Carregar nas costas todo o necessário para sobreviver durante sete dias no Deserto do Saara, atravessar 270 quilômetros sob calor extremo, dormir em barracas compartilhadas e enfrentar o desgaste físico e mental imposto por uma das provas mais difíceis do planeta exige mais do que preparo atlético. Foi resiliência que acompanhou a ultramaratonista Cátia Geremia ao longo da Marathon des Sables Legendary, competição disputada em seis etapas durante sete dias no deserto africano.
Integrante da equipe BTR Bento Trail Runners, ela concluiu a prova em 47h32min, alcançando a 78ª colocação geral feminina, o 10º lugar na categoria de 40 a 49 anos e a 510ª posição na classificação geral entre os 1.435 atletas de 68 nacionalidades.
Cátia tornou-se a terceira brasileira a completar a competição e recebeu o título de “Legendary”, concedido aos atletas que conseguem concluir o desafio. “É uma prova de autossuficiência. Está entre as provas mais difíceis do mundo. Tudo o que eu precisava durante esses sete dias estava comigo na mochila: alimentação, equipamentos e itens obrigatórios. A organização oferece apenas uma bombona de cinco litros de água ao final de cada etapa, além da água distribuída nos postos de controle”, explica.

Desafio aumentado
O formato da prova fez com que cada decisão fosse estratégica, desde o peso carregado até a quantidade de comida necessária para suportar dias consecutivos de esforço extremo. Neste ano, em comemoração à 40ª edição da ultramaratona, o percurso aumentou de 250 para 270 quilômetros, incluindo uma etapa de 100 quilômetros em meio às dunas e terrenos rochosos do Saara.
O gosto pelos desafios extremos acompanha Cátia há cerca de uma década. Antes de enfrentar o deserto africano, ela já acumulava experiências em provas de alta exigência técnica realizadas em diferentes países e cenários climáticos, como os 80km em Lavaredo, em Cortina D’Ampezzo, na Itália, além da TDS 156km, no Vale da Aosta, também Itália. No Brasil, soma participações em provas tradicionais como Paraty 110km e La Mision 80km, na Serra da Mantiqueira. “O que me move a fazer uma prova de trail running é justamente o nível de dificuldade. Gosto de me desafiar. O aumento das distâncias foi gradativo, assim como os diferentes tipos de terreno e clima”, relata. Apesar da longa experiência em ultramaratonas, esta foi a primeira vez que encarou uma prova em formato de etapas e autossuficiência alimentar.
Preparação
O convite para participar da Marathon des Sables veio em 2025, feito pela ultramaratonista Sabrina Schirmer. Depois de conhecer o funcionamento da prova, Cátia decidiu aceitar o desafio. “Inicialmente a prova era de 250 quilômetros, mas em comemoração aos 40 anos passou para 270. Quando entendi o formato, achei algo completamente diferente de tudo que já tinha feito. Durante toda a aventura, os atletas precisam carregar o próprio equipamento e alimentação, com exceção da barraca e da água fornecida pela organização. Dormimos em tendas berberes abertas nas laterais, divididas entre oito pessoas”, conta.

A preparação exigiu meses de adaptação física e mental. Grande parte dos treinamentos aconteceu nas dunas do litoral gaúcho, justamente para simular a movimentação sobre a areia do deserto e testar o tênis específico utilizado na competição. Já as estradas do interior da Serra Gaúcha serviram como preparação para os trechos com muitas pedras.
Além disso, os treinos urbanos eram realizados em horários de temperatura e umidade mais elevadas, buscando aproximar o corpo das condições encontradas no Saara. “Nas maiores distâncias eu utilizava a mochila da prova com oito quilos, chegando a onze quilos nos últimos dias de preparação, com todo o material necessário para os sete dias. Simular o que você poderá passar na prova faz parte da resiliência: testar, acertar, errar e depois corrigir”, explica.
Constância
Segundo ela, o maior desafio da prova não foi exatamente o calor do deserto, mas a administração do cansaço e das dores provocadas pelo peso da mochila. “Dores no ombro provocadas pelo peso da mochila. Mas, com a experiência e o auxílio das colegas de tenda, isso foi resolvido rapidamente”, diz.

