Quarta-feira, 14 de Outubro de 2026

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22ª Fenavinho apresenta trajes que vestem a memória dos 60 anos da festa

Imperatriz do vinho, Alana Foresti, e damas de honra Jéssica Bellé e Bianca Dall Agnol exibiram vestidos em encontro que marcou lançamento da festa, juntamente com a 35ª ExpoBento

A partir dos pilares memória, território e vinho, a estilista caxiense Vivian Boff desenhou os trajes que marcam a emblemática edição de 60 anos da Fenavinho, de modo a vestir as soberanas com a memória criada pela festa. A imperatriz do vinho Alana Foresti e as damas de honra Jéssica Bellé e Bianca Dall Agnol exibirão vestimentas cuja proposta destaca a cor vinho com predominância, amparada por tons natural e champanhe, num conceito que conecta a trajetória ao atual momento da festa. “Mais do que se inspirar em um vestido específico da primeira corte, buscamos compreender a essência dos trajes que fizeram parte dessa trajetória e traduzi-la para a atual corte, mantendo a identidade histórica da Fenavinho, mas com uma linguagem própria e contemporânea”, diz a designer de moda, conhecida pela criação de trajes para soberanas e festas regionais que unem pesquisa, identidade cultural, modelagem, bordado e valorização do trabalho artesanal.

Foi dessa mesma forma que ela concebeu a indumentária do trio da 22ª Fenavinho – eleito durante a 21ª Fenavinho e 34ª ExpoBento. O ponto de partida foi empreender uma pesquisa histórica, observando a trajetória da festa, os trajes das soberanas e as referências da imigração italiana e da cultura vitivinícola de Bento Gonçalves. “A intenção foi preservar essa memória, mas trazer uma nova interpretação. Talvez o maior desafio e, ao mesmo tempo, a parte mais bonita do projeto, tenha sido fazer com que os novos trajes carreguem 60 anos de história sem deixarem de representar o momento atual da Fenavinho”, observa Vivian.

A Imperatriz do Vinho, Alana Foresti

Para a composição do traje clássico, ela elegeu o crepe mousson vinho, um tecido elegante, mas que garante movimento e leveza às saias, enquanto o crepe georgette, em tom natural, foi escolhido para oferecer volume e fluidez às mangas. O zibeline champanhe aparece nos barrados e detalhes, valorizando os bordados e o trabalho artesanal. “O vinho representa a essência da Fenavinho; o natural remete à memória e às origens; e o champanhe acrescenta a luminosidade e a solenidade que os 60 anos da festa merecem”, explica.

Bordados homenageiam imperatrizes

O vestido da imperatriz foi desenvolvido para ter maior imponência e riqueza de detalhes, com cintura marcada, saia ampla, mangas volumosas, sobreposições e bordados. Já os vestidos das damas de honra seguem a mesma identidade, mas de forma mais leve e delicada, garantindo unidade entre os três trajes. Um dos destaques no vestido de Alana é a sobreposição frontal em champanhe, que reúne elementos da tradição vitivinícola, como ramos de parreira, cachos de uva, garrafa e taças de vinho. Feito manualmente, o bordado também homenageia todas as imperatrizes do vinho, com os nomes das representantes desde a primeira edição até a atual.

A peça ainda traz os nomes de Moysés Michelon, primeiro presidente da Fenavinho, e da atual diretora, Janaine Arpini, conectando diferentes momentos dessa trajetória. Os trajes incorporam técnicas artesanais transmitidas entre gerações, como o filé – elaborado sobre uma tela tramada em forma de rede e posteriormente rebordada à mão – e o macramê – construído manualmente através do entrelaçamento e de nós feitos com fios. Nos vestidos das damas, os bordados aparecem de forma mais sutil, com folhas, ramos e cachos de uva, enquanto o barrado faz referência aos 60 anos da Fenavinho. “Dessa forma, os trajes unem história, artesanato e vitivinicultura. Mais do que elementos decorativos, cada bordado e cada técnica manual ajudam a contar uma parte da história da Fenavinho e da herança cultural dos nossos antepassados”, diz a estilista, para quem o trabalho manual está entre os grandes destaques das composições. “Buscamos valorizar saberes que fazem parte da nossa herança cultural e que foram trazidos e preservados pelos nossos antepassados, como o filé, o macramê e o bordado manual em linha”.

