Quando Matheus Malvessi entrou pela primeira vez em uma academia, em 2016, o objetivo estava longe de troféus ou palcos iluminados. A recomendação veio após dores persistentes no joelho, consequência de uma vida dedicada ao futsal. “Sempre fui muito ligado aos esportes, principalmente ao futsal, e depois das dores, o médico sugeriu começar a fazer academia”, relembra. Naquele momento, o treino ainda era irregular e sem grandes pretensões.

A virada aconteceu anos depois, durante a pandemia. O isolamento trouxe um choque de realidade: sedentarismo, cerca de 89 quilos e um percentual de gordura elevado. “Caí na real e percebi que precisava mudar”, conta. Ao retornar à academia com mais seriedade, Malvessi passou a ser apresentado ao universo do fisiculturismo por amigos e familiares. O incentivo cresceu quando atletas e pessoas do meio começaram a enxergar potencial em seu físico. “Muita gente olhava para mim e via estrutura para ser atleta, principalmente pela estrutura óssea larga”, afirma.

Em 2023, veio o teste definitivo. A primeira competição surgiu quase como uma experiência, sem grandes expectativas. “Fui com a promessa de apenas ver se eu gostava… e eu realmente gostei”, diz. A estreia marcou o início oficial de sua trajetória competitiva, ainda recente, mas intensa.

Os desafios apareceram rapidamente. A alimentação é apontada como o principal obstáculo, especialmente em uma cidade reconhecida pela gastronomia. “A mudança de hábitos antigos sempre foi e ainda é uma dificuldade constante”, admite. Cada preparação trouxe dificuldades diferentes, exigindo foco absoluto. “Todos os campeonatos tiveram situações adversas, e é preciso um controle emocional enorme para seguir firme até o dia do palco”, pontua.

As referências no esporte ajudaram a sustentar esse caminho. No cenário nacional, Matheus cita Rafael Brandão e Ramon Dino como inspirações. Em Bento Gonçalves, a figura de Rafael Licks foi decisiva. “Ele sempre me motivou, me cobrou o melhor e apontou tudo o que eu precisava melhorar, tanto no físico quanto no mental”, destaca.

As dificuldades

A primeira preparação competitiva revelou um universo muito mais duro do que o imaginado. Dieta extremamente restrita, treinos específicos e longas sessões passaram a fazer parte da rotina. “Cheguei a fazer, em média, duas horas de aeróbico por dia”, relata. Na semana final, a hiperidratação levou o corpo ao limite. “Cheguei a tomar cerca de 10 litros de água por dia e depois praticamente zerar. A sede é muito difícil de administrar”, diz.

Mesmo com apenas três campeonatos disputados, Matheus já comemora conquistas simbólicas. O segundo lugar na Copa dos Campeões deste ano é apontado como o resultado mais marcante. “Foi um grande reconhecimento e a confirmação de que essa é a minha categoria. Tenho a linha ideal e ainda uma margem de peso para evoluir”, avalia.

Uma estreia sem expectativas virou projeto de vida

Conciliar o fisiculturismo com a vida profissional é outro desafio diário. Analista de automação industrial, ele organiza a rotina em torno dos horários de trabalho, alimentação e treinos. “Levo marmitas, ando sempre com garrafa de água e ajusto tudo quando preciso viajar ou atender em campo”, explica. O descanso, muitas vezes, fica em segundo plano, com noites de sono curtas.

Em maior evidência

A exposição nas redes sociais também se tornou parte da carreira. “Antes eu nem gravava meus treinos, hoje posto todos os dias”, conta. A visibilidade trouxe cobrança e pressão estética. “Sinto que preciso estar bem o tempo todo, para aparecer no Instagram, na academia ou na rua”, diz. Ainda assim, ele reconhece uma mudança interna importante: “Sou muito crítico comigo mesmo, mas hoje acredito mais no meu potencial do que há algum tempo”, enfatiza.

Para jovens atletas que sonham com o fisiculturismo, Matheus faz questão de alertar: “Não é só força de vontade. É preciso investimento financeiro, equilíbrio mental e uma profissão que dê base para sustentar o esporte”, aponta. Ele reforça a importância de entender os limites e as exigências das categorias. “Cada refeição conta, e muitas categorias exigem uma linha física que não se constrói apenas com treino”, reitera.

O futuro aponta para novos desafios. A decisão de migrar para a federação NPC abre a possibilidade de buscar o cartão profissional e, no longo prazo, disputar vagas para o Mr. Olympia. “É um sonho, mas é um caminho longo. O nível no Brasil é altíssimo, tanto em investimento quanto em qualidade dos atletas”, reconhece. A curto prazo, a meta é clara: competir mais, receber feedbacks e evoluir.

Nos bastidores, longe do palco, está o verdadeiro diferencial. “É aquela repetição a mais, aquele dia em que você vai treinar mesmo cansado”, resume. Para ele, o maior confronto é interno. “Meu maior adversário sou eu mesmo, porque a mente sempre tenta te preservar”, destaca.

Se tivesse que definir sua trajetória em uma palavra, Malvessi não hesita: “Autoconfiança”. Segundo ele, é esse sentimento que o impulsiona a buscar sua melhor versão e alcançar patamares que hoje ainda parecem distantes. Quem quiser acompanhar essa jornada, ele faz um convite para segui-lo no Instagram, em @matheusmalvessi.