O cuidado com os pés também foi decisivo para conseguir seguir na competição. Em provas desse tipo, as bolhas são consideradas uma das maiores causas de abandono. “Os cuidados com os pés, utilizando bons materiais de prevenção, me ajudaram muito a evitar o surgimento delas”, afirma.
Fardo
O momento mais delicado aconteceu justamente na quarta etapa, a mais longa da prova, com 100 quilômetros. Próximo ao quilômetro 51, as dores nos ombros obrigaram a atleta a fazer uma parada mais longa para reorganizar o equipamento e aliviar o peso carregado. “Perdi um pouco mais de tempo ali, mas consegui me recuperar e voltar bem para a prova. Sabia que não poderia forçar porque ainda teria mais duas etapas pela frente, de 42 e 23 quilômetros, que pareciam pouco depois de já ter feito mais de 200 quilômetros, mas que exigiriam ainda mais do corpo”, frisa.
A partir daquele momento, ela adotou uma estratégia mais conservadora, alternando caminhadas rápidas com trotes leves sempre que o terreno permitia.
A organização exigia que cada atleta carregasse alimentação equivalente a 2 mil calorias por dia. Tudo o que seria consumido foi previamente testado durante os treinos. “Foi separado por etapa, contendo três refeições por dia, sendo duas delas liofilizadas, além da suplementação específica para cada distância. Depois de muita pesquisa defini o material que seria utilizado. Cada grama conta muito no peso total da mochila”, pondera.
Determinação
Apesar das dificuldades, desistir nunca passou pela cabeça. “Cada etapa vencida e a chegada das colegas de tenda eram comemoradas por todas nós, e isso me deixava mais confiante”, afirma. Segundo ela, o apoio dos voluntários também foi essencial para manter a moral elevada.
Mesmo assim, o corpo entrou em um verdadeiro estado de sobrevivência. Alterações de humor, perda de peso e fadiga passaram a fazer parte da rotina.
Em meio à imensidão do deserto, Cátia afirma que a mente passa a assumir o controle da situação. “A conversa consigo mesma é constante. O foco passa a ser sobrevivência, deixando um pouco de lado a competitividade”, aponta. Para ela, é justamente nesses momentos que a resiliência se fortalece. “Você aprende a manter a calma diante do desafio, superar adversidades e gerenciar emoções”, diz.
A experiência, segundo Cátia, mudou não apenas sua relação com o esporte, mas também sua forma de enxergar a vida. “A ultramaratona desenvolve a resiliência, ensina a lidar com situações não planejadas, a ter paciência e manter o foco. Também gera autoconfiança, mostrando que somos capazes de fazer muito mais do que imaginamos”, revela.
Propósito
O trail running começou como um hobby e acabou se transformando em paixão. “Meu lado desafiador transformou isso em uma verdadeira paixão. Busco melhorar a cada treino e competição, perseguindo objetivos e tentando inspirar outras pessoas”, ressalta.
Ela também destaca a importância da rede de apoio que esteve ao seu lado durante toda a preparação para o Saara, incluindo a família, o marido Cleito Maraga, a filha Maysa, o treinador Sidney Togumi, a assessoria esportiva, profissionais da saúde e toda a equipe da BTR Bento Trail Runners.
Para quem sonha em disputar uma ultramaratona desse nível, o conselho é claro: paciência, evolução gradual e respeito ao próprio corpo. “É preciso desenvolver resistência e conhecer os seus limites. Não se compare com outros atletas, siga o seu ritmo nos treinos e nas provas. E o mais importante de tudo: curta o que está fazendo”, finaliza.