Cultura

Tradicionalismo: mescla cultural formadora de um povo

Ranieri Moriggi
Escrito por Ranieri Moriggi

Miscigenação de raças e costumes é considerado fator determinante para a construção da identidade musical do gaúcho

Surgida a partir da mistura de culturas dos povos que viviam na posição geográfica que hoje chamamos de Rio Grande do Sul, a música gaúcha começa a ser construída por volta de 1600, ainda quando os portugueses chegavam ao Brasil desbravando terras e misturando as tradições indígenas, africanas, portuguesas, espanholas, italianas, entre outras. Historiadores e documentos mostram que foi através dos missionários portugueses e bandeirantes que começaram a ganhar destaque a formação que mais adiante viria a formar e receber o nome de estilo gaúcho. A reportagem do Semanário buscou através de documentos e estudos do tradicionalista João Carlos D´Avila Paixão Cortez e do Departamento de Música do Movimento Tradicionalista Gaúcho, relatos que foram responsáveis pela evolução dos ritmos que formam a identidade musical do gaúcho.

Nos primórdios, a música que chegou com os colonizadores, em especial, os portugueses, possuía um estilo medieval, com harmonias, ritmos e melodias simples. Por volta de 1700, havia no litoral da Província de São Pedro, os luso-brasileiros, já mesclados, portugueses e negros. No interior, eram os estancieiros e militares que protegiam a colônia, os índios, as missões e os espanhóis, na disputa pela terra. De acordo com as pesquisas históricas, essa foi a condição de tornar diferenciada a música gaúcha, dentro do território brasileiro.

Simplicidade musical

De acordo com o folclorista João Carlos D’Avila Paixão Cortez, em um dos seus artigos sobre a musicalidade no Rio Grande do Sul, devido os poucos recursos financeiros da época, a simplicidade dos cânticos e estilos musicais foi o norte para a criação de letras e ritmos. “De modestos recursos financeiros, nos deixaram, oriundos de uma cultura singela, preciosas manifestações de grandiosidade da alma portuguesa, manifestações estas preservadas com carinho pelo gaúcho e muitíssimas incorporadas ao seu folclore, que tem a base de sua cultura popular de herança”, explica.
Nas letras, Paixão Cortez relata a forte presença luso-açoriana que acaba se relacionando em temas ligados a comidas, bebidas, lendas, danças, cantos, ditos populares, crendices, regionalidade, hábitos, festas, jogos, diversões, etc.

Para o diretor do Departamento de Música do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), Murilo Andrade, a música gaúcha faz parte da grande ramificação da identidade do povo gaúcho, formado por diversos fatores e a música não está afastada disto. Andrade destaca exemplos como a ascensão de duplas, como os Irmãos Bertussi e de cantores e compositores afamados como Teixeirinha e Gildo de Freitas. “Por outro lado podemos encontrar a eclosão dos festivais nativistas, onde além da musicalidade campeira (característica nossa) se abre o espaço para as manifestações rio-grandense, trazendo à tona a musicalidade do gaúcho urbano e também as diversas influências musicais que existem em cada região do estado”, explica.

Políticas Públicas

Ainda, segundo Andrade, ambientes como estes surgiram os conjuntos de baile que até hoje se mantém no cenário musical, bem como músicos e intérpretes que ultrapassaram as fronteiras levando a sonoridade e cultura do RS. No entanto, o diretor ressalta a dificuldade na comunicação das músicas com as novas gerações. “Tivemos significativas evoluções no transcorrer do tempo, mas creio que os festivais num período de curto de tempo perderam um pouco da notoriedade”, acredita. Segundo ele, a ausência de políticas públicas e investimentos na área também são responsáveis por esse distanciamento. “Não acredito que a culpa seja dos compositores, dos instrumentistas e cantores, nem mesmo daquelas entidades que se propõem a realizar um evento regionalista, mas percebemos que não se dá um suporte tão grande para a cultura em si, entendo que investimento em cultura é uma boa ‘venda casada’ com a construção de uma educação mais humanizada no mundo de hoje, investir em cultura é investir numa sociedade mais consciente, mais inteligente e mais comprometida”, explica.

Estilo Gaúcho

O estilo gaúcho nasceu do folclore e começou a ser usado na música popular ou erudita, com seus acentos diferenciais. Pode-se dizer que as formas mais usadas, seja na melodia, na harmonia, no ritmo, na forma ou na tessitura são o Bugio, a Rancheira, os Chotes, a Milonga, a Valsa Campeira, a Polca limpa-banco e o Vanerão.

Bugio – Descende no Iundu e no Maxixe, devido a sua métrica e seu acento no primeiro tempo. Gênero muito mais instrumental que vocal, onde tenta imitar o ronco do bugio, através do som baixo das gaitas e acordeões.

Rancheira – Descende da Mazurca e da contradança européia. É o gênero mais gaúcho dentro da música brasileira, por não se encontrar similar em outros estados.

Chotes – É um dos gêneros mais tocados e cantados no Rio Grande do Sul, originado da “schottisch” européia, apresentando a alegria dos gaiteiros, salão cheio nos “kerbs” e fandangos.

Milonga – É encontrada no Brasil, Argentina e Uruguai. Viva, quando dançada, e lenta, sonhadora, quando apresentada para ambientação de declamação (pajada). Descende da habanera/Iundu com traços fortes da influência negro/hispânica. A característica mais marcante está no baixo ou bordões do violão.

Valsa Campeira – Originada do “ländler” austríaco/alemão. Espalhou-se pelos salões europeus e depois por todos os continentes, simbolizando alegria e liberdade no compasso ternário, um compasso perfeito.

Polca Limpa-Banco – Viva, alegre, dançante são suas principais características e, quando executada, ninguém fica nos bancos. Sua origem é checo/alemã e passou a ser gaúcha quando assimilou os acentos nos tempos fracos, no cruzamento com o crioulo gaúcho, provavelmente nas festas juninas, kerbs, onde as quadrilhas são marcadas ao compasso das polcas. A polca deve ser lenta e saltitante, tanto na execução dos instrumentos como na dança.

Vanerão – Tem sua origem na habanera cubana, porém, com o andamento mais vivo. O vanerão, assim como o maxixe, tiveram suas origens na música negra e influenciada pela polca, traçando sua característica alegre e dançante.

Sobre o autor

Ranieri Moriggi

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