Outubro é o mês em que o rosa ganha destaque e simboliza o cuidado com a saúde da mulher. Mais do que uma cor, o Outubro Rosa representa um movimento mundial de conscientização sobre a prevenção e o diagnóstico precoce dos cânceres de mama e do colo do útero, duas doenças que ainda figuram entre as principais causas de morte feminina no Brasil, mas que podem ser evitadas ou tratadas com sucesso quando detectadas a tempo.
De acordo com o Ministério da Saúde, o câncer de mama registra mais de 73 mil novos casos por ano, enquanto o câncer de colo do útero ultrapassa 17 mil diagnósticos anuais.
A ginecologista e mastologista do Hospital Tacchini, Aline Valduga, explica que a campanha, reconhecida mundialmente, teve início nos Estados Unidos, no começo da década de 1990, e desde então se consolidou como um marco global na luta contra o câncer de mama. “Esse mês passou a ser uma referência para que muitas mulheres realizem seus exames. Algumas aproveitam as campanhas, que facilitam o acesso em postos de saúde, ou as ações de operadoras que, em outubro, oferecem a mamografia sem coparticipação”, destaca a médica.

Aline Valduga, ginecologista e mastologista do Hospital Tacchini

Fatores de risco
A ginecologista explica que os dois tipos de câncer são diferentes. “O câncer de colo do útero é causado em cerca de 99% dos casos pelo vírus do HPV. Essa é uma doença que pode ser prevenida com vacinação, porém encontra resistência da população, e a cobertura vacinal no Brasil é muito abaixo do ideal”, diz a médica.
Já o câncer de mama pode ter inúmeros fatores de risco, sendo eles:

  • História genética: famílias com mutações genéticas que predispõem ao câncer de mama, como os genes BRCA 1 e 2.
  • História familiar de primeiro grau de câncer de mama: mãe, irmã ou filha.
  • História familiar de câncer de mama em homem.
    Aline explica que 10 a 15% dos tumores são causados por alterações genéticas. “A imensa maioria dos cânceres de mama possui relação com fatores de risco acumulados ao longo da vida”, pontuando:
    •Consumo de bebida alcoólica;
  • Sobrepeso e obesidade;
  • Sedentarismo;
  • Exposição à radiação ionizante;
  • Idade da primeira menstruação menor que 12 anos;
  • Menopausa tardia após os 55 anos;
  • Primeira gravidez após os 30 anos;
  • Não ter engravidado;
  • Mamas densas;
  • Uso de contraceptivos orais por tempo prolongado (estrogênio-progesterona). Esse risco zera após cinco anos de interrupção do uso;
  • Terapia de reposição hormonal pós-menopausa (estrogênio-progesterona), especialmente por mais de cinco anos.

Quando fazer os exames de rastreamento?
Aline destaca que a mamografia deve ser realizada anualmente a partir dos 40 anos, sendo o principal exame para a detecção precoce do câncer de mama. Em relação ao câncer de colo do útero, ela explica que o protocolo de rastreamento foi recentemente atualizado no Brasil, seguindo mudanças que já estavam em vigor nos Estados Unidos em 2019. Agora, o exame é indicado para mulheres que já iniciaram a vida sexual, a partir dos 25 anos, com a coleta do citopatológico do colo do útero associada à pesquisa de PCR para HPV. “Quando o resultado é negativo, o rastreamento deve ser repetido a cada cinco anos. No entanto, em casos positivos para HPV ou com alterações no exame citopatológico, a conduta é individualizada, conforme a avaliação médica”, explica.
A especialista acrescenta que, embora o Sistema Único de Saúde (SUS) já tenha atualizado suas recomendações, a nova diretriz ainda não foi totalmente incorporada, enquanto na saúde suplementar, por meio de convênios e atendimentos particulares, o rastreamento já segue o protocolo atualizado.

