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Do laboratório até o produto final

Da Redação
Escrito por Da Redação

Máquinas com tecnologia de ponta e softwares podem facilitar vida de produtores, mas inserção da tecnologia no meio rural ainda é difícil

Hoje produtores de uva podem utilizar ferramentas para facilitar a gestão, aplicar defensivos nas doses corretas com auxílio de aplicativos e produzir suco 100% natural em casa. No âmbito da pesquisa, já se estuda técnicas de agricultura de precisão com a utilização de drones para a fruticultura. No entanto, a aceitação dos agricultores por novas formas de produção e o custo de implementação ainda são um problema que limita esse tipo de prática.
O local de testes das aplicações é a Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves. Ali pesquisadores desenvolvem sistemas que facilitam a vida do produtor rural, bem como novas cultivares de videira. Por isso, a instituição enfrenta o desafio constante de levar as novidades, elaboradas com base em pesquisa, para o meio rural.
Segundo o chefe de pesquisa e desenvolvimento da instituição, Adeliano Cargnin, a tecnologia que chega até o produtor reflete no produto final. “A Embrapa tem um setor de transferência de tecnologia.Hoje os projetos já são feitos pensando na questão da transferência, mas mesmo assim dependemos muito das empresas de extensão, que enfrentam problemas com falta de recursos”, avalia. Ele ainda observa que é necessário avançar na questão da transferência, ou seja, fazer com que as novidades sejam acessíveis aos pequenos e grandes produtores.
Todas as aplicações desenvolvidas na Embrapa precisam passar pela validação do setor, o que envolve testes com agricultores. Para Cargnin, os produtores rurais ajudam na transferência de tecnologia, ao mesmo tempo em que auxiliam na adaptação de novas uvas, por exemplo.

Criação de cultivares

Cultivares de teste, na Embrapa Uva e Vinho. Foto: Lucas Araldi

 

 

Uma das questões que os pesquisadores da Embrapa Uva e Vinho tem se concentrado é na criação de novas cultivares de uva, seja para modificar o gosto, a cor ou o aroma da fruta. Em alguns casos, são feitas variedades sem semente.
O registro de uma nova cultivar pode levar até 15 anos, uma vez que é necessário passar por uma série de procedimentos, que envolve desde testes até burocracias do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Para empreender os experimentos, a Embrapa tem um banco disponível com 1.500 acessos (tipos de cultivar).
De acordo com Cargnin, é necessário uma estrutura muito grande para atingir os resultados almejados. “Para gerar um novo material são feitos centenas de cruzamentos entre duas variedades, por isso os pesquisadores precisam saber o que querem. Depois, ainda precisamos aplicar testes em campo”, comenta.

Ainda segundo o chefe de pesquisa, o que determina o resultado é a direção que os pesquisadores dão para os cruzamentos, respondendo às necessidades. “Se eu quero uma variedade que seja mais moscatel, que tenha mais suco ou mais açúcar, eu dirijo o cruzamento para chegar nisso. Para produzir a uva sem semente, ainda é necessária uma etapa em laboratório, com uma técnica específica para resgatar o embrião”, explica.
Ele observa ainda que são inúmeros produtores, na Serra Gaúcha, que estão utilizando cultivares desenvolvidas pela Embrapa. “A tecnologia auxilia de várias formas. Os programas de melhoramento têm sido nosso carro-chefe, por isso as cultivares são lançadas com o intuito de melhorar, já que as uvas sempre apresentam algum problema de sanidade ou cor”, analisa.

 

TecnoUCS também foca no desenvolvimento agrícola

O Parque de Ciência, Tecnologia e Inovação da Universidade de Caxias do Sul (TecnoUCS) conta com pelo menos três projetos que envolvem diretamente o meio rural. Segundo a coordenação, cada vez mais tem se estudado técnicas para o aprimoramento da agricultura de precisão para a fruticultura.
O pesquisador da área de climatologia e fisiologia vegetal, Gabriel Pauletti, desenvolve um projeto com produtores de cítricos no Vale do Caí, onde busca prever a aparição de doenças nos pomares por meio do monitoramento de dados. “Nós temos estações climatológicas instaladas na região. Esses dados são enviados por um software, que calcula uma pontuação. quando atinge determinado estágio, o produtor deve fazer a aplicação do defensivo, antes do aparecimento da doença. Nós ainda estamos validando esse modelo”, explica.

