Aos 46 anos, a tenente-coronel Karine Pires Soares escreve um novo capítulo na história da segurança pública de Bento Gonçalves. Natural de Santiago, ela se torna a primeira mulher a assumir o comando do 43º Batalhão de Polícia Militar (BPM), responsável também por outros 11 municípios da região. A nomeação marca não apenas uma conquista pessoal, mas um avanço simbólico dentro de uma instituição tradicionalmente masculina.
Formada em Direito em 2004, Karine inicialmente mirava a carreira no Ministério Público. A oportunidade, no entanto, surgiu em outro caminho. “Eu ia fazer só o concurso para delegado, mas um colega que cursava a Polícia Militar me incentivou. Disse que era uma carreira interessante. Resolvi tentar e passei de primeira”, relembra. Em 2006, ingressou na Academia de Polícia, permanecendo em formação até 2008, em Porto Alegre.
Filha de militar do Exército, ela já conhecia a rotina, mas afirma que a escolha pela Brigada Militar não foi uma continuidade natural. “Eu tinha referências, mas não foi algo planejado desde sempre. A carreira foi se apresentando e eu abracei”, afirma.
Entre o socorro e o confronto
Ao longo de quase duas décadas de serviço, Karine acumulou experiências que moldaram seu perfil de liderança. Em Taquari, sua primeira cidade como oficial, protagonizou um episódio que revela a dimensão humana da farda. “Durante a madrugada, ouvi uma mulher gritando na rua. Saí para ver o que era e acabei ajudando em um parto. Levamos ao hospital depois. Foi marcante porque ninguém mais saiu para ajudar. O policial é aquele que vai quando todos fogem”, frisa.

Em contraste, também carrega lembranças dolorosas. Em um cerco policial na região do Vale do Taquari, perdeu um colega jovem durante um confronto em assalto a banco. “A responsabilidade do comandante é enorme. Planejar, organizar recursos, pedir apoio. A gente nunca sabe o que vai encontrar. Foi um momento muito difícil, que reforçou o peso da liderança”, ressalta.
Esses episódios, segundo ela, fortificam a essência da profissão: estar disponível para servir, seja no acolhimento, seja na crise.
Equilíbrio e disciplina
Mãe da Manuella, de 12 anos, Karine afirma que aprendeu a equilibrar a intensidade da carreira com a vida pessoal. “Minha filha entende minhas responsabilidades. Temos uma parceria muito boa”, destaca. Academia, momentos em família e organização da agenda são prioridades. “Já houve um tempo em que eu abria mão da minha saúde pelo trabalho. Hoje sei que isso compromete também o meu desempenho como comandante”, evidencia.
Recém-chegada a Bento Gonçalves, ela vive dias de agenda intensa, buscando conhecer lideranças locais e integrar-se à comunidade.
Diagnóstico e prioridades
Apesar de destacar os bons indicadores da região nos crimes mais graves, a comandante reconhece o aumento recente nos homicídios em Bento Gonçalves e Garibaldi. Ainda assim, demonstra confiança na articulação entre os órgãos de segurança. “Temos um grupo muito organizado, engajado. Isso me dá tranquilidade no sentido de saber que estamos adotando as medidas necessárias”, pontua.
Entre as prioridades da gestão estão o fortalecimento da inteligência policial e das equipes de Força Tática e Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (ROCAM), além da incorporação de tecnologia. “Quero ampliar o uso de drones. Sozinho um pode produzir provas e informações que talvez levassem meses para serem obtidas apenas com efetivo humano”, destaca.
Karine reconhece que dificilmente haverá aumento expressivo no número de policiais, mas aposta na qualificação e no emprego estratégico do efetivo. “Se eu tenho cinco, preciso saber onde colocar esses cinco. A criminalidade é dinâmica, então nossa gestão também precisa ser”, enfatiza.
Polícia comunitária como marca
Com experiência na coordenação estadual do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (PROERD) e da Patrulha Maria da Penha, ela chega a uma região reconhecida pelo policiamento comunitário. “Bento é referência. Os programas já estão muito bem estruturados. Meu papel será contribuir, ouvir e aprimorar”, afirma.
Em 2024, coordenou uma escola de formação em Porto Alegre, experiência que define como uma das mais gratificantes da carreira. “Formar novos policiais com foco em direitos humanos, escuta da comunidade e preparo para diferentes realidades foi algo muito marcante”, afirma.
Representatividade feminina
A nomeação tem peso histórico. Desde a mudança no formato de ingresso para oficiais, em 2000, poucas mulheres alcançaram o posto de tenente-coronel. Atualmente, não há nenhuma coronel mulher na ativa na Brigada Militar. “Nós somos poucas ainda. Quando eu era capitã, tinha como referência a tenente-coronel Nádia Rodrigues Silveira Gerhard e a coronel Cristine Rasbold. Hoje eu ocupo esse lugar para outras mulheres”, afirma.
Ela reconhece o simbolismo da função, especialmente para o público feminino. “Na parte técnica, nos equivalemos aos homens. Mas a representatividade importa. Quebrar estereótipos de machismo na sociedade é algo que também passa por ocupar esses espaços”, indica.
Nas redes sociais, percebeu a reação positiva à sua nomeação. “Tenho dito às mulheres que confiem. Vim para fazer um excelente trabalho”, diz.
Relação com a comunidade
Karine pretende fortalecer ainda mais o diálogo com empresários, comerciantes e lideranças locais. Destaca o apoio histórico da região por meio do Programa de Incentivo ao Aparelhamento da Segurança Pública (PSEG) e a forte integração entre os órgãos.
Além disso, no dia 24, às 8h30min, no Sicredi Agro, promoverá um encontro com autoridades, imprensa e representantes da sociedade para apresentar o panorama da criminalidade e os projetos para 2026. “Quero mostrar como trabalhamos com inteligência e gestão de recursos, e compartilhar nossos propósitos para o ano”, finaliza.