Sinais de alerta
A detecção precoce é crucial na luta contra o câncer. Segundo a médica, a manifestação de sintomas frequentemente indica que a doença já se encontra em um estágio avançado. Nesses casos, os tratamentos tendem a ser mais agressivos e as chances de cura são menores. Por isso, a especialista reforça a importância de manter os exames de rotina em dia.
A médica detalha os sinais de alerta específicos para cada tipo de câncer:

Câncer de mama

  • Alterações no aspecto da pele da mama;
  • Saída de secreção pelo mamilo;
  • Mudança no formato da mama ou do mamilo;
  • Retração da pele ou do mamilo;
  • Palpação de nódulo (caroço) na mama ou na axila.

Câncer de colo do útero

  • Sangramento anormal fora do período menstrual ou após a relação sexual;
  • Dor pélvica constante;
  • Saída de secreção vaginal sanguinolenta e com mau cheiro.

Câncer de colo do útero: a força da prevenção
O combate ao câncer de colo do útero tem a prevenção como carro-chefe. A especialista é taxativa: “A vacinação é, sem dúvida, o melhor avanço na prevenção,” afirma a médica. Além disso, a identificação das lesões precursoras e o tratamento adequado são cruciais, pois impedem a progressão da doença. A detecção precoce tem um impacto direto na qualidade de vida. “Quando diagnosticado precocemente, o câncer de colo uterino pode ser tratado com cirurgias menores e curativas com menor impacto na qualidade de vida e saúde da paciente”, orienta.

Câncer de mama: da genética à imunoterapia
No câncer de mama, a avaliação genética representa um grande salto. “Sem dúvida, a avaliação genética é um grande avanço,” pontua Aline. Com ela, é possível identificar pacientes com mutações que causam a doença, permitindo as chamadas cirurgias redutoras de risco, que removem as mamas antes do desenvolvimento do câncer.
Em relação ao tratamento, as inovações são promissoras. A especialista destaca novos tratamentos, como as terapias-alvo e imunoterapias, que “promovem um tratamento com aumento da expectativa de vida em pacientes com tipos específicos de tumores, inclusive em pacientes com doença avançada ou metastática. Esses avanços representam mais tempo e qualidade de vida para as pacientes”, ressalta.

Prevenção
A médica reforça que a vacinação é a principal forma de proteção contra o câncer de colo do útero. Ela também salienta que a adoção de hábitos saudáveis é fundamental: “Não fumar (isso inclui o uso de vapes) e usar preservativo nas relações são hábitos reconhecidamente importantes na prevenção”, diz.
Já no câncer de mama, a prevenção começa com a informação genética. A especialista orienta que: “Realizar avaliação genética em famílias de alto risco é primordial’, revela.
Além da genética, a atividade física surge como uma grande aliada. “A prática de cinco horas por semana de moderada a intensa pode reduzir o risco em até 38%, conforme alguns estudos já realizados”, explica. O exercício continua importante mesmo após o diagnóstico: “Após o tratamento de um câncer de mama a atividade reduz a chance de recidiva da doença significativamente”, pontua.
A médica conclui que, para todos os tipos de câncer, manter um peso normal e alimentação saudável são grandes aliados na prevenção.

Em Bento Gonçalves
A secretária de saúde do município, Daiane Piuco, afirma que a campanha do Outubro Rosa deste ano está voltada para a conscientização e o cuidado com a saúde da mulher. “Estão sendo promovidas palestras educativas, rodas de conversa nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), distribuição de materiais informativos no centro da cidade em ação da SMS, intensificação da coleta de exames preventivos e encaminhamentos para mamografia conforme faixa etária recomendada pelo Ministério da Saúde”, explica.
Para aumentar a adesão aos exames preventivos, a estratégia é ir além da espera passiva nos consultórios. Segundo a médica, está sendo crucial incentivar as equipes de saúde da família a buscar ativamente as mulheres na faixa etária recomendada para os exames.

Mutirões de exames
A secretária afirma que o município intensificou a oferta de exames neste mês. “Os agendamentos de mamografia estão sendo feitos diretamente nas Unidades Básicas de Saúde, respeitando as orientações do Ministério da Saúde. Os agendamentos de ultrassonografia passam por regulação médica”, esclarece Daiane.
Ela conta que, por mês, são disponibilizadas cerca de 600 vagas para mamografias. “Atualmente, não há fila de espera na rede pública do município”, finaliza.