Dama de honra Jéssica Bellé

Trajes de passeio

Além do traje típico oficial, as soberanas da Fenavinho terão um traje de passeio, desenvolvido para oferecer mais leveza e versatilidade, porém, sem perder a identidade da festa. O vestido da imperatriz será confeccionado predominantemente em crepe Grace, com saia e corset em bordô e mangas, gola e barrado em tom natural. Os bordados, feitos inteiramente à mão com linhas e pedrarias, reúnem arabescos, ramos de parreira, cachos de uva e outros elementos relacionados ao universo do vinho. Entre os destaques está o lenço em filé, tramado e bordado manualmente e finalizado com franjas de seda. A produção também inclui um avental com bordados em fios dourados e pedrarias, acrescentando sofisticação à composição. Os trajes de passeio das damas seguem a mesma proposta, com predominância do bordô e detalhes em tom natural. Sem a gola utilizada no modelo da imperatriz, as peças ganham um desenho mais leve, mantendo os bordados manuais com arabescos, parreiras e cachos de uva.

Filha de vitivinicultores, Vivan cresceu ligada à cultura da uva e do vinho e desenvolveu uma relação especial com a festa. A ligação com a Fenavinho se fortaleceu em 2009, quando assistiu à Ópera do Vinho, em Bento Gonçalves. Ao pesquisar a trajetória da celebração para desenvolver os trajes, outro elemento tornou o projeto ainda mais significativo: a descoberta de que Moysés Luiz Michelon, primeiro presidente da Fenavinho, nasceu em São Luiz da Nona Légua, mesma localidade onde a estilista também nasceu. “De alguma maneira, senti que existia um elo entre aquela história iniciada há 60 anos e o trabalho que chegou às minhas mãos. Como estilista e filha de vitivinicultores, poder contribuir para os 60 anos da Fenavinho é algo que certamente ficará marcado na minha trajetória profissional e também na minha história pessoal. Gratidão, Bento Gonçalves”, comenta.

Elementos da viticultura se transformam em joias para as soberanas

Para compor os vestidos, a corte dos 60 anos da Fenavinho também contará com um conjunto de colar e brincos criados pela Enojoias em metal dourado e cristais naturais formados no próprio vinho. Para a imperatriz, o colar tem como elemento central uma taça, acompanhada por folhas, uvas, gavinhas e cristais naturais de bitartarato de potássio. Os brincos apresentam uma flor ampla e vazada, finalizada com uma gota que também incorpora os cristais. Já os conjuntos das damas acrescentam as barricas à composição, fazendo referência às cantinas e ao processo de elaboração do vinho, com os brincos em formato de flor vazada e elemento circular com cristais. “A inspiração parte de elementos presentes na cultura vitivinícola de Bento Gonçalves e na história da Fenavinho. Cada elemento faz referência a uma parte dessa história e ajuda a construir o percurso que começa na videira e chega à taça”, destaca a designer responsável, Patrícia Pedrotti.

Dama de honra Bianca Dall Agnol

O desenho das joias parte de linhas orgânicas, curvas e estruturas de metal entrelaçado, inspiradas nos ramos e troncos da videira. As gavinhas percorrem os pingentes e funcionam como elementos de ligação entre folhas, uvas, barricas, taças e cristais. A escolha dos materiais também carrega significado. O metal dourado reforça o caráter cerimonial e celebrativo das peças destinadas à corte. Já os cristais estabelecem uma conexão direta com o vinho, uma vez que são originados naturalmente durante a vinificação ou o armazenamento, a partir da presença de ácido tartárico e potássio. Desde 2015, a Enojoias incorpora essa matéria às suas criações. “É uma ligação direta entre o vinho e a joia, porque os cristais não são uma imitação do vinho: eles se formam nele”, observa.

A coleção foi concebida, portanto, para contar uma história. Nas peças das damas, a narrativa aparece de maneira quase sequencial: a videira dá origem às folhas e às uvas; as barricas remetem à elaboração; a taça representa o vinho e a celebração; e os cristais naturais materializam o próprio processo do vinho em uma nova linguagem. Na criação da imperatriz, essa trajetória é concentrada em torno da taça, elemento central da composição, cercado por folhas, uvas e gavinhas.

A coleção, ainda, estabelece uma conexão com símbolos e referências culturais de Bento Gonçalves. As flores vazadas dos brincos são inspiradas em elementos do crochê, da renda e do bordado, em uma interpretação visual do verso “Bento Gonçalves querida, bordada de parreirais”, presente no hino do município. As próprias peças também dialogam com a história da festa. “A coleção foi criada para registrar os 60 anos da Fenavinho por meio dos elementos que compõem a origem e a continuidade da festa. A história da Fenavinho está ligada à cultura do vinho, à viticultura, às famílias produtoras, às cantinas, às comunidades do interior, aos desfiles e à representação da corte. As peças apresentam esse percurso: videira, uvas, elaboração, vinho, cristais naturais e peças, conectando o trabalho que começa nos parreirais à celebração pública representada pela corte”, diz.

Fotos: Cesar Silvestro

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