Parece que foi ontem que era 17 de março de 2020. Eu estava aplicando um trabalho em grupo numa turma de adolescentes, numa escola privada onde lecionava Língua Portuguesa. No meio da aula, a coordenadora entrou na sala e pediu uma pausa. A notícia era curta e confusa: o vírus da Covid-19, que até então parecia distante, chegava ao Brasil e registrava o primeiro caso no Rio Grande do Sul. Alguns alunos comemoraram. Achavam que seriam apenas alguns dias sem aula. Ledo engano.
Aquele 17 de março acabou ficando para a história como o último dia de aula presencial por muito tempo. Na saída ainda houve abraços, risadas, promessas de “até semana que vem”. Ninguém imaginava que estávamos nos despedindo de uma rotina que levaria meses — talvez anos — para voltar. Depois disso, o mundo virou do avesso. Cada professor, empresário, trabalhador e estudante precisou virar um pequeno especialista em tecnologia. Aprendemos a gravar vídeos, dar aulas síncronas, entrar em plataformas que nunca tínhamos ouvido falar. O álcool gel virou companheiro de bolso. As compras do mercado eram higienizadas como se fossem peças cirúrgicas. Máscaras passaram a fazer parte do vestuário cotidiano. Sair de casa virou evento.
Ir ao mercado parecia passeio. Abraço e chimarrão viraram riscos calculados. O churrasco com amigos foi suspenso. Visitar os pais era uma decisão cheia de medo. Torcíamos para não pegar o vírus — ou pior, não precisar de hospital. Falávamos sempre em “voltar no segundo semestre”. Depois em “talvez no próximo ano”.
Nesse mesmo ano, fui paraninfa de uma turma de terceirão daquela escola. A formatura, que normalmente seria festa, abraço e foto sem fim, virou algo quase surreal. Foi realizada em pátio aberto, com famílias dentro dos carros em sistema drive-thru. Os alunos estavam separados, distantes, todos de máscara.
Eu também. Falei ao céu aberto, com o rosto coberto, longe dos meus afilhados. Não pude abraçá-los, não houve festa depois. Foi uma cerimônia silenciosa, mas carregada de significado. Hoje, olhando para trás, parece difícil acreditar que tudo aquilo aconteceu.
Já se passaram seis anos. Voltamos às salas cheias, aos corredores barulhentos, aos abraços espontâneos. Voltamos ao chimarrão compartilhado, aos churrascos de domingo, às festas de formatura com dança e fotografia. E, mesmo assim, algo dentro de nós mudou.
A pandemia nos ensinou que a rotina — aquela que muitas vezes tratávamos como banal — era, na verdade, um privilégio silencioso. A escola cheia, a conversa no recreio, o professor explicando no quadro, o abraço no final da aula.
Nada disso era garantido. Talvez por isso hoje valorizemos mais os encontros simples. Talvez por isso a palavra normalidade tenha ganhado outro peso. Porque, no fundo, o que parecia apenas um dia comum de março acabou se transformando em uma lembrança coletiva de um tempo em que o mundo inteiro parou.
E nós aprendemos, à força, que a vida segue — mas nunca exatamente igual ao que era antes.