Produtores relatam aumento de produção, boa qualidade da fruta e melhoria no processo de entrega durante a colheita deste ano
Apesar de um início de ciclo com desafios climáticos, especialmente no final do ano passado, o período de colheita tem apresentado resultados positivos, tanto em volume quanto em qualidade, reforçando a expectativa de uma das melhores safras dos últimos anos para muitos agricultores.

Entre os produtores que participaram da colheita está Luciano Sinigaglia, morador de Veranópolis, que relata um cenário bastante favorável. Segundo ele, a produção deste ano devem ultrapassar a anterior em aproximadamente 15%. “Está ótima a safra esse ano. As expectativas estão superando o que prevíamos, e a colheita também está sendo bem tranquila, com um bom montante de horas de sol”, afirma. Sinigaglia trabalha com diversas variedades de uva e observa que o mercado tem demandado especialmente aquelas destinadas à produção de sucos e espumantes, enquanto o vinho apresenta um ritmo de colheita mais lento em sua propriedade.
A condição climática tem sido um dos fatores decisivos para o bom desempenho da safra. O período mais seco nas últimas semanas contribuiu para uma maturação adequada das uvas, elevando o teor de açúcar e garantindo melhor qualidade da matéria-prima. “Quando o tempo está bonito a uva apresenta boa qualidade, e nesta safra o tempo está colaborando conosco. O problema é quando chove nessa época”, explica Sinigaglia.
Aumento da produção

Avaliação semelhante é feita por Victor Miro Bernard, produtor que também percebe um crescimento expressivo em sua produção. De acordo com ele, o aumento em seus parreirais chega a cerca de 20% em relação ao ano passado. “A safra está com um volume muito maior do que esperávamos e o clima está favorecendo bastante. A graduação está boa e o peso também, devido ao alto teor de açúcar na uva (Brix)”, destaca. Entre as variedades que mais se sobressaíram em sua propriedade estão a BRS Violeta, o Pinot Noir e o Chardonnay, esta última com expectativa de crescimento entre 30% e 40%.
Diversidade de variedades

Outro produtor que comemora os resultados da safra é Paulo César Framia, que trabalha com diferentes variedades, tendo a Isabel como principal. Para ele, mesmo com oscilações climáticas ao longo do ciclo, o saldo é positivo. “Está sendo uma safra boa esse ano. Claro que teve altos e baixos, mas acredito que vamos ter uns 15% a mais do que no ano passado”, relata.
Já Valdemir Poloni estima um crescimento ainda mais significativo. Na safra anterior, ele colheu cerca de 100 mil quilos de uva e, para este ano, projeta uma produção em torno de 130 mil quilos, um aumento de aproximadamente 30%. “A qualidade agora está melhorando em função do tempo mais firme. No final do ano passado teve muita chuva e início de podridão nos parreirais, mas agora está regularizando, principalmente devido ao aumento das horas sol e o grau de Brix está aumentando”, explica. Poloni cultiva uma ampla variedade de uvas, incluindo Bordeaux, Niágara, Viognier e Lorena, com destaque especial para o Bordeaux nesta safra.
Agendamento de entrega

Um ponto amplamente elogiado pelos produtores é o sistema de agendamento para a entrega das uvas, desenvolvido pela Cooperativa Vinícola Aurora, que tem contribuído para maior organização e menos perdas de qualidade. “Por horário marcado é bem melhor. As uvas não ficam pegando sol, não é preciso ficar esperando na fila e a entrega é bem mais tranquila”, comenta Sinigaglia.
Para Framian, a mudança foi decisiva. “O agendamento foi o que mais acertaram. Não dá mais fila e a uva não fica muito tempo exposta ao sol e assim entram com mais qualidade”, afirma. Bernardi reforça a avaliação positiva ao relatar a agilidade no processo. “Eu estava agendado para as 10 horas, cheguei e já descarreguei. É tudo muito ágil e organizado”, diz.
Expectativa sobre os preços
Apesar do cenário favorável de produção, os produtores demonstram cautela quanto aos preços, que ainda não estão definidos. Como cooperados da vinícola, o valor final é estabelecido após a entrega da safra. Ainda assim, o sentimento geral é de confiança. “A cooperativa sempre paga um preço justo pelo quilo da uva, valorizando a qualidade e os produtores”, ressalta Bernardi.
Valdemir Poloni destaca a importância do equilíbrio entre produtor e mercado. “A gente quer ganhar com a uva, mas também precisa considerar a dificuldade das vendas. Tem que ter equilíbrio”, avalia.
Três décadas dedicadas à safra

