Graças aos recursos das leis de incentivo, como a Paulo Gustavo e a Aldir Blanc, o município tem assistido ao surgimento de produções audiovisuais que resgatam memórias, valorizam identidades e fortalecem a diversidade. De imigrantes italianos aos povos originários Kaingang, passando por projetos inclusivos com alunos da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), o audiovisual farroupilhense vem se tornando uma poderosa ferramenta de memória.

Entre os destaques está o documentário “Os Primeiros Imigrantes”, do professor, cantor e jornalista João Carlos Fontoura, lançado em 2024. Inspirado no formato clássico das radionovelas, o projeto nasceu das comemorações dos 150 anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul. “A ideia surgiu da importância dessa data e de tudo que ela representa. Queríamos retratar o quanto foi próspera a chegada dos imigrantes e a herança cultural que nos deixaram. Pensamos em fazer um levantamento para um primeiro documentário, e na sequência, um mais consistente, com mais depoimentos de descendentes de imigrantes, principalmente daqui da Esperafico, Radael, etc.”, explica Fontoura.

Bastidores do documentário “Os Primeiros Imigrantes”

O resultado é uma obra híbrida, que une narrativa radiofônica e linguagem visual, resgatando o clima nostálgico das radionovelas com um olhar contemporâneo sobre a história. O autor destaca que o formato trouxe leveza à narrativa. “A gente quis criar algo autoastral, que mostrasse o lado positivo, da festa, do filó, da alegria. Não era o momento de enfatizar as dores, mas sim as vitórias”, revela.

Realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, o projeto envolveu profissionais locais e teve lançamento na Feira do Livro de Farroupilha. “Foi uma baita experiência. Depois da exibição, recebi muitos comentários positivos. E o mais gratificante foi ver o público se reconhecendo na história”, relembra.

No entanto, a produção teve dificuldades, nos quais ele destaca “a estrutura financeira, ser fiel com relação aos depoimentos e por ser uma responsabilidade muito grande. Em cima dessas dificuldades, a gente acabou, digamos assim, sendo criativo, porque a ideia da radionovela deixou o projeto mais leve”, diz.

Frame da produção do jornalista João Carlos Fontoura

Segundo ele, a ambientação sonora se deu primeiro pela escolha dos radioatores, Marisol Santos e Leandro Adamati. “Depois pensamos como seria audiovisualmente, não haveria a necessidade de efeitos sonoros, como era feito nas radionovelas originais, acredito que o resultado superou as expectativas”, destaca.

Fontoura adianta que planeja uma nova versão, mais longa e aprofundada. “Queremos um documentário de uma hora, entrando nos pormenores, como foram os acordos entre os governos, os navios, as condições da viagem. Esse primeiro foi um passo inicial, um convite a olhar para nossas origens com gratidão”, evidencia.

Até agora, o documentário foi levado para as salas de aula de Antônio Prado.

Sabores ancestrais e tradicionais

Enquanto Fontoura revisita a imigração italiana, outro projeto farroupilhense mergulha nas raízes dos povos originários. O documentário “Sabores Ancestrais”, de Marcelo Covolan, foi produzido em parceria com a comunidade Kaingang Pãnónh Mág, também com apoio da Lei Paulo Gustavo.

A obra, que ganhou exibições em escolas e espaços culturais entre 2024 e 2025, nasceu do desejo da comunidade indígena de registrar e preservar sua cultura. “A ideia surgiu da vontade da liderança Kaingang, Alexsander Candinho Ribeiro, de deixar um legado audiovisual. A alimentação tradicional e o uso das ervas medicinais são ensinamentos que se renovam em convivência, de pais para filhos”, relata Covolan. A produção contou com diversos colaboradores: Mônica de Souza Chissini, Marcos Antonio Peccin Junior, Suzana Maggioni Bertuol e Marcelo Covolan, além do apoio do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Farroupilha (Sintrafar) e do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), Campus Farroupilha.

