Manter um peso adequado durante a primeira infância é essencial para reduzir a incidência de obesidade na vida adulta e suas consequências negativas. Além do excesso de peso, a obesidade acarreta uma série de problemas metabólicos que podem colocar a vida em risco em qualquer fase.
O Rio Grande do Sul tem se destacado, infelizmente, como um dos estados com os maiores índices de obesidade infantil no Brasil. Essa preocupante realidade, que transcende o âmbito estético e se configura como um grave problema de saúde pública, acende um alerta urgente para pais, educadores e profissionais de saúde, indicando a necessidade de atenção redobrada a essa questão.

Diagnóstico
A obesidade infantil é calculada através do Índice de Massa Corporal (IMC) ajustado para idade e sexo, comparado às curvas de crescimento da Organização Mundial da Saúde. De acordo com a nutricionista materno infantil Marieli Tretto, quando a criança apresenta IMC acima de 97, já é considerada obesa. “Mas, mais do que números, o olhar clínico avalia hábitos, contexto familiar, sinais de risco metabólico e a relação da criança com a comida”, explica.
De acordo com a nutricionista, a genética também influencia na obesidade, mas não é o principal fator. “Há, sim, uma predisposição genética, mas o ambiente em que a criança cresce, suas rotinas, alimentação, nível de atividade física, qualidade do sono, exposição a telas e até a relação emocional com a comida têm um peso muito maior”, enfatiza Marieli. Além disso, existem outros fatores determinantes, como os socioeconômicos, que incluem o acesso a alimentos frescos, o tempo dos cuidadores e o nível de informação da família.

Marieli Tretto nutricionista materno infantil

Como prevenir
A prevenção da obesidade é essencial e, segundo a nutricionista, a nutrição é o principal pilar. “Não se trata de dieta restritiva, mas de ensinar famílias a construírem uma relação positiva com a comida, valorizando alimentos in natura, respeitando sinais de fome e saciedade e criando momentos de conexão ao redor da mesa. É um trabalho de educação, escuta e construção de hábitos que começa cedo, ainda na gestação”, explica Marieli.
A construção de hábitos alimentares saudáveis na infância é um processo contínuo que se inicia com a introdução alimentar. “Na introdução alimentar, o foco é na variedade, textura, autonomia e respeito ao tempo da criança”, explica Marieli, destacando os pilares para uma relação positiva com a comida desde os primeiros meses de vida. Segundo a especialista, após os dois anos, a atenção se volta para a consolidação desses hábitos. “A partir dos dois anos, reforçamos o consumo de frutas, legumes, grãos integrais, proteínas de qualidade e a redução de ultraprocessados”, afirma. Ela enfatiza que o ideal é que a alimentação da criança se baseie na “comida de verdade”, complementada por uma rotina bem definida e, fundamentalmente, pelo exemplo familiar. “O que a criança vê, ela tende a repetir”, explica.

Consequências
A obesidade vai muito além de estar acima do peso; é uma condição complexa com consequências que se estendem para além da estética, afetando a saúde física, emocional e social da criança. Assim, existem sérios riscos que podem se agravar ao longo do desenvolvimento infantil. “No curto prazo, a obesidade pode afetar o sono, causar dores articulares e até dificuldades respiratórias. No campo emocional, surgem baixa autoestima, bullying e isolamento social. Já a longo prazo, aumenta-se o risco de doenças como diabetes tipo 2, hipertensão, colesterol alto e transtornos alimentares. Mais do que a balança, precisamos olhar a saúde como um todo, física e emocional”, salienta Marieli.

Desafios
Atualmente, com o excesso de informações, pais e familiares têm cada vez mais dificuldade para preparar uma alimentação saudável para seus filhos. De acordo com a psicóloga, há muitas informações “desencontradas”. “Famílias se veem perdidas em meio a tantas orientações, enquanto lidam com uma rotina exaustiva. A correria do dia a dia, a sobrecarga mental, a falta de tempo para preparar refeições e até a ausência de uma rede de apoio tornam tudo ainda mais difícil”, enfatiza.
O excesso de trabalho e a falta de tempo são uma realidade em muitas famílias, o que as leva a ceder ao mais prático, até mesmo tentando bajular ao permitir o consumo de doces. “Vivemos uma realidade em que muitos pais, mesmo presentes emocionalmente, estão fisicamente ausentes por conta do excesso de trabalho. E, muitas vezes, essa ausência acaba sendo compensada com guloseimas, ‘mimos’ alimentares e permissividade à mesa. Só que essa tentativa de demonstrar amor com comida pode, sem querer, reforçar hábitos prejudiciais”, salienta a nutricionista. “O nosso trabalho como nutricionistas vai muito além de cardápios: é sobre escuta, orientação prática e construção de uma relação mais equilibrada e possível entre a família e a comida”.

