Nos últimos anos, o avanço da tecnologia e o uso intenso de dispositivos móveis trouxeram à tona um novo problema de saúde: a síndrome do pescoço de texto. A condição, cada vez mais comum, é provocada pela postura inclinada da cabeça durante o uso prolongado de celulares, tablets e notebooks. Isso causa sobrecarga na musculatura cervical e pode resultar em dores, rigidez e até alterações na coluna.
De acordo com Alfredo Scarton, médico especialista em ortopedia e diretor técnico da Clínica Osteotrauma em Bento Gonçalves, a síndrome é um conjunto de sintomas causados pela flexão prolongada da cabeça para frente. “Postura comum ao usar celulares, tablets e computadores. Essa posição aumenta a carga sobre a coluna cervical: quando a cabeça está inclinada a 60°, o peso efetivo sobre o pescoço chega a 27 kg, contra 4 a 5 kg na posição neutra. Com o tempo, isso provoca sobrecarga muscular, desalinhamento postural e dor cervical crônica”, explica o médico.

Danos à coluna
O médico explica que a síndrome, se não for tratada, pode gerar alguns problemas, como: “Degeneração precoce dos discos cervicais, retificação da curvatura fisiológica (lordose) e até compressão nervosa. Esses processos podem se tornar permanentes, exigindo tratamento prolongado e, em casos mais graves, intervenção cirúrgica”, salienta Scarton.
Diferenças das dores
Ele conta que a dor postural costuma ser muscular, difusa e relacionada ao tempo de uso de telas. “Ela melhora com repouso e alongamento”, afirma.
Já as dores de origem estrutural, como hérnia, artrose ou pinçamento, tendem a ser mais intensas e localizadas, podem irradiar para os braços e vir acompanhadas de formigamento ou perda de força. “A avaliação clínica detalhada e exames complementares ajudam a diferenciar”, explica.
Como diagnosticar
Scarton explica que o diagnóstico é essencialmente clínico, fundamentado na história postural do paciente e na avaliação física. “No entanto, radiografias ou ressonância magnética podem ser úteis quando há suspeita de alterações estruturais, como perda da curvatura cervical, protusões discais, associadas a sintomas como formigamento, perda de força no membro superior ou casos de artrose”, ressalta o médico.
Segundo Scarton, a observação clínica já é suficiente para identificar grande parte das alterações posturais. “É possível perceber sinais como anteriorização da cabeça, elevação dos ombros, contraturas musculares, pontos-gatilho ou desequilíbrio escapular”, explica o especialista. Ele acrescenta que exames de imagem são recomendados apenas em casos de dor persistente, limitação de movimento ou presença de sintomas neurológicos, servindo para confirmar o grau de comprometimento.
Principais sintomas
Os principais sinais da síndrome do pescoço de texto incluem:
- Dor aguda ou persistente no pescoço e nos ombros;
- Rigidez/aperto nos ombros e pescoço, levando à diminuição da amplitude de movimento;
- Dores de cabeça intermitentes ou constantes;
- Dor neural, com formigamento e dormência nos membros superiores;
- Dor nos olhos.
Como aliviar e corrigir
O médico explica que o tratamento para as dores combina a reeducação postural e a ergonomia no uso de telas com outras medidas, como: “Fisioterapia com técnicas de liberação miofascial e fortalecimento cervical e escapular, alongamentos diários e correção da estação de trabalho (altura de monitor e apoio lombar). Em alguns casos, pode ser necessário o uso temporário de analgésicos ou anti-inflamatórios sob orientação médica, bem como técnicas avançadas de terapia ortopédica, terapia por ondas de choque, laser de alta intensidade, bloqueios analgésicos, entre outros”, orienta.
Exercícios indicados
Ele destaca que, em muitos casos, exercícios de alongamento e fortalecimento são recomendados para tratar o problema. “São fundamentais tanto na prevenção quanto na recuperação”, observa o médico, sendo eles:
- Alongamento dos músculos do trapézio e escalenos;
- Fortalecimento dos flexores profundos do pescoço;
- Exercícios de retração cervical e estabilização escapular;
- Movimentos de mobilidade torácica.
Scarton destaca que o ideal é realizar os exercícios sob orientação de fisioterapeuta ou educador físico treinado em reeducação postural, como RPG ou Pilates.
Tecnologia e prevenção
Uma das principais causas da síndrome é a utilização inadequada dos meios tecnológicos. “Depende da postura e da força muscular, mas em geral, mais de duas horas diárias em posição inclinada já podem gerar sobrecarga. O risco aumenta exponencialmente quando o uso ultrapassa quatro a cinco horas por dia, especialmente sem pausas”, esclarece.
Sobre o uso correto do celular, Scarton explica que é ideal manter o aparelho na altura dos olhos, evitando assim inclinar a cabeça para baixo. Já no caso do computador, o topo do monitor deve ficar na linha dos olhos, com os ombros relaxados e as costas apoiadas. “A cadeira deve ter altura que permita pés apoiados no chão e joelhos a 90 graus, além de apoio para os cotovelos. Esses pequenos ajustes reduzem drasticamente a carga na coluna cervical e musculatura pericervical”, orienta.
Além disso, realizar pequenas pausas ao longo do dia faz toda a diferença para manter a postura adequada. “Essas pausas estão entre as medidas mais eficazes. Interrupções de um a dois minutos a cada 30 ou 40 minutos de uso já ajudam a aliviar a tensão acumulada. Nesse intervalo, é importante levantar-se, movimentar o pescoço e os ombros, alongar ou caminhar brevemente”, orienta o especialista.
Crianças e adolescentes
Nessas faixas etárias, o contato cada vez mais intenso com o mundo digital exige atenção redobrada. “Crianças e adolescentes têm apresentado desalinhamentos posturais precoces, que podem comprometer o desenvolvimento ósseo e muscular. O tratamento segue os mesmos princípios aplicados aos adultos, porém com foco na prevenção, na orientação familiar e em ajustes no ambiente escolar. Como estão em fase de crescimento, a correção postural precoce permite uma reversão mais eficaz das alterações”, finaliza Scarton.