Em entrevista, o presidente Cedenir Postal detalha serviços oferecidos a cerca de mil associados e aponta gargalos no seguro rural, crédito e infraestrutura

O Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza é mais que um órgão representativo: é um eixo de suporte para famílias que vivem da terra na Serra Gaúcha. Com atendimento técnico, jurídico, previdenciário e social a cerca de mil associados de quatro municípios, a entidade se tornou um ativo fundamental para quem planta, colhe e enfrenta os desafios do campo. Ao mesmo tempo, o presidente da entidade, Cedenir Postal, assegura que a agricultura familiar atravessa um momento de riscos estruturais, com destaque para o seguro agrícola, entraves burocráticos e custos crescentes que pressionam a renda dos produtores.

Rotina de atendimento acompanha o ciclo agrícola

Para Postal, a demanda pelo sindicato está diretamente ligada ao ciclo de tarefas no campo. “As necessidades dos agricultores vão mudando ao longo do ano. Logo depois da safra, eles vêm fazer o cadastro vitícola. Depois tem o ITR (Imposto Territorial Rural), a contratação de mão de obra, então são várias demandas diferentes”, relata. Atribui ainda ao avanço de exigências fiscais a necessidade de maior suporte técnico: “A implantação da nota fiscal eletrônica no meio rural gerou muita procura por auxílio, muitos ainda têm dificuldade com a tecnologia”, diz.

Além disso, o sindicato oferece suporte em atualizações de cadastros como INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e CAR (Cadastro Ambiental Rural), além de orientação em projetos para financiamento bancário, atendimento odontológico na sede e convênios com clínicas, laboratórios e o Hospital Tacchini.

Previdência, jurídico e mão de obra

Na linha de serviços essenciais, o sindicato acompanha benefícios previdenciários junto ao INSS, desde organização da documentação até concessão de aposentadorias e auxílios. “Trabalhamos com aposentadoria, auxílio-doença, pensão por morte, auxílio-maternidade. Fazemos todo o encaminhamento e acompanhamos até o final”, explica Postal.

O atendimento jurídico atende contratos rurais, elaboração de documentos e dúvidas dos agricultores, com serviços também disponíveis na subsede de Monte Belo do Sul. O sindicato igualmente apoia os produtores na contratação formal de mão de obra, cuidando de toda a burocracia, incluindo exames e encargos trabalhistas.

Cedenir Postal

Além do atendimento direto aos associados, também integra a estrutura regional da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag-RS). O STR-BG faz parte da Regional Sindical Serra, considerada uma das maiores do Estado, com 21 sindicatos e atuação em 32 municípios. Segundo Postal, os representantes se reúnem mensalmente, de forma itinerante, para debater demandas comuns da agricultura familiar e encaminhar pautas coletivas, como melhorias no Plano Safra, crédito rural, seguro agrícola e regularização fundiária, atualmente, Postal ocupa o cargo de presidência na Regional.

Instabilidade que cresce no campo

Para muitos agricultores, o seguro agrícola funciona como a última linha de defesa contra eventos climáticos imprevisíveis, como granizo, estiagem, chuvas intensas e geadas, que podem comprometer toda a safra. Historicamente, esse seguro rural é viabilizado por um mecanismo de apoio público chamado Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), que reduz o custo do prêmio para o produtor ao cobrir parte do valor da apólice.

Postal descreve o mecanismo com clareza: “Tradicionalmente, o agricultor pagava cerca de 60% do seguro e o governo subsidiava os outros 40%. Neste ano, isso simplesmente não aconteceu”, afirma, refletindo a frustração de produtores.

Para mitigar esse impacto, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) liberou parte dos recursos em duas etapas: inicialmente R$179 milhões em maio, que foram destinados para apólices já adquiridas e para novas contratações naquele mês; e posteriormente mais R$360 milhões em junho, distribuídos entre culturas de inverno, frutas, pecuária e outras atividades.

Ainda assim, a instabilidade orçamentária e os bloqueios de parte significativa dos recursos deixaram muitos produtores sem acesso ao subsídio no momento em que precisavam contratar ou renovar o seguro. Postal reforça esse impacto: “Quem contratou mais cedo conseguiu. Quem deixou para mais perto do prazo ficou sem o aporte. Foi um fato bastante negativo para o produtor”, destaca.
Segundo dados do Mapa, menos de 14 % da área agrícola cultivada no Brasil está coberta por seguro rural, deixando a maior parte das lavouras expostas a riscos climáticos extremos.

