Viticultores residentes na região relatam a presença de doenças nas parreiras e perdas na produção por causa das chuvas. Além disso, o local, que é considerado um dos braços do Vale dos Vinhedos, transformou-se em destino turístico importante, com a presença de restaurantes e estabelecimentos voltados para atender a esse público

O 15 da Graciema é definido como um local calmo e tranquilo pelos moradores. Muitos são residentes do local desde que nasceram, enquanto outros, escolheram a região pela serenidade. Com os anos e o crescimento do Vale dos Vinhedos como destino turístico, o 15 passou também a receber visitantes que se encantam com as paisagens da região. A localidade juntamente é lar de muitos produtores rurais, que cultivam parreirais. No entanto, vários deles se dizem preocupados em relação à safra 2023/2024, prejudicada pelas fortes chuvas do ano passado.

João Valduga é técnico agrícola e produtor de uvas, tem 68 anos e, desde criança, observava os pais e os avós exercendo a atividade rural. Nasceu e cresceu no 15 da Graciema e, desde então, cuida de parreirais na própria localidade. “Sempre trabalhei no 15, nascemos aqui. O que melhorou para nós, comparando a outras épocas, foi a telefonia, as estradas e o transporte coletivo. Isso trouxe conforto para os moradores”, diz, e complementa que o que não melhorou foi o preço da uva. “Nós, que vivemos na região, não temos outra atividade, já que isso não é possível por conta dos terrenos. Estamos à mercê da viticultura. Por isso, acredito que o preço da uva precisa aumentar”, reivindica.

Ele entende que, por conta da desvalorização, muitas pessoas abandonam a região e a produção. “Há alguns anos, as antigas gerações de jovens começaram a ir embora. Mas agora, com as melhorias que chegaram, eles têm permanecido em maior número. Se melhorasse o preço da uva, faria com que muitas pessoas decidissem ficar, porque há mais facilidades hoje, mas falta a valorização do trabalho do agricultor”, explica.

O 15 da Graciema fica localizado em um dos braços do Vale dos Vinhedos, tornando-se assim, parte do roteiro


Além do preço reduzido pelo quilo da uva produzida, Valduga fala das dificuldades que todos os agricultores estão enfrentando com a safra deste ano. “O clima nos prejudicou muito por conta do excesso de chuva. Difícil encontrar produtores que não sofreram com doenças nas plantas, que dizimaram as parreiras. Houve quem perdeu até 80% da safra por conta de doenças”, lamenta. Segundo ele, “depois das chuvas, vieram as doenças causadas pelo clima adverso. Sem falar que, para evitar os fungos e outras pragas, é necessário que se coloque defensivo agrícola, mas não houve tempo para pulverizar e esperar o efeito, porque a chuva lavava todo o defensivo”, declara.

O produtor diz que este não será um ano fácil, principalmente sob o ponto de vista financeiro, para os viticultores. “Eles estarão mais calados, tristes, vão gastar o menos possível e tentar sobreviver e manter a família com outras atividades. Isso é, cuidar dos afazeres de casa, dar uma aumentada na horta, colocar uma galinha a mais no galinheiro, para que possam gastar menos em casa”, analisa.

Neusa Frizzo, 61 anos, assim como João Valduga, nasceu na localidade. Atualmente, ela trabalha com parreiras e com um estabelecimento comercial que instalou na região de olho no turismo. “Moro aqui desde que nasci, gosto muito da localidade. Se tivesse que trabalhar na cidade, seguiria morando na Graciema. Trabalho em casa, na colônia e num café-jardim que abrimos aqui. Iniciamos nosso empreendimento por causa do turismo que cresceu muito na região, mas só atendemos durante o final de semana e nos feriados”, explica.

Neusa Frizzo, agricultora, decidiu investir em uma cafeteria na localidade após o crescimento do turismo no 15 da Graciema


Apesar do amor pela localidade, Neusa diz que está frustrada com a atividade e que se sente cada dia mais desvalorizada. “Não temos férias, nem décimo terceiro, todo mundo está abandonando os parreirais. Temos pouquíssimos jovens que trabalham com produção de uvas. O pessoal mais velho, da nossa idade, é que mantém os vales. Daqui algumas décadas talvez nem exista mais produção”, projeta, com pessimismo.

Ela entende que a redução no número de produtores jovens tem a ver com as gerações tendo acesso às novas oportunidades de trabalho. “Tenho dois filhos, um menino e uma menina, ele gosta do interior, não se vê morando na cidade. Mas nós sempre incentivamos a estudar e sair da colônia, porque nossa profissão é muito desvalorizada, não temos incentivo. Se a uva valesse mais, facilitaria”, sustenta. “A safra deste ano está muito prejudicada, perdemos muito da produção. Temos uvas que na hora da floração, o momento que ela precisava de sol, só pegou chuva. Outras, em um dia estavam lindas, no outro apareciam mofadas. Nós perdemos mais de 100 mil quilos da nossa produção”, conta, entristecida.

