Bento Gonçalves, cidade marcada historicamente pela imigração europeia, especialmente italiana, também vem sendo transformada por fluxos migratórios mais recentes. Entre eles, está a comunidade haitiana, que há mais de uma década constrói novas raízes no município enquanto busca preservar sua identidade cultural, suas tradições e sua história.

Do Haiti a Bento Gonçalves: história, terremoto e migração

Professor de História e Gramática Francesa no Haiti, Enselot Joachin vive em Bento Gonçalves há quase 14 anos. Ele deixou o país após o terremoto de 2010, que devastou o Haiti e deixou mais de 300 mil mortos, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). “Os alunos começaram a não ir para a escola por medo de novos tremores. Foi aí que pensei em sair do país”, relata.

A trajetória de Joachin também se cruza com a política externa brasileira. Em 2012, durante o período em que o Brasil liderava a missão de paz da ONU no Haiti (MINUSTAH), o país concedeu vistos humanitários a haitianos com formação acadêmica. Ele foi um dos beneficiados e chegou a Bento Gonçalves em 14 de julho daquele ano, por indicação de um amigo que já morava na cidade.

Enselot Joachin, imigrante haitiano, concluiu a graduação em Tecnologia em Horticultura no IFRS de Bento Gonçalves em agosto de 2025 (Foto: Arquivo pessoal)

Para Joachin, entender o Haiti exige olhar para sua história marcada por exploração e resistência. O país foi a primeira república negra do mundo, após derrotar a França e conquistar a independência em 1º de janeiro de 1804. Ainda assim, sofreu isolamento internacional e imposições econômicas que, segundo ele, ajudaram a aprofundar a pobreza e a fragilidade estrutural do país. “Tudo isso dificultou a construção do país e deixou espaço para que desastres naturais causassem ainda mais destruição”, explica.

Em Bento, Joachin destaca que a cultura haitiana se sustenta principalmente pela solidariedade e pela convivência comunitária. “A maioria se conhece, a gente cria confiança, mora junto, se ajuda com o pouco que tem, trabalha com honestidade”, afirma. Ele também faz questão de ressaltar o orgulho da comunidade, que, segundo ele, está presente na cidade há cerca de 15 anos.

A herança cultural do Haiti, marcada por influências espanhola, francesa e norte-americana, mantém, segundo Enselot, raízes africanas muito fortes. Elas se expressam especialmente na música e na dança, como no ritmo kompa, e também na culinária. Um dos principais símbolos é a Soup Joumou, sopa feita com abóbora, carne e outros ingredientes, consumida tradicionalmente no dia 1º de janeiro para celebrar a independência haitiana. Antes de 1804, pessoas negras escravizadas eram proibidas de comer o prato. “Onde tiver haitiano, a gente comemora com essa sopa. Ela é um símbolo histórico reconhecido pela Unesco”, conta.

A cultura, para ele, não é apenas tradição: é identidade e pertencimento. “A convivência, as músicas, as conversas, as discussões sobre futebol, a comida, reunir na mesma fé… tudo isso ajuda a se sentir bem, forte e acolhido”, diz. Apesar disso, Enselot avalia que ainda há pouca abertura para a valorização dessa diversidade cultural na cidade. Como membro de uma associação haitiana, ele afirma que já houve tentativas de mostrar a cultura localmente, mas a falta de investimento e de apoio acaba mantendo a comunidade em uma posição de invisibilidade.

A memória e a identidade que atravessam fronteiras

Essa percepção também aparece no relato de Daphney Pierre, que vive em Bento Gonçalves há oito anos. A decisão de vir para o Brasil começou ainda na juventude, influenciada por imagens que via na televisão. “Eu assistia Avenida Brasil e pensava: ‘quero viver assim’. Pra mim, o Brasil era o Rio de Janeiro, era mar, era só curtir a vida. Quando cheguei em Bento, pensei: ‘cadê o mar?’”, lembra, entre risos, ao contar o choque entre o imaginário e a realidade.

Daphney Pierre, imigrante haitiana em Bento Gonçalves (Foto: Arquivo pessoal)

Para Daphney, a base da cultura haitiana está na família, na língua, na fé e na história de luta do povo. “A família é tudo. Mesmo com dificuldades, os laços são fortes, o cuidado é coletivo e o respeito entre gerações é muito valorizado”, afirma. Ela também destaca a importância do crioulo haitiano (kreyòl), que define como “o idioma do coração do povo”, símbolo de identidade, resistência e união.