O projeto envolveu toda a comunidade e resultou também no documentário “Medicina Kaingang” e no livro “Alimentação e Plantas Medicinais na Cultura Kaingang”. As exibições, que incluíram escolas municipais como a Olga Ramos Brentano e a Angelo Venzon Neto, geraram impacto positivo. “Os alunos ficaram encantados, cheios de curiosidade. O cacique participou das conversas e derrubou muitos estereótipos. Mostramos que a vida na aldeia não é distante da realidade urbana, os indígenas também usam internet e celular. Além disso, disponibilizamos uma exposição fotográfica enquanto a filmagem do documentário estava sendo realizada, com fotos das pessoas da comunidade indígena tiradas por mim e Marlon Peres. Desta forma, o evento ganhou corpo, pois as fotografias e os painéis produzidos graficamente por mim e Rodrigo Troitiño Salvador, exerceram um papel importante demonstrando uma estética profissional. Para a própria comunidade o resultado foi excelente, pois estes se sentiram orgulhosos em poderem mostrar no filme como é a sua vida na comunidade, mostrando a simplicidade, o convívio harmonioso e elementos da cultura kaingang”, lembra Covolan.

Frame da obra “Sabores Ancestrais”

A educadora e produtora Mônica de Souza Chissini, uma das colaboradoras do projeto, destaca o aprendizado coletivo. “Enquanto não indígenas aprendemos a criar e preservar espaços de escuta e diálogo, revisitamos ideias, compartilhamos saberes, conhecemos muitas plantas das quais não tínhamos conhecimento, ocasionalmente reconhecendo algumas utilizadas. Pudemos acompanhar a busca por algumas delas na mata, além do preparo tradicional de alimentos pelas mulheres da comunidade, como o emi, pão na brasa, e o fuá, planta deliciosa, que reforçam a alimentação Kaingang e que pudemos saborear. Aprendemos palavras na língua, reconhecemos o vasto conhecimento de ervas medicinais e a destreza dos artesãos, como em suas cestarias, além de conhecermos as complementariedades Kamé e Kairu, que constituem o povo Kaingang”, revela.

Para ela, “o desafio na realização de projetos que envolvem criações coletivas é reconhecer que precisamos reaprender como fazer juntos de fato, como construir colaborativamente. Na nossa cultura ocidental, não-indígena, somos acostumados a ter pressa, ouvir pouco e ter grandes expectativas sobre como algo deveria ser. Para construir projetos com os povos indígenas, precisamos deixar isso de lado e ampliar nossa capacidade de escuta, de diálogo com todos os envolvidos. Por isso, enquanto aliados não indígenas e apoiadores dos projetos da comunidade nos colocamos à disposição para a convivência e para esse diálogo de modo que, a cada encontro, pudéssemos ir construindo juntos as ações de cada projeto, garantindo que elas tivessem sentido para a comunidade e que permitisse o alcance de seus objetivos de registro e preservação”, afirma Mônica.

Segundo ela, a sociedade em geral tem ampliado seu interesse em dialogar com as comunidades indígenas, conhecer suas especificidades e desafios e contribuir para o enfrentamento da invisibilidade histórica e preconceito racial que persistem.

O projeto “Sabores Ancestrais” é uma construção coletiva, com participação da Marlon Peres Filmes, Jailza dS. Martins e a Novembro Casa de Cultura. Segundo Covolan, a produção somente pôde ser realizada com a coordenação da liderança da comunidade, contando com a direção de Peres e Jailza D. Sousa como intérprete de libras.

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Para ele, os dois trabalhos se complementam. “O Projeto ‘Kofá ag Vénhkagta: Remédios dos nossos ancestrais Kaingang’ possibilitou a produção do documentário sobre a medicina deste povo. O filme teve captação de imagens na Terra Indígena Guarita, na cidade de Tenente Portela/RS, a partir de entrevistas com Valdir Joaquim, detentor de conhecimentos relativos às plantas medicinais e seus usos tradicionais, sendo denominado “kofá”. Infelizmente Valdir veio a falecer logo após a edição da filmagem. Esta foi a principal dificuldade na produção do documentário, pois o filme trazia o último registro de uma pessoa que passava os conhecimentos básicos sobre as plantas e suas propriedades terapêuticas. Foi realmente uma grande perda para todos da comunidade indígena”, destaca.