Rio Grande do Sul
Em um cenário de crescente preocupação com a saúde pública, a obesidade infantil avança de forma silenciosa e acelerada no Brasil, e os dados mais recentes acendem um alerta urgente, especialmente no Rio Grande do Sul. A realidade gaúcha ganha destaque: o estado lidera o ranking nacional de obesidade grave entre crianças de 5 a 10 anos, com impressionantes 10,68% das crianças nessa faixa etária vivendo com a condição.
Este panorama é parte de uma tendência ainda maior. As projeções da Federação Mundial da Obesidade são alarmantes: até 2035, estima-se que cerca de 20 milhões de crianças brasileiras deverão estar com sobrepeso ou obesidade. Dentro desse grupo, o número de crianças com obesidade mórbida – uma condição severa, caracterizada por um Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 40 kg/m² – também cresce, trazendo consigo sérios riscos à saúde física e mental dos pequenos.
Além do impacto direto na qualidade de vida e no bem-estar das crianças, o aumento da obesidade infantil representa um custo crescente para o Sistema Único de Saúde (SUS). Esse custo se manifesta tanto pelo impacto precoce no desenvolvimento de condições crônicas, como diabetes e doenças cardiovasculares, quanto pela sobrecarga futura no sistema de saúde.
De acordo com a nutricionista, o Estado tem uma cultura rica. “Muito baseada em carnes, embutidos, massas e doces, alimentos calóricos e, muitas vezes, consumidos em excesso”, explica. “O churrasco frequente, o consumo de refrigerantes e sucos no dia a dia, os lanches com excesso de embutidos, o hábito de petiscar enquanto se assiste TV e a valorização do ‘prato cheio’ como sinônimo de saúde são exemplos. A ideia não é excluir a cultura, mas aprender a equilibrá-la com escolhas mais conscientes e hábitos saudáveis desde a infância”, salienta Marieli.
Em algumas regiões, principalmente nas urbanas periféricas, existe o chamado “deserto alimentar”. “Onde é mais fácil e barato encontrar um pacote de bolacha do que uma fruta. Já nas áreas rurais, por incrível que pareça, apesar da proximidade com a produção, nem sempre há educação alimentar ou incentivo ao consumo daquilo que se planta. Políticas públicas e educação nutricional são urgentes”, explica.

Papel dos adultos
A obesidade infantil é responsabilidade dos pais e adultos; são eles quem escolhem o que vai à mesa de casa. “Precisamos entender, com urgência, que a obesidade infantil não é culpa da criança — ela é responsabilidade de nós, adultos. Uma criança não tem cartão de crédito, não faz compras sozinha, não define a rotina da casa. Somos nós que escolhemos o que entra no carrinho, o que vai à mesa e o que é permitido diariamente”, afirma a nutricionista.
A prevenção da obesidade infantil começa com o exemplo dos adultos. “Prevenir a obesidade começa pelo exemplo. Alimentação vai muito além de nutrientes, é afeto, vínculo, rotina, valores. Quando cuidamos da qualidade do que oferecemos, também estamos ensinando autorrespeito, autocuidado e construção de escolhas”, enfatiza. Essa perspectiva destaca que nossas ações e escolhas à mesa são fundamentais para moldar o comportamento alimentar das crianças, indo além da nutrição e ensinando valores essenciais para o bem-estar e escolhas saudáveis ao longo da vida.
Diante dos crescentes índices de obesidade infantil, que tanto preocupam, a responsabilidade dos adultos na alimentação das crianças ganha um novo significado. “Cuidar da alimentação na infância é um ato de amor, de presença e de responsabilidade. E quando adultos conscientes assumem esse papel, é possível mudar o futuro de uma geração”, conclui Marieli.

Tipos de obesidade
Para um tratamento eficaz, é crucial entender suas causas. Basicamente, existem dois tipos principais: a obesidade exógena e a obesidade endógena. A identificação correta do tipo é o primeiro passo para a abordagem terapêutica adequada.
A obesidade exógena é, de longe, a forma mais comum. Ela ocorre quando a criança consome mais calorias do que gasta, resultando em acúmulo de gordura. Os principais culpados aqui são o excesso na ingestão calórica e a falta de atividade física. Em outras palavras, trata-se de um desequilíbrio entre a energia que entra e a energia que sai do corpo. O tratamento para esse tipo de obesidade foca em mudanças na dieta e no estilo de vida, incentivando hábitos alimentares saudáveis e a prática regular de exercícios.
Já a obesidade endógena é menos frequente e tem uma origem diferente. Ela é causada por doenças subjacentes ou por fatores genéticos. Nesses casos, o ganho de peso não se deve primariamente a hábitos inadequados, mas sim a condições médicas que afetam o metabolismo ou o controle do apetite. Por essa razão, a obesidade endógena geralmente exige uma intervenção médica mais específica, que pode incluir o tratamento da doença de base, acompanhamento com especialistas e, em alguns casos, medicação.
Compreender a diferença entre esses dois tipos é fundamental para pais, cuidadores e profissionais de saúde, garantindo que as crianças recebam o tratamento mais apropriado e eficaz para combater a obesidade e promover uma vida mais saudável.