A região dos bairros Vila Nova I, II e III cresceu acompanhando a expansão urbana do município. O que começou como um único núcleo residencial foi se ampliando aos poucos, até dar origem às diferentes denominações que hoje identificam as localidades. Entre ruas estreitas, crescimento populacional e a proximidade do distrito industrial, os moradores acompanham as mudanças do bairro há décadas, e dividem percepções entre orgulho da comunidade e preocupação com problemas que se tornaram mais evidentes nos últimos anos.
Quem vive na região há mais tempo lembra de um local muito diferente do atual. O aposentado Valter Volpini, de 79 anos, mora no Vila Nova I há 49 anos e recorda de uma época em que havia poucas casas e uma pequena escola na comunidade. “Quando eu vim morar aqui, onde tem a escola, tinha uma escolinha. Era pequenininha e tinha pouca gente”, relembra.
Com o passar do tempo, o local cresceu, recebeu novas estruturas e se consolidou como uma das regiões mais populosas da cidade. “Depois construíram o colégio novo, o posto, tudo. Mas aqui, a gente não dá para se queixar. O bairro é muito bom”, afirma.
O também morador Euclides Fin, de 76 anos, está há 45 anos no Vila Nova I e acompanhou de perto o desenvolvimento da região. “No início era só uma rua, uma estradinha, mas com o tempo foi progredindo e se expandindo”, resume.
A lógica de crescimento é confirmada por outros habitantes. Juvelino de Matos, de 60 anos, explica que a divisão entre Vila Nova I, II e III ocorreu justamente em função da expansão urbana. “Foi feito o primeiro aqui, depois lá, foi indo”, comenta.
Ruas estreitas e mobilidade desafiam moradores
O deslocamento aparece entre as principais reclamações. Em diferentes pontos da região, moradores e comerciantes relatam dificuldades causadas pelas ruas estreitas, fluxo intenso de caminhões e condições das vias.
Proprietário de um mercado tradicional no Vila Nova I, Ademar Quadri, de 46 anos, afirma que o bairro cresceu, mas que parte da infraestrutura ficou defasada. “Se desenvolveu, só que ainda dá para evoluir mais. A infraestrutura das ruas é muito estreita, foi mal planejada no começo”, avalia.
Segundo ele, o tráfego intenso de veículos ligados ao distrito industrial impacta diretamente o trânsito do bairro. “Em horários de pico, tem quase um quilômetro de fila para entrar na Rua Humberto de Alencar Castelo Branco. Se conseguissem fazer uma entrada e uma saída para os caminhões, ia ficar muito mais fácil”, afirma.
Além do trânsito, moradores relatam preocupação com a circulação de ônibus em determinados trechos. “O pessoal comenta bastante de fazer uma rua que desce e outra que sobe pro ônibus. Em dia de chuva, se começa a patinar, o ônibus tem que voltar de ré”, relata Quadri.
A comerciante Rosangela Teodoro, moradora há cerca de 30 anos do Vila Nova II, também aponta dificuldades relacionadas à mobilidade. “A gente não tem uma estrutura boa de bairro para se locomover. Tem bastante desnível”, comenta.
No mesmo bairro, o morador Cidnei de Arruda Reinaldo aponta a ausência de transporte público em algumas áreas mais afastadas. “Aqui não tem ônibus. O pessoal que não tem carro tem que descer lá embaixo para pegar”, afirma.
Segundo ele, a circulação de um micro-ônibus poderia ajudar a atender moradores da parte mais alta do bairro. “Não poderia ser grande, tinha que ser os menores. Os empresariais circulam aqui”, sugere.
Apesar das críticas, alguns moradores avaliam positivamente o transporte coletivo na região. Lisiane Teixeira Godoy, moradora do Vila Nova III, destaca a frequência dos horários. “Tem ônibus toda hora para quem precisa”, comenta.
Segurança é preocupação recorrente entre moradores
Embora muitos definam o bairro como tranquilo para viver, a segurança aparece como uma preocupação constante nas entrevistas. O tema surge principalmente associado à circulação de drogas e à sensação de insegurança durante a noite. Ao longo da apuração, diversos moradores demonstraram receio ao abordar o assunto e pediram para não serem identificados ao comentar episódios relacionados à violência e ao aumento da insegurança percebido nos últimos anos.
Segundo Quadri, comerciantes defendem a ampliação do monitoramento por câmeras na região. “Ajudaria muito, pelo menos facilitaria para os policiais identificarem para onde o pessoal foi”, afirma.
