Há certos cheiros que não pertencem apenas ao presente. Eles atravessam o tempo.
Outro dia senti o cheiro de sagu fervendo no fogão à lenha. O vinho escuro, as bolinhas transparentes boiando devagar, a panela soltando aquele vapor doce que se espalha pela casa inteira. E foi como se a infância voltasse pela porta da cozinha.
Talvez porque algumas casas guardem o tempo dentro delas.
Pensei nisso ao olhar uma cena simples. A tia do meu marido, que um dia o segurou no colo, hoje leva meu filho para passear na colônia, mostrar os animais, apontar as árvores, contar histórias. Entre eles há oitenta anos de diferença. Oitenta anos. Quase uma vida inteira separando dois começos.
E, no entanto, caminham lado a lado.
Essas coisas nos lembram que existe uma fase preciosa da vida em que ainda temos os mais velhos por perto. Uma janela curta, delicada, que um dia se fecha sem aviso.
Talvez por isso certos momentos pareçam tão grandes.
Um filho também tem esse estranho poder: devolver a infância aos adultos.
De repente voltamos a correr, jogar bola, andar de bicicleta. Voltamos a rir de bobagens. Voltamos a olhar o mundo com curiosidade.
Quando foi a última vez que fizemos algo apenas porque era divertido?
Esses dias jantei com um senhor, velho amigo de meu pai. Cabelos grisalhos, mais de setenta anos, idade em que muitos já falam em descansar, observar o tempo passar da varanda. Mas ele me contou, com um sorriso tranquilo, que é pai de duas crianças: seis e oito anos.
Depois de 35 anos de casamento com outra mulher, decidiu recomeçar.
Pensei que a vida às vezes gosta dessas ironias bonitas. Quando alguém imagina que já viveu tudo, aparecem duas crianças correndo pela sala, pedindo história antes de dormir.
Ele me contou que agora dorme ouvindo música infantil. Que o dinheiro vai para escola e material. Que trabalha mais do que antes. Mas falou isso sorrindo.
Porque há cansaços que vêm acompanhados de alegria.
Talvez seja isso que os filhos, os pais e os avós nos oferecem: a grandeza escondida dos dias comuns.
Uma mesa cheia no domingo. Um churrasco demorado. Um espumante aberto sem motivo. Um prato de sagu quente servido na cozinha.
São momentos pequenos, quase invisíveis enquanto acontecem. Só mais tarde percebemos que eram enormes.
Com o passar dos anos, porém, a casa dos avós vai ficando silenciosa. O fogão à lenha já não acende com tanta frequência. As flores do quintal murcham. As cadeiras ao redor da mesa diminuem.
É o tempo fazendo o seu trabalho silencioso.
Talvez por isso devêssemos aproveitar melhor enquanto tudo ainda está aqui. Sentar à mesa e ouvir as histórias dos mais velhos. Caminhar com a família. Conversar mais. Rir mais.
Porque dentro de casa estão nossas maiores riquezas. E às vezes basta o cheiro de um sagu no fogão à lenha para nos lembrar disso.