Mesmo com o verão se aproximando do fim, a presença de insetos como moscas e baratas continua intensa em muitas cidades. As altas temperaturas acumuladas ao longo da estação, aliadas à umidade e às chuvas típicas do período, criaram condições ideais para a proliferação desses animais, que se multiplicam com facilidade em ambientes urbanos. O aumento no número de pragas, além de causar incômodo à população, acende um alerta para questões de saúde pública, já que muitos deles estão associados à transmissão de doenças e refletem diretamente problemas de higiene, manejo de resíduos e saneamento.
De acordo com o professor Wilson Sampaio de Azevedo Filho, do Setor de Entomologia do Museu de Ciências Naturais (MUCS) da Universidade de Caxias do Sul (UCS), o aumento do aparecimento desses insetos está ligado ao ciclo biológico desses animais.

Wilson Sampaio de Azevedo Filho

O que favorece a proliferação
O professor destaca que o clima apresenta uma alta contribuição. “A umidade elevada também favorece a sobrevivência dos insetos e aumenta a disponibilidade de criadouros com água nas áreas urbanas. Em ambientes alagados (principalmente no caso do desenvolvimento de mosquitos), oferta de recursos alimentares e abrigo nas residências, criam-se condições adequadas para a proliferação dos insetos”, explica.

Hábitos para prevenção
Filho destaca que a limpeza e a organização do ambiente são fundamentais para evitar a proliferação de vetores. “Dentro das residências, os insetos buscam principalmente alimento e abrigo, e uma casa sem os devidos cuidados pode oferecer esses recursos”, afirma. Segundo ele, algumas medidas importantes podem ser adotadas, como:

  • Manter a parte interna das residências sempre limpa assim como os pátios;
  • Manter os quintais organizados evitando acúmulo de lixo e pequenos recipientes com possibilidade de reter a água;
  • Não utilizar pequenos pratos ou bandejas junto aos vasos de plantas;
  • Manter caixas de água ou outros tipos de reservatórios tampados;
  • Ficar atendo ao acúmulo de lixo e água em ralos e calhas, mantendo a manutenção e limpeza rotineira desses locais;
  • Utilizar telas nas janelas e outras aberturas;
  • Aplicar inseticidas de uso doméstico com os devidos cuidados evitando o contato do produto com crianças e animais de estimação;
  • Evitar acúmulo de farelos de comida no chão da residência ou quintais;
  • Manter panelas e outros recipientes com comida fechados e não deixar alimentos expostos em mesas ou bancadas;
  • Evitar manter pratos e outros utensílios domésticos sujos ou com restos de comida em pias e bancadas.

Manejo correto do lixo
Ele destaca ainda, que o cuidado com o lixo é fundamental para evitar proliferação de insetos. “Dessa forma, os restos devem ser armazenados em recipientes adequados, tampados e protegidos evitando a atratividade dos insetos. No caso dos materiais destinados à reciclagem esses devem estar devidamente separados e limpos evitando o acúmulo de resíduos dos respectivos produtos nas embalagens que também podem atrair os insetos”, orienta.

Limpeza
O professor ressalta que, apesar de a limpeza ser fundamental, ela nem sempre resolve o problema de forma isolada, especialmente em áreas urbanas com grande circulação de pessoas e residências próximas umas das outras. “Mesmo que essa seja uma tarefa de caráter domiciliar com o empenho e comprometimento do morador para solucionar ou minimizar o problema da infestação, sem o envolvimento da vizinhança o combate aos insetos pode ficar comprometido. É importante verificar também se próximo da residência existem locais e terrenos abandonados com lixo acumulado e materiais que tenham a possibilidade de reter água para manter ou atrair os insetos”, destaca.

