Certa vez, assistindo a uma palestra do Mário Sérgio Cortella, pensador e filósofo brasileiro, ouvi uma história curiosa. Ele contou que, quando seus filhos completassem 12 anos, revelaria a eles o “segredo da vida” e que não adiantava pedir antes dessa idade.
No dia em que completaram 12 anos, curiosos e ansiosos, foram logo cobrar a promessa. Então ele disse:
— O segredo da vida é que vaca não dá leite.
Indignados, os filhos responderam:
— Mas como assim?
E ele explicou:
— Vaca não dá leite. Você precisa tirar.
A moral pode parecer simples, até boba, mas é profunda. As crianças de hoje acreditam que o leite vem da caixinha e não fazem ideia do esforço envolvido para que ele chegue à mesa. Muitas sequer sabem que nem toda vaca pode dar leite.
Mesmo tentando criar filhos “raiz” em um mundo cada vez mais “Nutella”, é difícil acompanhar as mudanças da nossa geração para a deles. Às vezes penso no quanto eles foram privados de experiências que, para nós, eram cheias de emoção: receber a primeira ligação em casa, falar rápido no orelhão antes que o cartão acabasse, escrever mensagens cheias de desenhos no celular analógico, viajar com mapas e placas na estrada. Eles não viveram a ansiedade de juntar oito selos do leite Parmalat para trocar por um bicho de pelúcia, nem a espera pelo Natal para ganhar aquele presente tão sonhado. Não sabem o que é escrever em um caderno de recordações, ir à casa do amigo à tarde sem avisar ninguém — confiando apenas no combinado e no relógio. Tampouco viveram os almoços na casa da bisavó, com a mesa cheia, comida simples, caseira e várias sobremesas feitas ali mesmo, com afeto.
Hoje, eles veem o salame fatiado dentro de uma embalagem e não imaginam todo o processo por trás disso: o abate do animal, a família reunida, a divisão das tarefas — quem faz a banha, quem separa as tripas, quem moe a carne, quem prepara o salame, quem o pendura no porão para curar. Ou então a fortaia feita com o salame fresco, ainda no calor daquele momento coletivo. Talvez o nosso papel como pais, educadores e adultos não seja tentar trazer nossos filhos para o nosso tempo — isso é impossível —, mas garantir que eles não cresçam acreditando que tudo é imediato, descartável e sem esforço. Que entendam que a vida exige espera, trabalho, frustração e também partilha. Que aprendam que nada de valor nasce pronto: nem o leite, nem o salame, nem o caráter, nem a felicidade. Tudo isso se constrói aos poucos, com mãos sujas, tempo, presença e gente de verdade ao redor.
Meu sonho era que meu filho crescesse na minha infância. Mas isso não será possível, por mais que eu queira. O que podemos fazer é cultivar a simplicidade: contar histórias de antigamente, ensinar o valor do dinheiro, o respeito aos mais velhos, os limites e as regras dentro de casa. Mostrar um pouco menos de YouTube e jogos online e um pouco mais de natureza. Mais vivência de verdade. Família unida. Sujeira de criança. Vida no mato. Que eles sejam mais inteligentes do que nós, mas não apenas isso.
Que possam ser mais felizes também.