Terça-feira, 11 de Agosto de 2026

ÚLTIMA HORA

Saldos antigos

Verão bombando. Quentura de fritar ovo na calçada. Um pé de vento que dera as caras de manhã, simplesmente sumiu. As poucas nuvens que dançavam no céu recolheram as saias e se mandaram. O sol, mais caliente do que nunca, fincou pé sobre nossas cabeças.

O tempo urge. O churrasqueiro esvai-se em suor enquanto prepara o fogo – o carvão é arrumado em forma circular, com respiros entre as achas e é molhado com álcool para facilitar a combustão. Já os convivas amaciam o fígado com caipirinha, arrulhando que nem pombas.

Pronto para dar início, o assador busca os holofotes. Faz pose.  Saca um fósforo. Mira. Atira… e puffff… “Opa! Que mer… é essa?”, resmunga ele. Então saca outro. E mais outro. Outro ainda. Nosso 007 bufa. Estrila. De repente, uma pequena suspeita lhe passa pela cabeça. Cheira o litro vazio. Seus olhos se espremem. Suas sobrancelhas se encostam, que nem duas taturanas em confronto.  Então fuzila: “Quem foi o filho da mãe que pôs água no litro de álcool?”. Realmente, havia sido um dos filhos da mãe a fazer a bobagem. Por que razão? Vai saber!

O infrator apresenta-se com duas garrafas de álcool para compensar. Pela metade. O assador  junta o líquido numa só, descarta a vazia e coloca a cheia ao lado do litro que ainda tem um quarto de água. Vai lavar as mãos – não quer pegar fogo também. Retorna. Apanha o litro e despeja o resto do seu conteúdo na churrasqueira. Busca os holofotes. Faz pose. Saca um fósforo. Mira. Atira e… pufff! A plateia se diverte com a distração do cara, que quase enlouquece. O filho da mãe o alerta:  “Pai, você colocou água. De noooovo. O álcool tá aqui, no ladinho”.

O tempo voa. A fome desassossega. Desta vez, o homem joga álcool de verdade no carvão já embebido em água, esperando tê-lo embebedado. Não busca mais os holofotes. Está nervoso. Não faz pose, nem se distancia o recomendado, apenas saca o fósforo, atira e… BUM! As “taturanas” se chamuscam assim como os primeiros fios brancos no alto da cabeça. O clima fica pra lá de quente. Enquanto isso a caipirinha passa de boca em boca, num compartilhamento de saliva e alegria.

Uma hora depois, o churrasco está na mesa. O churrasqueiro saca a faca e retalha a carne com fúria. Agora se sente vingado.

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