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Quarta-feira de Cinzas: após os confetes, a hora é de reflexão

Ranieri Moriggi
Escrito por Ranieri Moriggi

Padre explica o significado da simbologia utilizada durante as celebrações católicas que abrem o período da Quaresma

Após cinco dias ao som das marchinhas, frevo, samba, axé e tantos outros ritmos, o confete, serpentina, glitter e desfiles, ocasionados pela principal festa popular brasileira, o Carnaval termina e dá espaço à reflexão. Pelo menos para os católicos, que celebram a quarta-feira de Cinzas, momento em que a Igreja se volta à conversão de fieis e ao debate de assuntos que afetam a sociedade, neste ano, com a temática da violência. Mesmo com toda a solenidade, muitos cristãos não entendem os significados de toda a simbologia e atos realizados durante as missas nesta época, em especial, a que abre o período quaresmal, com a imposição de cinzas, realização de jejum e abstinência de carne, além de orientações que visam preparar os fieis católicos para o tempo pascal.

Segundo Aristides, imposição das cinzas remete ao destino final do corpo na terra. Foto: Reprodução

A celebração da quarta-feira de Cinzas marca o início do tempo da Quaresma em preparação para a Páscoa. De acordo com o padre Elton Marcelo Aristides, assessor de comunicação da Diocese de Caxias do Sul, o período faz referência aos dias 40 dias em que Jesus Cristo permaneceu no deserto. Segundo o padre, o momento é apropriado aos exercícios espirituais, penitência e, de modo especial, as ações como o jejum e a esmola. “Faz-nos refletir que, o que tenho, posso dar em favor dos outros. Àquela refeição e valor financeiro que me privo, será de grande valia aos pobres e, agindo desta forma, mesmo momentaneamente, posso fazer uma comunhão mais próxima com eles”, explica.

Celebrada um dia após o Carnaval, considerada uma festa pagã, o sacerdote explica por que a Igreja inicia a preparação para as atividades pascais na primeira quarta-feira, após a festa do Momo. Conforme Aristides, o Carnaval surgiu antes do cristianismo, entre os gregos e romanos, que costumavam fazer um cortejo com uma nave, dedicado ao deus Dionísio ou Baco, festa que chamavam em latim de “currus navalis” (nave carruagem), de onde teria vindo a expressão Carnavale. De acordo com o padre, a Igreja não se opôs ao carnaval, mas procurou cristianizá-lo, no sentido de depurar as práticas supersticiosas e mitológicas. “Aos poucos, as festas pagãs foram sendo substituídas por solenidades do cristianismo, como o Natal, Epifania do Senhor ou a Purificação de Maria”, ressalta.

A ideia em iniciar o período de preparação para a Páscoa após as festividades carnavalescas surgiu com o papa São Gregório Magno (590-604 d.C), que teria dado ao último domingo antes da Quaresma, o título de “dominica ad carnes levandas”; o que teria gerado a expressão “carneval” ou carnaval.

Tradição das Cinzas

O rito de impor as cinzas na fronte dos fieis também integra a simbologia adotada neste período onde os católicos buscam a reflexão e a conversão, para, segundo a Igreja, celebrar dignamente a ressurreição de Jesus Cristo no domingo de Páscoa. De acordo com Aristides, em tudo há um significado e a celebração da quarta-feira denota o sentimento de arrependimento. A ideia em utilizar as cinzas também é milenar, desde a época dos antigos judeus. “Para eles, sentar-se sobre as cinzas já significava arrependimento dos pecados e o retorno para Deus. Naturalmente, era um gesto simbólico”, explica.

E a preparação do material utilizado na missa segue um ritual. Atualmente, as cinzas são preparadas pela queima de palmas usadas na procissão do Domingo de Ramos do ano anterior. “Elas lembram, portanto, o Cristo vitorioso sobre a morte. A palma é símbolo de vitória e de triunfo”, ressalta Aristides.

A imposição também possui um significado que, segundo o padre, remete o destino final do corpo. “Hoje, as cinzas bentas e colocadas sobre as nossas cabeças nos fazem lembrar que vamos morrer, que somos pó e ao pó da terra voltaremos, para que nosso corpo seja refeito por Deus de maneira gloriosa, para não mais perecer”, afirma Aristides. E, segundo o padre, todos podem participar deste momento. “Independentemente de nossa classe social ou qualquer outra condição, caminhamos para a vida eterna para junto de Deus, nosso criador. Fazer-nos lembrar de que não podemos nos apegar a esta vida, achando que a felicidade plena possa ser construída aqui”, garante.

Questionado sobre redução na prática do jejum e abstinência de carne e na participação das celebrações na quarta-feira de Cinzas, o padre acredita que não haja uma diminuição. Ele afirma que o cristão precisa entender os significados do que é realizado neste período. “A Igreja quer nos ensinar como vencer as tentações de hoje”, ressalta.

Aristides garante que cada um tem o livre arbítrio para escolher e questionar sobre o que pode fazer para fortalecer a sua espiritualidade e um dos caminhos apontados é a prática do jejum, a abstinência de doces, álcool, carne, além da oração. “Pode-se firmar um propósito a ser seguido durante os 40 dias, o que pode se tornar um sinal de transformação e recomeço na vida”, finaliza.

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Ranieri Moriggi

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