Golpes com locações fictícias têm se tornado cada vez mais comuns no município, principalmente em grupos do Facebook. Criminosos usam fotos reais de imóveis para atrair vítimas, exigem pagamentos antecipados e desaparecem logo após o depósito

A promessa de um bom negócio e a pressa para garantir um imóvel têm levado moradores de Bento Gonçalves a se depararem com anúncios de aluguéis falsos, prática que tem se espalhado por grupos de Facebook e outras plataformas digitais. O esquema é simples: golpistas copiam fotos e descrições de imóveis reais, postam como se fossem seus, atraem interessados e, ao garantir o pagamento antecipado, simplesmente somem. Muitos anúncios levam a dois números: (54) 991224260 e (54) 992624708, principalmente nos grupos “IMÓVEIS BENTO GONÇALVES ALUGUEL / VENDA / COMPRA” e “Vagas de emprego em Bento Gonçalves”. Os estelionatários costumam usar diferentes nomes com os números vinculados.

A Brigada Militar, por meio do 3º Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas (3º BPAT), confirma que casos como esses têm sido cada vez mais relatados. A subcomandante do batalhão, major Estefanie Fagundes Gomes Caetano, explica que a maioria das ocorrências é descoberta somente depois do prejuízo: “A vítima percebe o golpe quando ele já aconteceu, ou seja, quando já fez algum depósito e já teve o prejuízo financeiro”, aponta.

Major Estefanie Fagundes Gomes Caetano

Segundo a major, o golpe segue um padrão conhecido em diversas cidades: “O golpista recria anúncios falsos com base em fotos e descrições de anúncios reais retirados de sites e demais plataformas confiáveis, como Airbnb, Marketplace, OLX. Após o contato da vítima, que manifesta interesse em alugar o respectivo imóvel, o criminoso exige uma antecipação do pagamento para confirmar o aluguel, concretizando o golpe quando é feita a transferência”, afirma.

Os criminosos podem atuar tanto individualmente quanto em quadrilhas organizadas, com ramificações em várias partes do país. As investigações, segundo a oficial, são de responsabilidade da Polícia Judiciária (exercidas pela Polícia Federal e pelas polícias civis dos estados), e a orientação da Brigada Militar é clara: “Se for vítima, registre o boletim de ocorrência, reúna prints, conversas, comprovantes e tudo que possa ajudar na investigação”, frisa.

Falta de segurança e informação

A agente de pesquisa e mapeamento do IBGE e moradora de Bento Gonçalves, Catia Adriana Bomfim Mattos, quase foi vítima desse tipo de fraude. Ela conta que desconfiou quando o suposto locador, que se apresentava como pastor, recusou-se a mostrar o imóvel pessoalmente. “Fiz questão de visitar o local antes. Quando cheguei lá, ele não apareceu e parou de atender o celular”, ressalta.

Catia também aponta que falta informação e fiscalização. “As pessoas não estão bem informadas. Muitas vezes, caem por ingenuidade ou por urgência. Os golpistas continuam postando, mesmo com denúncias”, evidencia.

Catia Adriana Bomfim Mattos denunciou o estelionatário em grupo

Para ela, os órgãos municipais não estão preparados para coibir este tipo de crime, muito por falta de tecnologia e de uma regulação para agir com eficácia.

Segundo Maciel Giovanella, do departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) do município, o órgão sempre aconselha a não fazer esse tipo de negócio pela internet. “Além disso, não há registros desse tipo de crime junto ao Procon”, revela.

Como se proteger

A Brigada Militar tem investido em ações educativas, por meio de visitas comunitárias. Além disso, há a divulgação de orientações preventivas nas redes sociais da Secretaria de Segurança Pública. Algumas das principais recomendações são:

  • Desconfie de preços muito abaixo do mercado;
  • Exija avaliações ou comentários de antigos locatários;
  • Nunca deposite valores altos antes de visitar o imóvel ou fazer uma videochamada com o proprietário;
  • Confirme se a chave Pix ou a conta bancária está no nome do locador.
    Segundo Estefanie, é fundamental que as pessoas verifiquem a veracidade das informações. “Sempre tentem visitar o imóvel antes de fechar qualquer negócio”, reforça.
    A oficial destaca que infelizmente a tecnologia avança a favor dos golpistas. “É necessário investir não só em tecnologia, mas em uma legislação mais rígida no combate aos crimes virtuais”, pondera.

Falta de regulação

Na avaliação de Catia, há uma ausência quase total de fiscalização nos grupos de aluguel. “Os próprios usuários deveriam denunciar e os administradores precisariam agir com mais firmeza. É visível quando um post é falso, mas mesmo assim deixam passar”, sublinha.

Enquanto não há uma ação mais eficaz por parte das plataformas, a melhor proteção ainda é a informação, como aponta a subcomandante do 3º BPAT. “A falta de informação é um fator que colabora para a expansão desse tipo de delito, onde a vítima não tem acesso ou desconhece os sinais e indicativos de que se trata de um golpe”, finaliza major Estefanie.

Segundo a delegada Raquel Peixoto, a 1ª Delegacia da Polícia Civil de Bento Gonçalves registrou até o momento neste ano oito casos de ocorrências de golpe de locação. Os casos referentes aos bairros vinculados à 2ª DP não foram contabilizados até o fechamento desta reportagem, podendo haver atualizações.