A produção foi amadora, usando o próprio celular de Letícia Joaquim, integrante da comunidade Pãnónh Mág, casada com Alexsander Candinho Ribeiro, líder da comunidade. Além disso, foi destinado alguma renda para os próprios membros indígenas da comunidade como participantes dos projetos.

Suzana Maggione Bertuol, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Farroupilha (Sintrafar) destaca que a cultura e a identidade dos povos originários são temas de infinitas abordagens e há muito ainda a ser desvendado. “Inclusive, é importante que seja feito, para que não se perca. O preconceito quanto ao modo de viver e ser dos povos originários ainda é muito forte. Assim foi na colonização, onde a religião, a cultura, o modo de produção capitalista foi imposto aos indígenas. Olhar os povos originários de outro ângulo a partir do que eles têm a dizer é um desafio importante que deve ser levado adiante. Além dos projetos mencionados, também estamos desenvolvendo, através da Associação Farroupilhense de Proteção ao Ambiente Natural (AFAPAN), o projeto Regenera Mata Atlântica (Casa Comum Pã Nónh Mág)”, indica.

Olhares inclusivos e arte como expressão

Outro destaque recente foi o documentário “Projeto Olhares”, resultado de uma parceria entre o fotógrafo Marlon Peres e a APAE de Farroupilha. A produção nasceu de uma oficina de fotografia que incentivou alunos da instituição a expressarem emoções e percepções através da imagem. “Quando usamos a arte de uma forma geral para manifestar sentimentos, olhares, o que sentimos, conseguimos traduzir isso de uma forma muito ampla, sendo acolhedora e amorosa. É exatamente isso que a gente conseguiu sentir vendo os alunos da APAE, usando a fotografia para expressar exatamente tudo isso. São pessoas extremamente amorosas, acolhedoras e com grande capacidade criativa. Qualquer pessoa da sociedade consegue ir até a exposição de fotos e perceber que ali existe muito mais do que só aquela fotografia. Só analisando todo o material para conseguir ter essa perspectiva que existe uma narrativa. Usar a imagem como instrumento de tradução de tudo isso é magnífico para um lado pessoal, pois me trouxe um prazer enorme de perceber a fotografia, além do comercial e do registro de momentos importantes, mas sim de trazer ela como instrumento de expressão interna e entender, depois de 15 anos de profissão, que a imagem vai sempre carregar essa capacidade de traduzir o que a gente sente além de palavras, escrita, desenhos” descreve Peres.

Exposição fotográfica realizada na APAE

Covolan, que também acompanhou o projeto, reforça seu impacto social. “Foi um momento de integração e de compartilhar os afetos. Os alunos da APAE realizaram uma atividade diferente da sua rotina, que os colocaram como autores criativos, para se expressar e demonstrar a sua arte. A receptividade das pessoas que trabalham foi excelente e todos se dedicaram na organização do projeto. Haviam os profissionais e psicólogos na APAE e o Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas (NAPNE) do IFRS. Assim formou-se uma rede extensa de pessoas encantadas com a proposta, onde podemos ver as famílias orgulhosas trazendo os protagonistas do evento. Precisamos destacar o carinho e dedicação de Peres e Diogo Bocussi na produção do projeto”, aborda.

Preservação

Por fim, há o documentário “Moinho Covolan: Histórias Incompletas”, onde a Associação Cultural Moinho Covolan foi contemplada com o Edital Criação e Formação Diversidades da Cultura, realizado com recursos da Lei Aldir Blanc n° 14.017/20, destinadas pela Fundação Marcopolo. “Tinha como objetivo principal demonstrar a importância da edificação histórica do Moinho para a comunidade e principalmente chamar a atenção do Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Farroupilha (COMPHAC). Além disso, buscava demonstrar a importância do tombamento da edificação como Patrimônio Cultural, pois neste momento a edificação ainda não era tombada, o que ocorreu na administração do Prefeito Fabiano Feltrin, mas de forma ainda equivocada, pois o decreto de tombamento cita somente a fachada, sendo que a Associação tinha o entendimento de uma forma completa de proteção da edificação. Por isso, continuamos com a solicitação de abertura de processo no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) com o respectivo n° 01512.000021/2022-31”, pondera Covolan.

A produção e direção do documentário é de André Constantini, da Transe Filmes.