Vera Lucia Maldotti, de 65 anos, também diz que sente na pele a dificuldade de ser agricultora. Nascida e criada no 15 da Graciema, nunca morou em outro lugar e, justamente por isso, se orgulha ao ver a localidade crescendo. “Gosto daqui, é bonito, seguro, calmo e tranquilo. Além disso, o turismo tem crescido bastante, vejo muito movimento. As pessoas param, conversam conosco. Acho maravilhoso ver o local onde nasci sendo valorizado pelas pessoas de fora enquanto nós, muitas vezes, não damos valor. Percebemos isso quando elogiam nossas paisagens, nossas árvores e nós acabamos nem dando muita importância no dia a dia”, observa.
Como agricultora, Vera também acha que a safra 2023/2024 vai deixar a desejar, por causa das perdas. “Essa colheita não está muito legal, o clima não ajudou, e muitas uvas pegaram a mufa e caíram. Nós perdemos pouco, mas existem agricultores que perderam tudo, tem gente que perdeu 30%”, expõe.

Vera Lucia Maldotti (com neta Eduarda) nasceu e vive no 15, mas diz que está decepcionada com a desvalorização da atividade na viticultura

Além da preocupação com a produção, ela reclama das dificuldades em ser viticultor. “Os jovens não querem mais ficar na roça porque se tu é agricultor, não é reconhecido. O preço da uva está cada dia mais baixo, daí o pessoal desanima. Ainda com as mudanças nas leis, que exigem que seja assinado a carteira, foi até difícil achar pessoas para trabalhar na colheita. O pessoal está desistindo, e acredito que quando os mais velhos morrerem, as colônias vão acabar”, prevê.

Diversos moradores fazem elogios à região, principalmente pela tranquilidade do lugar. Ortenila Miolo é aposentada e tem 82 anos. Passou a morar na Graciema quando foi cuidar de um parente. “Quando cheguei não tinha nada, só estrada de chão, e hoje tem muito movimento, mais casas. Se seguir desse jeito, é capaz de virar cidade. Não tenho do que reclamar, é um lugar que gosto muito. E, também, porque começou a ter um movimento de turistas bem forte, vejo muitos passando, e os vizinhos comentam”, lembra.

O que Ortenila vê nos mais de 40 anos vivendo no 15 é que a população é mais antiga. “É difícil ver as gerações jovens na linha. Para falar a verdade, quase não tem. São poucos os que decidem ficar, e os que ficam são trabalhadores, gostam da colônia. Quando não gostam de trabalhar com isso, vão para a cidade em busca de outras oportunidades”, afirma.

Comércios

Com o aumento do turismo no Vale dos Vinhedos, o 15 passou a se desenvolver como parte do roteiro. Os moradores viram a oportunidade de investir no segmento. Gabriel Zottis é administrador de um restaurante que tem com a mãe, na localidade. “Nós sempre trabalhamos com empreendedorismo, tivemos loja e, depois de uns anos, começamos a vender lanches. O espaço era bem menor. Em 2007, a Graciema começou a se desenvolver, e decidimos abrir um restaurante que em 2009 expandiu mais. Quando iniciamos nem pensávamos no Vale dos Vinhedos como é hoje”, explica.


Zottis entende que não é algo particular do 15, e sim de todos os locais do Vale dos Vinhedos. “Toda região está crescendo, o 15, o 8, o 40. Claro que na pandemia (da Covid-19) o movimento turístico deu uma caída. Mas para nós foi bom, porque atendemos os trabalhadores da redondeza”, argumenta.

Marinês e Gabriel Zottis, mãe filho, começaram a investir no local antes do turismo crescer e, atualmente, colhem os frutos do empreendedorismo

O administrador afirma que o ano passado não foi ruim, economicamente, e torce para que continue assim. “O ano que passou foi equilibrado, não maravilhoso, mas foi bom. Se continuar assim seria ótimo, só não pode piorar. Já tivemos anos bem ruins, é bom estar em um ano mais estável, nos passa mais tranquilidade”, finaliza.

William Splendor também tem comércio familiar. “Não podemos ter um mercado muito grande, porque a clientela é pouca, e dependemos muito dos turistas. Chamo de mercado de bairro porque é de toda hora, tem um pouco de tudo, é bem diversificado. Nossos clientes são turistas, moradores e trabalhadores”, diz ele.