O espaço de lazer do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sitracom-BG) é um daqueles espaços cuja história não pode ser contada sem mencionar o esforço, a união e a persistência de uma categoria inteira. Localizada em uma área próxima de Bento Gonçalves, o centro de lazer foi inaugurado em 2004, mas a sua trajetória começa muito antes, nos debates internos de uma diretoria que acreditou que o lazer também é um direito fundamental do trabalhador e que o sindicato deveria oferecer mais do que atendimento jurídico e reivindicações coletivas.
Ao longo de mais de vinte anos, a sede se transformou em um patrimônio que atravessou expansões, melhorias, enchentes, perdas, reconstruções e profundas mudanças na lei trabalhista. Ainda assim, permanece de pé, viva, em funcionamento, cheia de histórias e significados para quem ajudou a erguê-la e para as milhares de pessoas que a frequentaram ao longo desse período.
Um projeto ousado que nasceu da percepção de uma necessidade
Quando a diretoria do Sitracom, ainda no início dos anos 2000, começou a discutir a criação de uma sede campestre, a ideia não era unanimidade. A cultura sindical brasileira à época raramente priorizava espaços de lazer, e muitos dirigentes focavam exclusivamente em pautas trabalhistas. Mas o sindicato de Bento Gonçalves decidiu inovar, entendendo que os trabalhadores da construção civil e do mobiliário, categoria marcada por jornadas extensas, esforço físico e desgaste, precisavam de um local seguro, acessível e digno para descansar com suas famílias.
O diretor de Educação, Ivo Vailatti, relembra esse período como um momento de amadurecimento coletivo. Segundo ele, a diretoria analisou áreas no litoral e no interior, buscando o melhor ponto para instalar a futura sede. “Depois de uma análise profunda, a diretoria entendeu que o espaço precisava ser próximo de Bento para facilitar o acesso dos trabalhadores”, afirma. A decisão que prevaleceu foi a de adquirir uma área que permitisse uso frequente, sem depender de deslocamentos longos ou de custos adicionais.
A compra do terreno marcou o início de uma nova fase no sindicato. A diretoria se uniu aos trabalhadores para começar o processo de construção, que ocorreu por etapas, sempre acompanhando as condições financeiras da entidade. A falta de experiência com obras de grande porte, somada à limitação de recursos, não impediu o avanço do projeto. Pelo contrário: fortaleceu a participação voluntária dos sócios e diretores, que estavam dispostos a colocar literalmente a mão na massa. “Não tinha sábado. Quem folgava na semana descia para ajudar”, lembra Vailatti. As primeiras estruturas levantadas foram o quiosque principal, duas piscinas e uma piscina infantil. Pouco tempo depois, com as economias feitas e o apoio contínuo dos associados, vieram o pavilhão, o segundo quiosque, áreas de convivência e outras melhorias.

O projeto seguiu crescendo de forma gradual, sempre com transparência sobre as finanças e planejamento cuidadoso. Cada nova etapa simbolizava mais do que uma construção: representava uma conquista coletiva de um sindicato que decidiu investir no bem-estar de sua categoria quando o tema ainda era pouco discutido nas entidades laborais.
Primeiras atividades e a consolidação como espaço da categoria
Com a inauguração em 2004, a sede campestre rapidamente se transformou em ponto de encontro das famílias de trabalhadores. Muitos associados não tinham condições financeiras de viajar até o litoral ou frequentar espaços privados, o que ampliou ainda mais a relevância do centro de lazer. Aos poucos, o sindicato começou a promover eventos de abertura da temporada, confraternizações e atividades especiais, fortalecendo o vínculo entre trabalhadores, familiares e comunidade.
As piscinas se tornaram o principal atrativo da sede. A área verde passou a ser muito utilizada por famílias que buscavam descanso e contato com a natureza. As churrasqueiras compartilhadas se tornaram cenário de encontros entre amigos, colegas de trabalho e antigos sócios que retornavam para visitar o local.
Aos poucos, as melhorias se tornaram constantes. Um pavilhão novo foi construído, mais um quiosque foi adicionado, uma piscina maior foi incorporada ao complexo, banheiros foram ampliados, telhados foram reforçados, áreas de camping foram estruturadas e as cabanas passaram a ser utilizadas durante as temporadas de verão.
Mesmo nos períodos de maior dificuldade econômica, o sindicato manteve a sede em funcionamento, e sempre com o compromisso de garantir que o espaço oferecesse condições dignas de uso.
