Crescimento de 68% nas matrículas em cinco anos reflete políticas públicas e maior demanda do mercado; no município, Senac e Senai ampliam oferta e adaptam formação às exigências da indústria, comércio e serviços

O avanço da educação profissional no Brasil tem se intensificado nos últimos anos e ganha reflexos diretos em cidades com forte base produtiva, como Bento Gonçalves. Dados do Censo Escolar 2025 mostram que o país registrou crescimento de 68,4% nas matrículas da educação profissional e tecnológica (EPT) em um intervalo de cinco anos, passando de 1.892.458 alunos, em 2021, para 3.187.976, em 2025.

A expansão indica uma mudança estrutural na educação brasileira, impulsionada tanto por políticas públicas quanto pela pressão do mercado de trabalho por profissionais qualificados. O crescimento se acelera especialmente a partir de 2023, quando programas federais passam a estimular a ampliação de vagas e a integração entre ensino médio e formação técnica.

Estrutura da oferta e perfil das matrículas

O Censo também evidencia como a educação profissional está organizada no país. A maior parte das matrículas está concentrada nas redes estaduais, que respondem por 81,7% da oferta pública, enquanto a rede federal representa 15,4% e a municipal, 2,8%.

No que diz respeito às modalidades, o modelo integrado ao ensino médio lidera com folga, somando mais de 1,2 milhão de matrículas. Na sequência aparecem os cursos subsequentes, voltados a quem já concluiu o ensino médio, com 832 mil alunos, e os itinerários de qualificação profissional, com mais de 517 mil inscrições.

Também ganha relevância a formação voltada à Educação de Jovens e Adultos (EJA), com mais de 134,9 mil matrículas em cursos de Formação Inicial e Continuada, indicando a busca por requalificação profissional fora da idade escolar tradicional.

Outro indicador importante é a taxa de integração entre ensino médio e educação profissional. A média nacional é de 20,1%, mas estados como o Piauí chegam a 68,8%, evidenciando desigualdades regionais na oferta.

Áreas mais procuradas refletem mercado

A distribuição das inscrições confirma a forte relação entre formação e empregabilidade. Os cursos mais procurados estão concentrados em quatro eixos principais: gestão e negócios, ambiente e saúde, informação e comunicação e controle e processos industriais.

Dentro desses segmentos, administração lidera com 395 mil alunos, seguida por enfermagem, informática e desenvolvimento de sistemas, áreas diretamente ligadas às dinâmicas econômicas contemporâneas.

Esse cenário nacional se conecta de forma direta à realidade de Bento Gonçalves, cuja economia combina indústria, comércio e turismo, exigindo formação diversificada e alinhada às necessidades do setor produtivo.

Qualificação alinhada ao mercado

No Senac Bento Gonçalves, a oferta de cursos é estruturada a partir de uma leitura contínua do mercado e da realidade econômica local. A instituição atua diretamente conectada aos setores produtivos do município, ajustando sua programação conforme as demandas identificadas. “A oferta da instituição é construída a partir de uma escuta constante dos empresários, sindicatos e comunidade do município e abrangência”, explica a diretora Lisangela Antonini. Segundo ela, há maior procura nas áreas de comércio, gestão, tecnologia da informação, gastronomia, saúde e turismo.

Lisangela Antonini, diretora do Senac-BG

Além de alinhar os cursos às necessidades do mercado, a instituição também investe na ampliação do acesso. “Através do Programa Senac Gratuidade, ampliamos a condição de ingresso em nossos cursos”, destaca.

A mudança no perfil dos alunos, com maior presença de jovens e adultos em busca de requalificação, tem exigido adaptações metodológicas e estruturais. “O Senac tem investido em metodologias centradas no aluno, com opções de cursos presenciais e EAD”, observa. Ela acrescenta que os formatos também foram flexibilizados. “Há uma adaptação nas ofertas, com cursos mais curtos e objetivos, alinhados às necessidades imediatas do mercado, além de cursos técnicos de longa duração para quem busca recolocação ou mudança de área profissional”, detalha.