Há 37 anos, quando inicia mais uma safra de uva, Moacir dos Santos repete um ritual que se tornou parte de sua própria história. Encarregado do recebimento e da separação das uvas na Cooperativa Vinícola Aurora, ele acompanha de perto a chegada da produção dos associados e testemunha, ano após ano, as transformações do trabalho, da tecnologia e das pessoas que passam pelo local. “São muitas safras”, resume, com a simplicidade de quem construiu uma trajetória marcada pela constância.
A rotina começa cedo. “Eu entro às 6h30 da manhã, já deixo tudo organizado. Às 7h a gente começa a descarregar”, relata. Neste ano, dos Santos avalia de forma positiva as mudanças no processo de entrega, especialmente o sistema de agendamento por horário, que reduziu filas e tumultos. “Agora ficou bem melhor. Todo mundo vem no horário, o produtor se organiza e o trabalho flui”, afirma. Segundo ele, a dinâmica também favorece o processamento, já que as quantidades são planejadas de acordo com a capacidade das prensas.
Ao longo de quase quatro décadas, ele acompanhou a evolução das máquinas e dos métodos de trabalho. Uma das lembranças mais marcantes, segundo ele, foi a chegada da primeira prensa pneumática italiana. “Como eu entendia um pouquinho de italiano, mesmo não sendo o dialeto certo, me colocaram para trabalhar naquela prensa. Hoje temos cinco. Isso me marcou muito”, recorda com emoção.
Vindo da colônia e com pouco estudo formal, dos Santos construiu sua carreira dentro da cooperativa. Começou como separador de carga, tornou-se conferente e, mais tarde, líder da expedição, função que exerce fora do período da safra. Para ele, a principal lição desses 37 anos está ligada ao valor do trabalho. “Eu estou aqui porque gosto do que faço. Com prática e vontade, sempre conseguimos chegar onde deseja chegar”, afirma.
O vínculo com a Aurora ultrapassa o ambiente profissional. “Tudo o que eu tenho hoje, eu construí aqui dentro. Minha família, minha vida, eu ganhei aqui”, finaliza emocionado.
Agendamento do recebimento organiza safra

Responsável pelo agendamento do recebimento de uvas durante a safra da Cooperativa Vinícola Aurora, o engenheiro-agrônomo Juciel Cardoso explica que a implantação do sistema de horários foi motivada pela necessidade de organizar o intenso fluxo de cargas em um dos períodos mais importantes do ano para produtores e para a cooperativa. Segundo ele, o objetivo principal foi evitar filas excessivas, reduzir o tempo de espera e garantir que a uva seja descarregada no momento adequado, chegando mais fresca ao processamento. “O agendamento permite uma melhor separação das variedades e possibilita que cada casta seja processada de acordo com suas características, o que é fundamental para o processo enológico e para a qualidade do produto final”, destaca.
Na prática, o sistema funciona por meio de uma central de agendamento da própria cooperativa. Os produtores entram em contato com essa central e, a partir da programação definida internamente, são direcionados para o horário e a unidade de recebimento mais adequados. Durante a safra, a Aurora recebe uvas em três unidades — a matriz, a Unidade 2 e a unidade do Vale dos Vinhedos — o que possibilita equilibrar volumes e respeitar a capacidade de cada local. “No pico da safra, chegamos a receber uma média de 400 cargas por dia”, ressalta Cardoso.

Os resultados, conforme o engenheiro-agrônomo, são visíveis. A redução das filas, a maior organização do fluxo e a agilidade no descarregamento melhoraram significativamente a rotina tanto da cooperativa quanto dos produtores. Com o horário previamente definido, o agricultor consegue se planejar melhor, permanecendo mais tempo na propriedade para a colheita e deslocando-se até a vinícola apenas no momento da entrega.
Para viabilizar o modelo, não houve necessidade de grandes investimentos em infraestrutura física, mas sim em planejamento e tecnologia. Foi desenvolvido um sistema de agendamento que integra as áreas Agrícola, Tecnologia da Informação e Enologia, alinhando capacidade de recebimento, características das variedades e o momento ideal de processamento. Além disso, a central de agendamento foi ampliada, com aumento no número de atendentes, garantindo mais eficiência no atendimento aos produtores e maior organização durante a safra.