A religiosidade também ocupa um lugar central. O cristianismo, tanto católico quanto evangélico, convive com tradições do vodou, que Daphney faz questão de desmistificar. “Não é ‘coisa ruim’, é uma tradição espiritual ancestral ligada à proteção, aos antepassados e à natureza”, explica. A música e a dança, com ritmos como kompa e rara, além da culinária típica, como griot, diri kole e a própria soup joumou, completam esse conjunto de referências que, segundo ela, mantêm viva a identidade haitiana longe do país de origem.

Mesmo no Brasil, Daphney diz que faz questão de preservar esses costumes no dia a dia: fala crioulo em casa e com amigos, mantém práticas religiosas, escuta músicas do Haiti e cozinha pratos típicos. “A música traz lembranças, alegria e força. A comida representa afeto, tradição e conexão com a minha família e minhas origens”, resume. O convívio com outros haitianos na cidade também é fundamental para diminuir a saudade e fortalecer os laços culturais.

Apesar disso, ela aponta que uma das maiores dificuldades é a falta de informação e reconhecimento sobre a cultura haitiana. “Muitas vezes ela é vista só por estereótipos. Isso gera tristeza e um sentimento de invisibilidade. Já vivi situações em que senti que minha cultura não era valorizada ou compreendida”, relata. Ainda assim, afirma que manter essas tradições é uma forma de afirmar quem é e de onde vem.

Movimento Negro: apoio, cultura e articulação com a comunidade haitiana

A coordenadora do Movimento Negro Raízes, Solana Corrêa, afirma que a entidade já apoiou ações em diálogo com a comunidade haitiana e com o fortalecimento de seus laços culturais e históricos. Um dos exemplos ocorreu em 18 de maio de 2023, na Escola Imaculada Conceição, durante o Projeto de Cultura Afro-Brasileira e Indígena, em parceria com o Projeto Escolas Criativas e com apoio da Associação de Direitos Humanos de Imigrantes Contemporâneos. A atividade marcou o Dia da Bandeira do Haiti e também debateu os 135 anos da Abolição da Escravatura no Brasil, com participação de estudantes do ensino fundamental e médio. Segundo Solana, a iniciativa buscou valorizar o Haiti como referência histórica por ter sido o primeiro país a abolir o sistema escravagista e promover o acolhimento e o reconhecimento da comunidade haitiana na cidade. “Embora o movimento não desenvolva ações exclusivas e permanentes voltadas apenas à comunidade haitiana, ele atua de forma articulada e solidária sempre que possível”, afirma.

Solana Corrêa e Marcus Flávio Dutra, do Movimento Negro Raízes, com Enselot Joachin (Foto: Arquivo Pessoal)

Sobre os desafios para ampliar a visibilidade da cultura haitiana e de outros imigrantes negros na cidade, Solana aponta o racismo estrutural, a ausência de políticas culturais inclusivas, a barreira do idioma, a precarização das condições de trabalho e moradia e a falta de espaços institucionais para expressão cultural. Ela destaca ainda que muitos imigrantes são vistos apenas como força de trabalho, sem reconhecimento de sua formação, e enfrentam dificuldades para validar diplomas e certificações, inclusive de nível superior, por entraves burocráticos da legislação brasileira.

Na avaliação do Movimento Negro Raízes, a atuação do poder público municipal no incentivo à diversidade cultural e no apoio às comunidades imigrantes ainda é insuficiente. Segundo Solana, existem iniciativas pontuais, mas elas não se configuram como políticas públicas estruturadas, contínuas e construídas com a participação efetiva das comunidades e do movimento. Para ela, faltam investimento, escuta qualificada e compromisso político, e muitas vezes a responsabilidade acaba recaindo sobre os próprios imigrantes e sobre a sociedade civil.

A coordenadora também afirma que há aproximações e diálogos entre o movimento e a comunidade haitiana, especialmente em eventos culturais, mobilizações e lutas contra o racismo, mas avalia que essas pontes ainda precisam ser fortalecidas por meio de iniciativas conjuntas. Solana avalia que “reconhecer e valorizar a cultura haitiana é fundamental para romper com uma narrativa única e excludente da história de Bento Gonçalves. A cidade é diversa e essa diversidade precisa ser reconhecida como parte de sua identidade contemporânea. Valorizar a cultura haitiana e de outros imigrantes negros é um ato político de enfrentamento ao racismo, de afirmação da pluralidade cultural e de construção de uma cidade mais justa, democrática e representativa de todas as pessoas que nela vivem”, conclui. 

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Bento Gonçalves para saber se existem ações ou políticas voltadas ao fortalecimento da cultura haitiana no município, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.