A imposição da nova alíquota americana desde agosto impacta a competitividade dos móveis brasileiros e provoca cancelamento de pedidos
O polo moveleiro de Bento Gonçalves enfrenta um cenário de pressão em suas exportações devido à imposição do tarifaço de Donald Trump, presidente americano. A medida, em vigor desde 6 de agosto, afeta diretamente a competitividade dos produtos gaúchos no mercado norte-americano, que até recentemente figurava como o principal destino das vendas internacionais do setor.
Em entrevista, a presidente do Sindicato das Indústrias do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sindmóveis), Cíntia Weirich, detalha os impactos iniciais e as estratégias de adaptação das empresas locais.” O principal impacto é a perda de competitividade dos nossos móveis no mercado norte-americano, porque os produtos encarecem muito. É uma situação delicada, principalmente para as indústrias que tinham os Estados Unidos como principal destino das exportações”, destaca a presidente.

Apesar da importância do mercado externo para a diversificação e competitividade, Cíntia ressalta que a maior parte da receita do polo moveleiro ainda provém do mercado interno. “Os Estados Unidos vinham perdendo representatividade nos últimos anos, mas até agosto de 2025 continuou como principal importador dos móveis produzidos no polo de Bento, respondendo por cerca de 16% das vendas para fora do Brasil. É essencial destacar que as exportações são importantes principalmente para diversificar atuação e tornar as indústrias competitivas, mas a principal receita do setor vem do mercado interno, ou seja, a grande maioria das vendas do polo moveleiro de Bento Gonçalves é dentro do Brasil”, esclarece.
Quanto à mensuração das perdas, a presidente do sindicato informa que, no acumulado de janeiro a agosto deste ano, o polo moveleiro registrou aumento no faturamento total, mas com uma pequena queda nas exportações, possivelmente relacionada à taxação dos Estados Unidos.
Realidade atual
Na prática, a tarifa provocou preocupação desde seu anúncio, em julho. Segundo Cíntia, embora as renegociações tenham sido acessíveis no início, os cancelamentos de pedidos foram inevitáveis. No entanto, os impactos ainda não se traduzem em demissões em massa. A presidente relata que houve algumas indústrias com férias coletivas ou redução pontual na jornada de trabalho, mas a entidade não relaciona a redução de quadros como um efeito direto e generalizado da taxação americana. “Precisamos aguardar o fechamento do ano para entender o cenário como um todo”, pondera.
A busca por novos mercados surge como a principal via de readequação. Cíntia destaca que, se os Estados Unidos representam 16% das exportações, os demais mercados correspondem a 84%. “Temos muitas oportunidades internacionais para conquistar presença, principalmente em mercados importantes como Argentina, Uruguai, Chile, Equador, e Peru. O momento agora é de readequação, estudo e busca por novas parcerias. Claro que é um desafio, mas o Sindmóveis está pronto para orientar e apoiar as indústrias”, pontua.
Auxílio às empresas

Como forma de apoio, Cíntia menciona a Movelsul Brasil, feira que é referência em visitação estrangeira e que recebeu público de 47 países em 2025. A próxima edição, prevista para agosto de 2026, já está com a comercialização avançada. “Indústrias que querem iniciar ou aumentar parcerias internacionais se beneficiam muito expondo na feira”, afirma.
Sobre o apoio governamental, ela informa que o governo federal e estadual liberaram verbas para auxiliar empresas exportadoras, o que é uma medida bem-vinda para aumentar o capital de giro, acessar crédito e buscar novos mercados. Contudo, a presidente é clara ao afirmar que tais ações não resolvem o principal problema, que é a taxação.
A articulação política é conduzida em parceria. Movergs e Sindmóveis mantêm diálogo constante com entidades de nível nacional, como Abimóvel e CNI, e estadual, como Fiergs, acompanhando todos os desdobramentos. O diálogo internacional, por sua vez, é liderado pela Abimóvel, com o apoio das entidades gaúchas. “É um processo que envolve muitas partes interessadas, mas o poder de decisão está com os presidentes dos dois países. Esperamos que haja um diálogo amigável e que o problema seja resolvido em breve”, afirma Cíntia.
Considerações finais
A expectativa do setor é de que as tarifas permaneçam, embora o governo americano tenha anunciado recentemente novas alíquotas para categorias específicas, como móveis para cozinha, banheiro e estofados, o que pode trazer certo alívio. Contudo, a avaliação é de que os móveis brasileiros ainda perdem espaço. “A tendência é que as tarifas permaneçam. Recentemente o governo dos Estados Unidos anunciou novas alíquotas para categorias específicas de mobiliário, como móveis para cozinha e banheiro e estofados. Até pode trazer certo alívio, mas ainda assim os móveis brasileiros perdem espaço no mercado norte-americano. Então o ideal é que as indústrias busquem formas de se adaptar, diversificando suas exportações”, finaliza.