A segurança contra incêndios em edificações de Bento Gonçalves demanda atenção constante de proprietários, síndicos e gestores, uma vez que a prevenção se consolida como o único mecanismo eficaz para evitar tragédias
Segundo o capitão do Corpo de Bombeiros Militar de Bento Gonçalves (3ª CiaBM) Gustavo Kist, as causas mais frequentes de sinistros em prédios e residências estão ligadas a falhas que, em muitos casos, poderiam ser evitadas com vigilância rotineira. Ele aponta que a sobrecarga elétrica, ocasionada pelo uso excessivo de extensões e benjamins (popularmente conhecidos como T’s) em instalações antigas, figura no topo da lista de incidentes. Além disso, vazamentos de gás e o uso incorreto de gás liquefeito de petróleo (GLP), somados ao manuseio inadequado de equipamentos aquecedores, como ferros de passar e aquecedores de ambiente, elevam consideravelmente o risco. Kist também alerta para o descarte incorreto de cigarros e a proximidade de velas e incensos a materiais combustíveis, além de curtos-circuitos em eletrodomésticos.

No âmbito dos condomínios e edifícios comerciais, a legislação estadual estabelece medidas preventivas obrigatórias condicionadas ao Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndio (PPCI) aprovado. O conjunto de normas inclui geralmente a instalação de sistemas de extintores, hidrantes e iluminação de emergência, além de sinalização adequada e saídas de emergência permanentemente desobstruídas. O capitão ressalta que a obrigatoriedade vai além dos equipamentos físicos, abrangendo o treinamento de brigadas de incêndio e a manutenção periódica de todos os sistemas. “A documentação deve estar sempre atualizada conforme a legislação estadual e as normas técnicas vigentes”, afirma.
A manutenção dos sistemas de combate a incêndio possui ritos específicos que não devem ser negligenciados. Os extintores, por exemplo, exigem inspeção mensal e recarga anual. Já os hidrantes precisam passar por testes de vazão e estanqueidade, com checagem rigorosa de mangueiras e conexões. No caso da iluminação de emergência e dos alarmes de detecção, a recomendação de Kist é a realização de testes funcionais periódicos acompanhados de relatórios técnicos. As portas corta-fogo também demandam verificação mensal para assegurar o fechamento automático, e todas essas intervenções devem ser registradas em laudos técnicos específicos.

Legislação estadual e prazos de conformidade
A estrutura normativa que rege essas obrigações no Rio Grande do Sul fundamenta-se na Lei Complementar nº 14.376/2013, conhecida como Lei Kiss, e suas atualizações subsequentes, como o Decreto Estadual nº 51.803 e as Resoluções Técnicas do Corpo de Bombeiros Militar do RS (CBMRS). Conforme informações oficiais do Governo do Estado e do CBMRS, a legislação passou por ajustes recentes para equilibrar a segurança com a viabilidade econômica, estabelecendo prazos limite que, em março de 2025, foram ratificados pela Assembleia Legislativa para não excederem o ano de 2030 para a adequação total das edificações existentes. Atualmente, o licenciamento pode ocorrer de três formas: o Certificado de Licenciamento do Corpo de Bombeiros (CLCB), para locais de baixo risco e até 200 m²; o Plano Simplificado (PSPCI), para prédios de até 750 m²; e o PPCI completo, exigido para áreas maiores ou de alto risco. O sistema SOL-CBMRS centraliza hoje o protocolo digital desses planos, exigindo a responsabilidade técnica de engenheiros ou arquitetos para garantir que as rotas de fuga e os sistemas hidráulicos atendam às demandas de carga de incêndio de cada imóvel.