Consequências práticas para a agricultura familiar

A redução ou limitação de subvenção não só encarece o custo da apólice para o agricultor, como também quebra a previsibilidade necessária para o planejamento da safra, sobretudo em um contexto de eventos climáticos cada vez mais severos. “O agricultor precisa de segurança para produzir. Sem seguro, ele fica totalmente exposto”, resume Postal.

Essa insegurança amplia a vulnerabilidade financeira das famílias rurais porque, sem seguro eficaz, perdas climáticas significam não apenas prejuízo de colheita, mas risco de endividamento e comprometimento de renda familiar ao longo de meses ou anos.

Regularização fundiária, CAR e bloqueios técnicos

Outro entrave fundamental diz respeito à regularização fundiária e ao Cadastro Ambiental Rural, instrumentos que impactam diretamente o acesso ao crédito, a programas públicos e à segurança jurídica da propriedade. Postal enfatiza que muitas ainda estão no nome de antepassados, o que dificulta inventários e sucessões. “Tem propriedades que continuam no nome dos avós, sem inventário feito. Isso gera insegurança jurídica e dificulta o acesso ao crédito e a políticas públicas”, relata.

O CAR, por sua vez, é obrigatório e deve registrar informações ambientais da propriedade, como áreas de preservação permanente e reserva legal. Porém, muitos cadastros foram feitos com sobreposições ou dados inconsistentes, o que pode bloquear o acesso a financiamentos, seguros e apoio público.

Jovens no campo: renda e infraestrutura definem permanência

A continuidade dos jovens no meio rural segue sendo um tema de preocupação. Para Postal, a renda familiar é o principal fator para que eles continuem no campo. “Eles só permanece no campo se tiver renda na sua propriedade”, afirma. Além disso, a infraestrutura rural, como estradas pavimentadas, influencia fortemente essa decisão. “O asfalto é fundamental. O jovem não quer sair por estrada de chão em dia de chuva”, destaca.

Ele observa que o perfil das famílias rurais mudou ao longo das décadas, com menos filhos por família e maior mobilidade. Apesar disso, em propriedades bem estruturadas há casos de jovens que retornam depois de estudar ou trabalhar fora.

Safras, custos e perspectivas

Na avaliação do presidente, a safra de pêssego e ameixa foi excelente em volume e qualidade, mas sofreu com preços baixos no mercado. “Os valores não remuneraram adequadamente o agricultor”, afirma. A safra de uva também apresentou boa quantidade, embora tenha sido afetada por chuvas tardias que atrasaram a maturação.

Os custos de produção continuam altos, especialmente com combustível e mão de obra formalizada, que envolve encargos adicionais. “O diesel está muito caro e pesa no custo. A mão de obra também encareceu com exames, laudos e encargos trabalhistas”, explica.

Feiras, mercado local e especulação imobiliária

Postal observa que as feiras que reúnem produtores ainda funcionam, mas faltam diversidade e participação de agricultores. Ele defende a criação de um espaço permanente e coberto para comercialização dos produtos da agricultura familiar. “Bento Gonçalves é o maior mercado consumidor da região e ainda não tem um espaço adequado para isso”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele alerta para a pressão da especulação imobiliária sobre terras agricultáveis, reduzindo a disponibilidade de área produtiva e empurrando os agricultores para longe de mercados consumidores.

Entre as ações recentes, o sindicato também atua na intermediação de programas de habitação rural. Seis casas já estão em construção para agricultores de Santa Tereza que perderam suas moradias nas enchentes, por meio de um programa federal acessado via sindicato e cooperativa ligada à federação.

Novas famílias também foram inscritas para as próximas etapas. O modelo é de construção assistida, em que o próprio agricultor escolhe materiais e mão de obra, com acompanhamento técnico de engenheiro, garantindo moradia adequada e permanência no campo.

O sindicato mantém foco na capacitação dos agricultores, na luta por políticas públicas estáveis, em especial um seguro agrícola eficaz, e na melhoria das condições de vida no campo. Postal deixa um recado direto: “Acreditem no sindicato. A gente não é perfeito, mas procura sempre fazer o melhor em favor dos agricultores. Em caso de dúvidas, nos procurem. Estamos aqui para ajudar”, conclui.