O uso precoce e frequente de cosméticos em crianças tem despertado a atenção de especialistas da saúde. Estudos recentes apontam que alguns produtos de higiene e beleza podem conter substâncias químicas com potencial de interferir no sistema endócrino, capazes de alterar a produção hormonal e até antecipar a puberdade. Cremes, perfumes, maquiagens e até xampus infantis podem apresentar compostos como parabenos e ftalatos que, em contato constante com o organismo em fase de desenvolvimento, oferecem riscos ainda pouco conhecidos pelo grande público. O alerta reforça a importância de pais e responsáveis ficarem atentos às fórmulas e ao uso consciente desses itens no dia a dia das crianças.
De acordo com a médica dermatologista Caroline Dalla Costa, até o momento não há substâncias comprovadamente tóxicas ao sistema hormonal humano em cosméticos. “É preciso fazer algumas ressalvas para evitar o ‘terrorismo’. O que se discute é que certas substâncias teriam o ‘potencial’ de interferir no sistema endócrino, mas, até agora, o que temos são hipóteses e não a comprovação de risco”, alerta.

Caroline Dalla Costa, médica dermatologista

Quando a criança pode utilizar?
A médica explica que, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), maquiagens infantis podem ser utilizadas a partir dos três anos, desde que a aplicação seja feita por um adulto. “Recomendo que essa exposição seja muito esporádica e restrita a ocasiões especiais, por exemplo, uma apresentação artística. Quanto mais se postergar esse contato, melhor”, orienta.
No caso dos produtos de skincare, a indicação depende da finalidade e da idade da criança. “Sabonetes líquidos infantis ou syndets podem ser utilizados desde os primeiros dias de vida. O protetor solar é recomendado a partir dos seis meses de idade. Antes disso, deve-se evitar a exposição ao sol e utilizar bonés, roupas e outras barreiras físicas de proteção. Já os hidratantes adequados para a pele infantil também podem ser usados e, inclusive, são fundamentais no tratamento de algumas doenças dermatológicas, como a dermatite atópica”, explica Caroline.
Por outro lado, produtos que contêm ácidos e outros ativos com efeito “anti-idade” não são indicados para o uso infantil. Esses componentes possuem ação potente, podem irritar a pele sensível das crianças e só devem ser aplicados em situações específicas, sempre com prescrição médica, reforça a dermatologista.

Maquiagem infantil
Este tipo de produto está cada vez mais presente no mercado, chama a atenção das crianças pela aparência lúdica e colorida. No entanto, isso não significa que possam ser usadas livremente. “Podem causar irritações e alergias na pele, mas, dentro desse universo, são as opções mais adequadas para o público infantil. Reitero, porém, que não devem ser usadas rotineiramente”, destaca Caroline.
O que observar na hora da compra?
A dermatologista recomenda que os pais se atentem a alguns critérios fundamentais:

  • Registro da Anvisa;
  • Indicação da faixa etária adequada;
    •Lista de ingredientes.
    Caroline lembra ainda que a cartilha da Anvisa estabelece regras específicas para a segurança dos cosméticos infantis. “As embalagens devem contar com sistemas e válvulas que liberem apenas pequenas quantidades do produto e não podem apresentar pontas cortantes ou qualquer risco de acidente. Além disso, precisam ser livres de substâncias tóxicas e não podem ser comercializadas na forma de aerossol”, explica.

Diferenças entre a pele adulta e infantil
A das crianças apresenta características bastante distintas da pele adulta. Mais fina e sensível, possui a barreira cutânea ainda em formação, o que a torna mais vulnerável à perda de água e à penetração de agentes externos. A produção de sebo também é menor, favorecendo o ressecamento. Além disso, o sistema de defesa imunológica da pele infantil não está totalmente desenvolvido, aumentando o risco de irritações, alergias e infecções. “Como a pele da criança é mais suscetível à permeação e absorção de substâncias e ainda não tem a função de barreira completamente desenvolvida, há maior risco de dermatite de contato alérgica e irritativa. Na prática, os sintomas podem incluir prurido (coceira), eritema (vermelhidão), descamação e, em alguns casos, até a formação de bolhas”, observa a especialista.

Curiosidade x equilíbrio
A curiosidade faz parte do desenvolvimento infantil e, naturalmente, muitas crianças demonstram interesse em experimentar cosméticos e maquiagens ao observar os adultos. Para reduzir esse apelo, especialistas sugerem que os pais diminuam a exposição dos filhos às redes sociais, onde o contato com esse universo é cada vez mais intenso. “Essas plataformas são um ponto de contato importante da criança com o mundo do skincare e do consumo”, ressalta a médica.
Ela reforça também a importância de estimular uma postura adequada desde cedo, lembrando que não é recomendado que a criança utilize os cosméticos e maquiagens da mãe. “Valorizar a autoestima infantil é essencial para o pleno desenvolvimento, mas também é papel dos pais impor limites e definir quais práticas e rotinas são apropriadas para cada faixa etária”, acrescenta.

Orientação
Caroline orienta sobre a importância de aproximar os profissionais de saúde, como pediatras e dermatologistas, em rodas de conversa capazes de esclarecer dúvidas e oferecer orientações. “É fundamental disponibilizar informações em materiais acessíveis ao público infantil e estimular o diálogo constante entre pais e professores, garantindo uma supervisão efetiva sobre o que as crianças estão consumindo, seja na internet ou no dia a dia”, salienta.
Ela acrescenta que, enquanto não houver estudos mais conclusivos, é essencial que os pais sigam as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

Potenciais disruptores endócrinos
A especialista cita os principais potenciais disruptores endócrinos ( substâncias químicas que interferem no sistema hormonal do corpo, podendo imitar, bloquear ou alterar a ação de hormônios naturais e causar efeitos adversos à saúde) listados pela Comissão Europeia, conforme relatório do BEUC – Potential Hormone Disruptors in Consumers’ Cosmetics. “Temos hipóteses de que essas substâncias poderiam interferir no sistema endócrino, mas não temos evidências confirmando de fato”, salienta.
Entre eles estão filtros solares e conservantes amplamente utilizados em produtos de higiene e beleza, como:

  • Benzophenone-1 (BP-1), Benzophenone-2 (BP-2) e Benzophenone-3 (BP-3);
  • Ácido kójico (Kojic acid – KA);
  • 4-methylbenzylidene camphor (4-MBC);
  • Parabenos: propilparabeno, butilparabeno e metilparabeno;
  • Ethylhexyl Methoxycinnamate (OMC);
  • Triclosan;
  • Resorcinol;
  • Siloxanos: cyclopentasiloxane (D5) e cyclomethicone;
  • Ácido salicílico;
  • Homosalato;
  • Benzyl salicylate;
  • Butylphenyl methylpropional (BMHCA);
  • Tert-Butylhydroxyanisole (BHA).

Sinais de alerta
Por fim, a dermatologista recomenda que os pais observem atentamente como a pele da criança reage ao uso de cosméticos. “Vermelhidão, descamação, coceira, alterações na coloração da pele, surgimento ou piora de lesões de acne, aparecimento de pelos axilares ou pubianos e odor corporal são sinais de atenção. Considera-se precoce a puberdade que surge antes dos 8 anos em meninas e dos 9 anos em meninos”, finaliza.