É quase Dia Internacional da Mulher. O verão nem se despediu direito e o Rio Grande do Sul já contabiliza 20 feminicídios em 2026. Vinte mulheres que não chegaram a março. Vinte histórias interrompidas antes mesmo de o ano começar de verdade. No mesmo período do ano passado, eram 13. O número cresceu, mas o luto é antigo.
Elas tinham entre 15 e 59 anos. Algumas ainda adolescentes, outras já com a maturidade desenhada no rosto. Muitas eram mães. Oito dezenas de mulheres foram assassinadas em 2025 no estado. O resultado? 660 crianças e adolescentes órfãos de mãe. Não é apenas uma estatística. São mesas vazias no café da manhã. São aniversários com uma ausência que nunca mais será preenchida.
A maioria dos crimes acontece onde deveria existir segurança: dentro de casa. O agressor, quase sempre, é alguém que um dia prometeu amor. Companheiros. Ex-companheiros. Homens que não aceitaram o fim. Homens que confundiram afeto com posse, relacionamento com domínio, amor com controle. Nada justifica: ciúmes, traição, separação, orgulho ferido.
O feminicídio não nasce de um impulso isolado, ele é o ápice de uma cultura que ainda ensina que a mulher pertence a alguém. É estrutural. Está enraizado em piadas normalizadas, em silêncios cúmplices, em frases como “se não for minha, não será de mais ninguém”. Está na dificuldade de muitos homens em lidar com o “não”. Está na ideia equivocada de que terminar um relacionamento é uma afronta imperdoável. Mas não é.
Toda mulher tem direito à vida. Toda mulher tem direito à liberdade. Toda mulher tem direito de decidir continuar ou não em um relacionamento.
Deputados discutem pacotes contra o feminicídio. Fala-se em penas mais duras, punições mais severas. Elas são necessárias, sim. A impunidade alimenta o ciclo. Mas apenas a punição não basta. É preciso educar a geração que cresce agora. Ensinar meninos sobre respeito, autonomia e limites. Ensinar que frustração não se resolve com violência. Que ninguém é dono de ninguém. Porque nada, absolutamente nada, autoriza alguém a tirar a vida de outro ser humano.
Vinte mulheres não chegaram a março. Que seus nomes não sejam apenas números. Que seus filhos não sejam apenas dados estatísticos. Que sua ausência nos mova. Porque cada feminicídio não mata apenas uma mulher, mas fere uma família inteira, traumatiza uma comunidade e revela que ainda falhamos como sociedade. E enquanto houver uma única mulher vivendo sob ameaça por querer apenas seguir sua própria vida, o tema continuará sendo necessário. Que a indignação não dure apenas um dia. Que ela vire compromisso, educação e mudança. Para que o próximo início de ano não seja contado em vidas perdidas e possamos comemorar, de verdade, o nosso dia da mulher!