A moradora Miriam Santim do Vila Nova II, que está há cerca de 35 anos na região também cita o comércio de entorpecentes como principal problema enfrentado atualmente. Segundo ela, a presença de ilícitos na região é perceptível em diferentes pontos do bairro. “Aqui nós moramos na melhor rua do bairro, mas a sensação de insegurança aumentou nos últimos anos, tem muitos pontos de drogas”, relata.
Mesmo reconhecendo a presença de policiamento em alguns momentos do dia, moradores afirmam que a sensação de insegurança aumentou nos últimos anos. “Não é mais como era 30 anos atrás”, afirma Rosangela.
Reinaldo também aponta o tráfico como uma das principais inquietações da região. “Agora o que mais preocupa é a circulação de drogas”, resume.
Crescimento urbano e ocupações alteraram cenário da região
Nos últimos anos, áreas próximas de mata e terrenos do local passaram por ocupações irregulares. Moradores relatam que a situação modificou a dinâmica do bairro e ampliou debates sobre infraestrutura, segurança e serviços públicos.
A moradora Miriam lembra que parte da comunidade passou a ser vista de forma diferente após as ocupações. “Ficou mal visto. Tem pessoas boas. Tem comércio ali”, comenta.
Coleta de resíduos e saneamento geram reclamações
A questão do lixo aparece como outra demanda recorrente entre moradores e comerciantes. De Matos afirma que os empresários têm dificuldades para descartar materiais como vidro, papelão e plástico. “Não têm onde colocar. Tinha que ter lixeiras fechadas”, diz.
Ele conta que moradores e comerciantes chegaram a organizar um abaixo-assinado solicitando melhorias na estrutura de coleta. Quadri reforça que o descarte inadequado acaba atraindo animais e gerando transtornos. “Tem gente que coloca alimento fora de hora e vira hotel de luxo para os ratos”, comenta.
Além da coleta, moradores também demonstram preocupação com as obras realizadas pela Corsan para implantação da rede de esgoto. Rosangela afirma que as intervenções têm causado transtornos na mobilidade. Segundo ela, o problema não é apenas a abertura das vias, mas também a demora para conclusão dos reparos. “Eles fazem manutenção num cano estourado e demoram 30, 40, 50 dias para arrumar”, afirma.
Lisiane também comenta o impacto das novas cobranças relacionadas ao esgoto. “Agora tem aquela taxa de esgoto e pagamos praticamente o dobro do valor da água”, diz. Apesar disso, moradores relatam que o abastecimento de água funciona de forma estável na maior parte da região.
Serviços de saúde
A avaliação dos moradores entrevistados é, em geral, positiva em relação ao atendimento na região. A maioria destaca o bom funcionamento do posto de saúde e a presença constante de agentes comunitários, que realizam visitas frequentes às residências.
Entre os relatos, o morador Reinaldo afirma que o acompanhamento no bairro ocorre diariamente por meio dos agentes de saúde.
Já Fin também avalia de forma positiva o atendimento no posto próximo de sua residência, que considera “ótimo”. No entanto, ele aponta uma dificuldade recente relacionada à vacinação. “Temos que tomar a vacina da gripe, e a gente teria que ir ali, né? Só que a geladeira deles está estragada faz um tempão e não dão uma solução para isso. Então a gente tem que ir em outros lugares”
Falta de espaços de lazer é reclamação antiga
A ausência de praças, áreas esportivas e espaços de convivência aparece entre as principais carências apontadas pelos moradores do Vila Nova I. Fin afirma que o bairro carece desses locais. “A grande falta aqui é um lugar para juventude se ocupar, para as crianças. Não tem parque, não tem nada disso”, comenta.
Quadri faz avaliação semelhante. “Eu tenho 46 anos e nunca teve uma pracinha aqui”, afirma.
Segundo ele, moradores do Vila Nova I precisam se deslocar para outros bairros em busca de lazer. “As pessoas precisam sair daqui para procurar alguma coisa”, relata.
Escola e CTG fortalecem vínculos comunitários
A Escola Municipal Princesa Isabel, localizada no Vila Nova I, completou 87 anos nesta quarta-feira, 13, e segue como uma das principais referências da região.
A diretora Jacqueline Karkaba afirma que a instituição cresceu junto com o bairro e acompanha, há décadas, as transformações da comunidade. “Foi se modificando à medida das necessidades do bairro. Ela foi crescendo junto com a comunidade”, afirma.