Para pesquisador, agricultores resistem às novidades

Pesquisador da área de economia rural da Embrapa Uva e Vinho, Joelsio José Lazzarotto. Foto: Lucas Araldi

Embora haja tecnologias acessíveis, a utilização desses recursos ainda é tímida por parte da maioria dos viticultores. Desde 2014, está disponível online um software que auxilia o agricultor a administrar a propriedade rural, que busca responder a pergunta sobre se vale a pena investir em determinada cultura. Já a utilização de drones para prevenir doenças na fruticultura ainda tem muito a evoluir. Especialistas estimam que a ferramenta esteja acessível dentro de 10 anos.
Para o pesquisador da área de economia rural da Embrapa Uva e Vinho, Joelsio José Lazzarotto, é possível levantar três pontos sobre a dificuldade da inserção tecnológica no meio rural: necessidade de dominar melhor as tecnologias por parte dos pesquisadores, investimentos altos e as tradições culturais. Segundo ele, o problema se manifesta tanto em questões mais complexas, que estão distantes da realidade rural, até nas mais simples, como uma nova técnica de manejo das parreiras.
De acordo com ele, mudar alguns hábitos é uma tarefa difícil. “O produtor não é tão aberto à inovação tecnológica. Me refiro a algo básico, por exemplo uma troca de manejo ou um tipo de poda diferente. Ele tem resistência em adotar isso”, analisa.
Outro fator agravante, levantado por Lazzarotto, é a forte tradição da agricultura familiar, característica da região, visto que o conhecimento é passado de pai para filho. “Se os produtores são resistentes em adotar tecnologia de produção, em tecnologia de gestão o cenário é ainda pior”, sintetiza. Ele ainda observa que, normalmente, o agricultor tem interesse apenas nas técnicas de cultivo, embora acabe fazendo do seu jeito.

 

Gestão financeira eficiente

O software coordenado por Lazzarotto, batizado de GestFrut, faz a avaliação econômica-financeira da produção de 11 frutas de clima temperado e contempla aspectos de curto e longo prazo. Segundo ele, a viticultura é uma atividade de alto risco, devido aos custos elevados para montar um hectare. “Por isso, as pessoas precisam estar bem planejadas, para saber se o preço da uva vai pagar tudo que foi investido no cultivo”, argumenta. É possível acompanhar um breve tutorial e fazer download da ferramenta em embrapa.br/uva-e-vinho/gestfrut.

 

Drones nos parreirais

Estimativa é de que em 10 anos, utilização de drones esteja acessível nos vinhedos da Serra. Foto: Flavio Ubiali/Embrapa, divulgação

A agricultura de precisão já está sendo utilizada de forma intensa nos cultivos que necessitam de grandes áreas, como a soja e o trigo, mas na fruticultura a tecnologia ainda está em fase de experimentação. De acordo com Lazzarotto, a grande vantagem é detectar doenças e fazer a aplicação do defensivo agrícola de forma dirigida, sem necessidade de utilizá-lo em todo o vinhedo. “O objetivo é fazer o manejo e o tratamento no local que você precisa”, comenta. Ele explica que o sistema funciona por meio de um banco de dados e da comparação entre imagens.

 

Alternativa para produtores fazerem suco 100% natural

Se algumas tecnologias acabam não sendo adotadas por produtores, outras têm lista de espera para a aquisição, devido à grande procura. Esse é o caso do suquidificador integral, desenvolvido na Embrapa Uva e Vinho, que possibilita aos agricultores elaborarem suco de uva 100% natural em suas propriedades.

O pesquisador Celito Guerra (e) e o empresário Higino Bitarello. Foto: Lucas Araldi

De acordo com o pesquisador Celito Guerra, responsável pelo projeto, as máquinas de suco, para pequenos produtores, não permitem elaborar a bebida apenas com a fruta, devido à presença do vapor no processo de condensação. “Por lei, isso não pode acontecer. O produtor só pode produzir suco dessa maneira para o consumo próprio”, explica.
Sendo assim, Guerra e o empresário Higino Bitarello desenvolveram o projeto de uma máquina que ferve a uva de forma diferente. “A parede externa é espessa porque dentro tem um óleo. A energia elétrica aquece o óleo, que por sua vez aquece a uva esmagada que está lá dentro. Além disso, há um sistema eletrônico que comanda um mecanismo para a agitação”, explica. Ainda de acordo com o pesquisador, a máquina é feita para que um agricultor consiga fazer suco sozinho ou com um ajudante.
Agora os pesquisadores testam a máquina com outras frutas, além da uva. Até o momento, já foram feitos sucos de tomate, pêssego e frutas de clima temperado. “Estamos em via de testar com as tropicais, porque há muitas nesse país. Isso pode expandir seu uso para outras regiões”, afirma Guerra.

Fila de espera

Na avaliação do pesquisador, a aceitação do produto tem sido maravilhosa e superou as expectativas. A empresa Monofrio, de Higino Bitarello, foi credenciada pela Embrapa para desenvolver o suquidificador e comercializá-lo. “Toda empresa que tenha interesse em fabricar precisa da licença da Embrapa e da Monofrio”, reitera Guerra.
Ele expõe ainda que todas as máquinas que foram para o mercado estão em uso e o retorno dos produtores tem sido positivo. “Só um produtor ligou reclamando, lá no início. Constatamos que ele não estava fazendo corretamente uma etapa e o problema foi resolvido”, afirma.
De acordo com Bitarello, eles estão na espera de que o Programa Mais Alimentos credencie o financiamento do produto, para que os agricultores possam adquiri-lo por meio dos bancos. “Nós já temos 100 pessoas na lista de espera pelo Mais Alimentos”, ressalta. Ele ainda comenta que o suquidificador tem um preço mais alto do que em relação às outras máquinas, com o valor estipulado em R$ 16 mil. O investimento é maior se for necessário mais equipamentos.

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