem passou pelo processo. Biomédica, Dieisi Mabel Lunkes Ribas, mãe de João Pedro, nascido em 2023, relata que, embora desejasse o parto vaginal, precisou passar por uma cesariana — e optou por uma abordagem humanizada. “A cirurgia era a minha última opção, mas o nascimento era do meu filho. Ter um parto humanizado, mesmo que cirúrgico, sempre foi um desejo”, conta.

Segundo ela, a experiência foi positiva e marcada pelo respeito às escolhas da família. “Nossas decisões foram acolhidas e respeitadas pela equipe. Tivemos, em alguns momentos, que nos posicionar, mas escolhemos profissionais alinhados com esse olhar”, relata. A presença da doula durante todo o processo foi fundamental. “Ela nos acompanhou a gestação toda. Sabia dos medos, das forças e das emoções que nos envolviam (a mim e ao meu companheiro); ela estar conosco até na cirurgia, nos dava a tranquilidade do acolhimento e do respeito para com a nossa família que estava sendo formada”, diz.
Kelly também destaca o impacto do acompanhamento durante a gestação e o trabalho de parto. No primeiro nascimento, sem intervenções, ela relata que o preparo fez diferença, especialmente no manejo da dor e na confiança para conduzir o processo. “Fui muito bem orientada e busquei entender tudo o que podia acontecer. Isso me deixou mais segura para enfrentar o momento”, afirma. Agora, na segunda gestação, a expectativa é repetir a experiência.

Para além das vivências individuais, a humanização do parto também tem sido incorporada em instituições de saúde. No Hospital Tacchini, o ginecologista e obstetra Alvemar Rodrigo Casagrande de Freitas explica que a adesão ao Projeto Parto Adequado, desde 2017, trouxe mudanças na condução dos atendimentos. Entre elas, estão a capacitação da equipe para o acolhimento das gestantes, o respeito ao plano de parto e o uso de métodos não farmacológicos para alívio da dor
“A gestante é colocada no centro das decisões, com incentivo à liberdade de posição, privacidade e participação ativa no processo”, afirma. Segundo ele, o pré-natal tem papel fundamental na construção dessa experiência. “É o momento em que a gestante forma suas expectativas e pode esclarecer dúvidas, além de discutir o plano de parto”, explica.
Na avaliação da doula Paula, a informação é um dos principais fatores para uma experiência positiva. “Quando a mulher entende o que está acontecendo, conhece seus direitos e tem suporte adequado, ela se sente mais segura e protagonista”, afirma. Por outro lado, ela aponta que o excesso de intervenções desnecessárias e o desrespeito à autonomia ainda são fatores que impactam negativamente o parto. Em Bento Gonçalves, a Lei Municipal nº 6.741/2021 garante a presença de doulas durante todo o processo de parto nos hospitais do município.



Paula Dalla Costa Siqueira, psicóloga, doula e consultora em amamentação, atua no acompanhamento de gestantes e famílias em Bento Gonçalves (Fotos: Arquivo pessoal)
Em âmbito nacional, a Câmara dos Deputados aprovou, em 11 de março deste ano, a regulamentação da profissão de doula, que aguarda sanção presidencial.
Apesar dos avanços, a participação ativa das gestantes ainda varia conforme o ambiente e a equipe envolvida. “Não basta a mulher estar informada se não há abertura para que ela exerça sua autonomia”, conclui Paula.