Na localidade de Vale Aurora, no distrito de Faria Lemos, interior de Bento Gonçalves, o futebol sempre foi mais do que um esporte. Foi ponto de encontro, símbolo de identidade e expressão de uma comunidade construída com esforço coletivo. Ao longo das décadas, o time que leva o nome da localidade acompanhou as transformações do interior, sem nunca perder sua essência.
A história começa de forma simples, marcada pela união dos moradores. O primeiro campo foi erguido nas terras de Dante Vitório Garbin, em um tempo em que não havia máquinas, apenas disposição. Com pá, picão, marreta, alavanca, carriola e enxadas, os próprios moradores moldavam o terreno onde, mais tarde, fariam história.
Até 1980, seis campos chegaram a ser construídos na comunidade. Era comum jogar em um espaço por um período e, depois, partir para a construção de outro. Os jogos reuniam jogadores e moradores em um cenário que hoje parece distante: atletas que iam a pé ou a cavalo para as partidas, vestindo uniformes simples, com camisas azul e branca e meias listradas.
A comunidade, ainda pequena, reunia entre 15 e 20 associados. Entre os jogadores estavam nomes que ajudaram a construir a trajetória do time, como Elizeo Petroli, Luiz Spagnollo, Eno Espagnollo, Armelindo Locatelli, Antônio Petroli e outros moradores que transformaram o futebol em tradição local.
Organização e crescimento
O ano de 1980 marcou um divisor de águas. Com a decisão de construir um campo maior, parte da comunidade se afastou do projeto. Ainda assim, os que permaneceram seguiram em frente. Em reunião realizada em 1º de janeiro daquele ano, conseguiram doações de terras de Francisco Spagnollo (in memoriam) e Rosina Piazzetta Spagnollo.
Com apoio da prefeitura para a terraplanagem, o novo campo saiu do papel. A inauguração foi celebrada com missa, conduzida pelo padre Olívio Bertuol, e marcada por agradecimentos ao então prefeito Fortunato Janir Rizzardo e a todos os envolvidos.
Pouco depois, em 11 de junho de 1980, a comunidade formalizou sua organização com a criação da “Sociedade Recreativa e Cultural Juventude”. A primeira diretoria teve Nilson Piffer como presidente e Avelino Luquini como vice. Também foram definidas as cores que seguem como símbolo até hoje: azul, branco e preto.

Mesmo com estrutura precária, com venda de bebidas em um carreto agrícola coberto por lona, a comunidade se mobilizou. Com o tempo, vieram vestiários, banheiros, bar e cozinha, construídos com material doado e muita mão de obra voluntária.
Do campo ao futsal
O Vale Aurora viveu momentos de destaque no futebol de campo, com conquistas importantes como a Copa Nostra Itália em 2002 e 2005. No entanto, com o passar dos anos, o cenário mudou.
Segundo o representante do time de futsal, Fabricio Petroli, o futebol de campo perdeu força não apenas na comunidade, mas em diversas localidades do interior.“Ele passou a concorrer com outras modalidades, e a pandemia também contribuiu para o crescimento dos esportes individuais”, explica.
A falta de atletas e a deterioração da estrutura levaram ao fim das atividades no campo. Hoje, o espaço físico já não existe, assim como a antiga sede. A adaptação veio com o futsal.
Atualmente, o Vale Aurora mantém viva sua tradição por meio da participação no campeonato Colonial de Futsal, disputado entre comunidades. Com menos jogadores em quadra e maior flexibilidade para completar o elenco, a modalidade permitiu a continuidade da equipe.
Mais do que esporte
Para Petroli, carregar o nome Vale Aurora vai além da competição. “O nome Vale Aurora é muito forte. Representa pessoas sérias, trabalhadoras e acolhedoras. Jogar com esse nome é motivo de orgulho”, afirma.
Mais do que resultados, o time se vê como um representante da comunidade e de suas gerações. “Transmitimos os valores que aprendemos com nossos pais e avós. É como uma família dentro do esporte”, completa.
Esse espírito se reflete também no perfil da equipe atual. O grupo é formado por atletas da categoria máster, sem exigências além da idade mínima. O foco não é a formação profissional, mas a convivência e o amor pelo jogo
Respeito e conquistas
Mesmo com as mudanças, o Vale Aurora segue competitivo. A equipe é a atual campeã máster de futsal, reforçando o respeito conquistado ao longo dos anos dentro e fora das quadras.
Ainda assim, Fabricio destaca que o maior legado não está nas taças. “O que fica são as amizades. Muitas pessoas passaram pelo time, e as lembranças que construímos são para a vida inteira”, destaca.
O futuro com raízes no passado
Sem estrutura para retomar o futebol de campo, o Vale Aurora aposta na continuidade do futsal como forma de manter viva sua história. Os planos são simples, mas carregados de significado: seguir participando dos campeonatos do interior e representar a comunidade com dignidade. “Não somos profissionais. Jogamos porque amamos. Herdamos esse amor dos nossos pais e queremos continuar levando isso adiante”, resume.