Uma enchente histórica que marcou a trajetória do local
Entre todas as adversidades enfrentadas ao longo de duas décadas, nenhum episódio foi tão devastador quanto a enchente de setembro de 2024. A cheia do rio atingiu níveis inéditos e invadiu áreas que jamais haviam sido alcançadas antes. Diferentemente de inundações anteriores, que atingiram apenas a parte mais baixa do terreno, desta vez a água cobriu piscinas, banheiros, áreas verdes, destruiu gramados, arrancou estruturas e deixou um rastro de lama e detritos.

A presidente do Sitracom, Adriana Machado de Assis, descreve a cena como impactante. “A água chegou quase no porão dos prédios. Quando entramos, tinha peixe, terra, móveis, roupas, restos de casas. Tudo o que desceu com a enchente acabou parando ali”, relata.
Durante semanas, o acesso à sede simplesmente não existia. Estradas estavam obstruídas, e veículos não conseguiam chegar até o local. Quando finalmente puderam entrar, dirigentes, funcionários e associados encontraram um cenário desolador, com piscinas tomadas por barro e todos os espaços cobertos por uma camada espessa de sedimentos.
A reconstrução exigiu um esforço gigantesco. Foram dias inteiros de trabalho manual, com pás, enxadas, carrinhos de mão e muita força física. Famílias inteiras de diretores, funcionários e voluntários se mobilizaram, e a limpeza só foi concluída depois de quase um mês.
Mesmo diante da catástrofe, a sede não fechou definitivamente. O sindicato organizou o que era possível para a temporada seguinte, abrindo o espaço mesmo com marcas ainda visíveis da enchente, uma forma de mostrar aos associados a dimensão da tragédia e o esforço envolvido na recuperação.
Adriana faz questão de reforçar que todo o processo de reconstrução só foi possível por causa dos próprios trabalhadores. “Conseguimos dar a volta por cima usando exclusivamente o dinheiro arrecadado graças à contribuição dos nossos sócios”, afirma a presidente. Nenhum apoio financeiro foi recebido do município, do Estado ou do governo federal.
Além dos danos materiais, a enchente também atingiu profundamente a comunidade ao redor. O sindicato chegou a abrir o espaço para abrigar temporariamente algumas famílias que perderam suas casas, reforçando sua função social em um momento crítico para o município e para a região.
Uma área pensada para o descanso, a convivência e a saúde mental
A sede campestre do Sitracom não é apenas um local para passar o verão: é um espaço de convivência que acolhe trabalhadores que atuam em um dos setores mais pesados da economia. Para muitos, é o único lugar onde conseguem descansar, encontrar amigos, passar momentos com a família e cuidar da saúde emocional.
Durante a temporada, a rotina exige uma grande equipe responsável pela manutenção das piscinas, limpeza dos quartos, organização das áreas de camping e atendimento geral. A lancheria funciona com parceiros fixos, que permanecem no local durante todo o período.
Um dos diferenciais são os domingos solidários, quando o sindicato disponibiliza ônibus e vans para buscar associados nos bairros, permitindo que trabalhadores sem carro também possam usufruir do local.
O associado paga apenas o valor do almoço, sempre preparado pelos funcionários. “É um ambiente pensado para acolher. Muitas pessoas trabalham a semana inteira, fazem horas extras, estão cansadas. Elas precisam de um lugar seguro, tranquilo e acessível”, afirma Adriana.

Modalidades de associação e formas de acesso ao espaço
O Sitracom oferece diferentes formas de associação, cada uma pensada para atender perfis distintos de trabalhadores:
- Sócio vinculado à empresa: é aquele que trabalha diretamente em uma empresa do setor representado pelo sindicato, como mármore, construção civil, granito, montadores e áreas relacionadas.
- Sócio autônomo: voltado para profissionais como pedreiros, eletricistas, montadores e outros trabalhadores que, embora não sejam empregados diretos de empresas do setor, exercem atividades que integram a categoria.
- Sócio especial: categoria destinada a familiares e pessoas indicadas por sócios, irmãos, esposas, filhos maiores e outros parentes próximos. Contribuem com mensalidade e têm acesso a todos os benefícios.
- Sócio aposentado: trabalhadores da categoria que se aposentaram, mas decidem permanecer associados, preservando todos os direitos.