Riscos à saúde
O especialista menciona que os dípteros (moscas e mosquitos) incluem espécies que podem causar doenças diretamente ou pela transmissão de parasitas. “Várias famílias de moscas têm grande importância médica, algumas pela hematofagia (sugar sangue como alimento) ou contaminação de água e alimentos (agentes patogênicos)”, pontua.
Ele alerta ainda para os riscos que vão além do incômodo causado pelos insetos, destacando os impactos diretos na saúde pública, principalmente durante os períodos mais quentes do ano. “Está diretamente ligado à maior transmissão de arboviroses (dengue, zika, chikungunya e febre amarela) e representam um grande risco para a saúde humana. As espécies domésticas de baratas também podem contaminar alimentos ao transportar organismos patogênicos (vírus, protozoários, fungos e outros) entre lixeiras, cozinhas, hospitais e outros”, salienta.
O especialista frisa que além de estarem associados à sujeira e ao desconforto, esses insetos também possuem um papel direto na transmissão de diversas doenças. “As baratas, moscas e formigas podem atuar como vetores mecânicos (funcionando como um meio de transporte) carregando patógenos (protozoários, bactérias, vírus e outros) que podem contaminar água, alimentos e diferentes utensílios, além de doenças. Esses insetos podem causar contaminação com microrganismos como bactérias provocando gastroenterite e outros. Também podem agravar ferimentos causando ulceração ou mesmo miíase (infestação de larvas de mosca na pele). No caso das baratas, o contato direto pode causar dermatites e alergias”, explica.

Inseticidas de uso doméstico
Para ele, a aplicação destes produtos é eficaz e pode ser utilizada em diferentes locais, como móveis, frestas entre outros. “Existem muitas opções no mercado com alguns produtos mais indicados para áreas internas ou externas da residência dependendo de cada situação e orientações do fabricante. É necessário lembrar dos cuidados com crianças e animais de estimação no caso da aplicação desses produtos. Além disso, questões de pessoas com problemas respiratórios ou sensibilidade a odores devem ser consideradas na utilização e escolha do inseticida”, aponta.

Métodos naturais
Além dos métodos já citados, o professor também comenta sobre alternativas caseiras e outras formas de controle utilizadas pela população. “Essas com a utilização de produtos como citronela e lavanda não são tão efetivas. Em outros casos como traças, moscas e formigas existem diferentes opções caseiras como solução de álcool com cravo-da-índia para borrifar, sachês com folhas de louro e canela. Também são utilizados repelentes naturais com óleo de essência (citronela, alecrim, eucalipto, lavanda e outros) ou à base de ervas secas (hortelã, citronela, alfazema e outros). Em alguns casos, os produtos caseiros serão apenas um paliativo e dependendo do local, condições ambientais e nível de infestação não terão um efeito significativo sobre os insetos”, explica.
Segundo ele, alternativas mais sustentáveis vêm sendo estudadas como complemento ao controle químico tradicional. “Contudo, as pesquisas envolvendo o controle biológico de pragas tem se mostrado uma alternativa importante e sustentável para minimizar o uso do controle químico. Nesse caso, são utilizados parasitoides, predadores, extratos vegetais, óleos essenciais e microrganismos entomopatogênicos (fungos, bactérias, vírus e nematóides) para reduzir as populações de insetos-praga. Estudos nesse sentido têm sido desenvolvidos na Universidade de Caxias do Sul com ótimos resultados”, frisa.

Erros mais comuns
Segundo Filho, os principais erros das pessoas estão em ignorar boas práticas de limpeza do ambiente doméstico. “Não identificar a real fonte da infestação (ralos, frestas e outros) e apenas retirar alguns insetos facilmente visíveis. Além disso, utilizar apenas soluções caseiras podem não resolver efetivamente a presença da praga, mas apenas espantar temporariamente, desalojar ou eliminar poucos insetos”, destaca o especialista.

Quando procurar empresa especializada
O professor ressalta que em algumas situações é necessário a procura por profissionais qualificados. “No caso de infestações grandes e/ou recorrentes; quando a aplicação de inseticidas domésticos ou o uso de repelentes naturais não estão gerando resultados ou quando envolver questões com crianças, idosos, pessoas com maior sensibilidade a odores e problemas respiratórios. A presença de animais de estimação na residência também deve ser considerada”, finaliza.