Fundada em 1939, a instituição é a mais antiga da cidade e atende atualmente cerca de 480 alunos de diferentes bairros e nacionalidades. “Já recebemos a quinta geração. Tem bisavôs trazendo os bisnetos”, comenta.
Segundo Jacqueline, ela funciona como um ponto de referência não apenas para moradores do Vila Nova I, mas também para famílias de outras regiões próximas. “Nós atendemos Eucaliptos, o Vila Nova I e também recebemos alunos do Vila Nova II quando a Escola Maria Margarida Zambon Benini está com lotação”, explica.
Ela destaca que a localização da escola, próxima ao distrito industrial, também faz com que muitas famílias escolham a instituição pela facilidade de acesso. “Muitos dos pais trabalham aqui próximo. Tudo é um contexto muito interligado”, afirma.
A diretora ressalta que a instituição acompanha diretamente o crescimento populacional da região e que, ao longo dos anos, precisou se adaptar às novas demandas da região. “Quando existia somente a escola, ela já atendia outros níveis. Já teve educação de jovens e adultos, tinha aula à noite. O ambiente foi ampliado conforme as necessidades do bairro foram surgindo”, comenta.
Segundo Jacqueline, o vínculo comunitário construído ao longo das décadas fortalece a relação entre famílias, alunos e professores. “A escola pertence à comunidade. Por isso que a gente quer tanto acolher quem chega e demonstrar esse carinho”, diz.
Ela também chama atenção para a diversidade presente dentro da instituição. Além de estudantes de diferentes bairros, a escola recebe crianças vindas de outros países. “A maioria deles fala de três a quatro idiomas. Tenho um menino que fala seis idiomas”, relata.
Além da educação formal, a escola atua em parceria com famílias e com a rede de apoio do município para enfrentar situações de vulnerabilidade social. “A intenção é sempre ressaltar o lado positivo, mostrar que a criança pode ser o que desejar”, afirma.
Mesmo diante da ausência de espaços de lazer no Vila Nova I, no II algumas iniciativas comunitárias seguem funcionando como espaços de integração.
Outro espaço citado como importante para a comunidade é o CTG Presilha da Serra, localizado no Vila Nova II. O patrão, Jorge Luis de Oliveira, destaca que a entidade foi criada com o intuito de servir a comunidade, unindo trabalho e honestidade no culto à tradição gaúcha. Segundo ele, o CTG oferece um espaço cultural e físico voltado às inúmeras demandas da comunidade, desde atividades culturais até a cedência do galpão para diferentes iniciativas, promovendo a integração permanente com entidades locais e o poder público.
No espaço, a coordenadora das invernadas, Salete Busa, que atua junto a uma colega, Pamela Benatti Wuck, na organização das atividades, destaca que o galpão funciona como ambiente de convivência familiar, preservação cultural e integração entre gerações. “O espaço é muito importante. Só de olhar para esse galpão ele transmite um sentimento de respeito”, comenta.
Segundo ela, o CTG mantém atualmente duas invernadas, mirim e juvenil, com ensaios semanais voltados às crianças e adolescentes da comunidade. “As crianças adoram estar ali”, afirma.
Salete observa que a participação feminina costuma ser maior. “Os meninos são mais difíceis de trazer. Não sei se é vergonha de dançar ou pelas regras, mas eles são mais resistentes”, relata.
Ela explica que, embora a juventude em geral participe pouco da entidade, o espaço consegue reunir principalmente famílias. “Quem frequenta mesmo são os familiares, as invernadas, os convidados e as pessoas mais idosas”, comenta.
Para ela, o espaço acaba exercendo um papel importante na formação das crianças, especialmente em relação aos valores ligados ao respeito e à convivência. “É um local onde qualquer família é bem acolhida e onde as crianças aprendem que o respeito vem em primeiro lugar”, afirma.
Pertencimento
Mesmo diante das dificuldades apontadas, moradores demonstram forte sentimento de pertencimento em relação ao bairro.
Para muitos deles, o Vila Nova continua sendo um bom lugar para viver. “Eu acho que é o melhor bairro para viver”, resume Volpini.
Lisiane Godoy também destaca o crescimento da região e o potencial de desenvolvimento. “Tudo favorece pro bairro crescer. Cada vez tá aumentando mais o número de pessoas que moram aqui”, afirma.
Já Rosangela, apesar das críticas e do desgaste com os problemas enfrentados no dia a dia, reconhece a história construída no local. “A gente acostuma com o lugar, cria uma vida aqui”, conclui