- Sócio Ouro: criado há cerca de dois anos, o Sócio Ouro permite que qualquer pessoa se associe apenas para a temporada de verão, pagando um valor fixo que garante uso da sede entre novembro e março. Diárias de quartos, cabanas e entrada de convidados são cobradas separadamente.
Para hospedagem, a orientação é sempre fazer reserva antecipada por telefone, WhatsApp ou diretamente na secretaria. A equipe organiza a ocupação, separa quartos e orienta os responsáveis na sede.
As cabanas seguem o mesmo processo, com diárias específicas. Já as cozinhas e churrasqueiras são de uso compartilhado e livre.
Parcerias ampliam o acesso à estrutura
Além dos sócios da categoria, a sede também recebe trabalhadores de entidades parceiras. Atualmente, o Sitracom mantém convênio com dois sindicatos:
- Sindserp – Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Bento Gonçalves;
- SEC-BG – Sindicato dos Comerciários de Bento Gonçalves.
Os convênios permitem que sócios dessas entidades utilizem a sede campestre durante a temporada, ampliando o acesso e fortalecendo o vínculo intersindical. A procura, segundo a direção, tem sido muito positiva.
Regras, funcionamento e manutenção da segurança
A sede campestre permanece aberta durante todo o ano, inclusive no inverno. As regras de uso incluem horários específicos para piscinas e áreas comuns, limite de convidados, orientações para famílias com crianças pequenas e normas de convivência entre sócios e funcionários.
A presidente reforça que não é exigido exame médico para o uso das piscinas, já que elas recebem tratamento diário e possuem laudo atualizado da Vigilância Sanitária de Santa Tereza. Esse cuidado garante segurança e qualidade da água, mesmo após eventos climáticos extremos.
Dificuldades financeiras e incertezas jurídicas
Um dos maiores desafios enfrentados pelo Sitracom, e por sindicatos de todo o país, é a insegurança jurídica relacionada ao modelo de contribuição sindical. Até que a questão seja definitivamente decidida, o planejamento financeiro segue limitado. A direção lembra que, após a reforma trabalhista, o sindicato perdeu grande parte da arrecadação automática e precisou se reinventar para manter serviços, funcionários e estruturas, como médicos, dentistas, limpeza e manutenção.
Por isso, qualquer nova obra de grande porte na sede campestre depende de estabilidade financeira. O sindicato trabalha com cautela, evitando comprometer o orçamento enquanto aguarda uma decisão definitiva do Judiciário sobre o tema.
Um convite aos trabalhadores
Apesar dos desafios, o Sitracom se orgulha de ter preservado um patrimônio que muitos sindicatos brasileiros perderam nos últimos anos. O compromisso com a transparência, a responsabilidade financeira e a busca por formas alternativas de arrecadação, como convênios e expansão do número de sócios, permitiu que a sede chegasse aos dias atuais consolidada e ativa.
A presidente Adriana faz um convite direto à categoria: que conheçam, frequentem e valorizem a sede campestre, espaço construído e mantido graças ao esforço coletivo dos trabalhadores. Ela destaca que muitos sócios que visitam o local pela primeira vez se surpreendem com a estrutura. “É um espaço que existe para eles. E só continua existindo porque eles também ajudam a manter”, afirma.
Para o sindicato, a sede campestre é mais do que um centro de lazer: é parte do compromisso com a dignidade, com o descanso e com a qualidade de vida do trabalhador, reafirmando que o lazer é também um direito garantido pela Constituição. O convite permanece aberto: visitar, usufruir e vivenciar esse espaço que simboliza a força, a união e a história da categoria.
O local fica a apenas 31 Km de Bento Gonçalves. Para chegar, basta seguir pelo distrito de Faria Lemos, passando pela Alcântara e Linha Colussi. O Centro de Lazer está numa área que pertence ao município de Santa Tereza, junto ao Rio Taquari, na Capela Sagrado Coração de Jesus.
Para o sindicato, a sede campestre é mais do que um centro de lazer: é parte do compromisso com a dignidade, com o descanso e com a qualidade de vida do trabalhador, reafirmando que o lazer é também um direito garantido pela Constituição. O convite permanece aberto: visitar, usufruir e vivenciar esse espaço que simboliza a força, a união e a história da categoria.
Saiba mais através do site https://sitracombg.com.br/centro-de-lazer/ ou pelos fones: (54) 3452-2538 | (54) 99640-1614.