A eficácia de um plano de segurança também depende do fator humano, o que torna os treinamentos e as simulações de evacuação indispensáveis. De acordo com o capitão, essas práticas reduzem o pânico em situações reais e garantem que moradores e funcionários conheçam as rotas de fuga. Além disso, as simulações permitem identificar falhas estruturais no plano de emergência e aumentam a eficiência da resposta inicial até que o Corpo de Bombeiros chegue ao local. “O treinamento prepara a pessoa para agir de forma técnica e rápida, o que é decisivo em um cenário de crise”, observa.
Entretanto, erros em projetos de prevenção ainda são comuns e representam um perigo latente. Kist cita o dimensionamento incorreto de rotas de fuga, sinalização insuficiente ou fora do padrão e a ausência de pressurização ou compartimentação em áreas necessárias como falhas graves. A instalação de equipamentos que não seguem as normas técnicas e a falta de manutenção após a entrega da obra também comprometem a segurança. Durante as vistorias, o Corpo de Bombeiros analisa minuciosamente as condições dos sistemas, a validade dos laudos e a conformidade com o PPCI. Os pontos mais críticos detectados pelos militares costumam ser extintores vencidos, hidrantes sem pressão, portas travadas e rotas obstruídas.

Para moradores, Kist orienta que, em caso de incêndio, o primeiro passo é acionar imediatamente o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193. É fundamental avisar os demais ocupantes do imóvel e seguir o plano de evacuação, com a recomendação expressa de nunca utilizar os elevadores. Em ambientes com fumaça, deve-se manter uma postura baixa e, ao sair, fechar as portas sem trancá-las, aguardando o socorro em local seguro. O capitão explica que existe uma diferença técnica entre a prevenção em prédios altos e residências térreas. Enquanto os edifícios exigem sistemas complexos, como alarme endereçável e pressurização de escadas, as casas priorizam instalações elétricas seguras e o uso de detectores de fumaça e extintores domésticos.
O PPCI não é um documento estático e deve ser atualizado sempre que houver mudança de layout, ampliação da área ou alteração do risco da atividade exercida no local. Kist destaca que a atualização também é necessária na troca do responsável técnico ou após inspeções que apontem não conformidades. A correta elaboração do plano evita erros como cálculos inadequados de ocupação e o uso de materiais fora de especificação. Para o entrevistado, o PPCI é o que garante a segurança jurídica e operacional do empreendimento, organizando a resposta emergencial e reduzindo perdas humanas e materiais. “A prevenção é sempre o melhor caminho. Estruturas podem ser reconstruídas, vidas não”, afirma Kist. Ele conclui reforçando a necessidade de uma cultura de segurança: “Cada medida preventiva tomada hoje pode ser a diferença entre um susto e uma tragédia no futuro”, frisa.

Classes de incêndio e agentes extintores
Os extintores de Água (H2O) são indicados exclusivamente para incêndios de Classe A, que envolvem materiais sólidos, como papel, madeira, tecidos e borracha. O seu efeito principal é o resfriamento da temperatura. É estritamente proibido utilizá-lo em equipamentos elétricos (devido ao risco de condução de energia) ou em líquidos inflamáveis.
Para combater chamas em líquidos, gases inflamáveis e óleos ( Classe B), bem como em equipamentos elétricos energizados ( Classe C), utiliza-se o extintor de Pó Químico Seco (PQS). Ele age por meio de uma reação química que abafa o fogo, interrompendo o processo de combustão. Embora seja polivalente, o resíduo deixado pelo pó pode danificar componentes eletrônicos sensíveis.
O extintor de Dióxido de Carbono (CO2) é a opção ideal para a Classe C (elétricos) e também atende à Classe B. Por ser um gás inerte e limpo, ele não conduz eletricidade e não deixa resíduos, sendo o mais indicado para salas de servidores, quadros de energia e computadores. Sua atuação ocorre por abafamento e resfriamento brusco, das chamas.
Antes de operar o equipamento, deve-se verificar se o manômetro indica que há pressão (ponteiro na faixa verde) e se o lacre está intacto. Para o acionamento, basta romper o lacre, retirar o pino de segurança, posicionar-se a uma distância segura a favor do vento e dirigir o jato para a base das chamas, realizando movimentos de leque.