Entre as áreas com maior adesão, a gastronomia se destaca como principal vetor de matrículas, refletindo uma tendência local e regional. Segundo a diretora, a estrutura acompanha essa demanda. “Nossos laboratórios possuem equipamentos de ponta, com recursos tecnológicos”, ressalta, ao mencionar também os ambientes de aprendizagem voltados às áreas de gestão, comércio e comunicação.

Acesso cresce, mas permanência ainda desafia

As estratégias de incentivo ao acesso têm impacto direto na procura, embora ainda existam limitações estruturais. “As estratégias de facilitação, como cupons de desconto, parcelamento e programa Senac de gratuidade, têm refletido em aumento de matrículas”, afirma. Apesar disso, ela pondera que a rotina dos estudantes ainda é um obstáculo. “Ainda existem barreiras à disponibilidade de tempo dos alunos, por isso também buscamos sensibilizar sobre o valor da qualificação profissional como investimento de médio e longo prazo”, complementa.

No contexto econômico de Bento Gonçalves, a atuação da instituição é vista como estratégica para o desenvolvimento. “O Senac Bento Gonçalves atua como ponte entre as necessidades do mercado e a formação de profissionais qualificados”, enfatiza, ao destacar a contribuição direta para a competitividade das empresas locais.

A evasão segue como um dos principais desafios da educação profissional, exigindo ações contínuas de acompanhamento e engajamento. “Investimos em acompanhamento pedagógico próximo, suporte ao aluno e ações de engajamento”, relata. A conexão entre teoria e prática é apontada como fator determinante para retenção. “Buscamos conectar o conteúdo à prática desde o início, o que aumenta a percepção de valor e contribui para a permanência”, acrescenta.
Outro diferencial está na formação integral dos estudantes, que vai além das competências técnicas. “Trabalhamos comunicação, trabalho em equipe, postura profissional, resolução de problemas e inteligência emocional de forma transversal”, ressalta.

Em relação ao cenário do interior, Lisangela aponta problemas estruturais, mas também oportunidades. “Entre os principais desafios estão a conciliação entre trabalho e estudo, a necessidade de atualização constante e, em alguns casos, a percepção de valor da qualificação profissional”, avalia. Por outro lado, ela observa vantagens competitivas. “O interior permite maior proximidade com o setor produtivo e maior capacidade de personalização das ofertas”, ressalta.

Para os próximos anos, a tendência é de crescimento alinhado às transformações tecnológicas e ao perfil econômico da região. “As áreas de tecnologia, especialmente ligadas à transformação digital, análise de dados e inteligência artificial, devem ganhar destaque”, projeta. Ela também aponta outros segmentos em expansão. “Turismo e bem-estar estão entre as áreas com grande potencial de crescimento”, aponta.

Indústria demanda qualificação

No Senai Bento Gonçalves, a formação profissional está diretamente conectada à base industrial do município, que segue ampliando a exigência por trabalhadores qualificados em diferentes níveis. “A indústria do município vem buscando cada vez mais profissionais qualificados, desde áreas operacionais até funções mais técnicas”, afirma a diretora Ana Paula da Silva. Segundo ela, essa demanda abrange desde atividades produtivas até posições com maior complexidade técnica.

Nesse cenário, os cursos de aprendizagem aparecem como principal porta de entrada para jovens no mercado de trabalho.

A atuação da instituição acompanha a diversidade do parque industrial local, com foco em setores estratégicos da economia regional.

Além da aprendizagem, a instituição amplia as possibilidades de qualificação. “Oportuniza outras formações, desde cursos de qualificação de curta duração até técnicos profissionalizantes”, acrescenta.

Jovens ainda são desafio para a educação profissional

Ana Paula da Silva, diretora do Senai-BG

O perfil dos alunos também vem passando por mudanças, acompanhando transformações sociais e econômicas. Apesar disso, a atração de jovens ainda exige esforço contínuo. No entanto, ela destaca um entrave recorrente. “Ainda há um esforço para sensibilizar os jovens sobre a importância da educação profissionalizante”, aponta.

A percepção de retorno imediato ainda influencia essa decisão. “Esse ganho não é percebido de forma imediata pelos estudantes”, pondera.

Diante disso, a indústria assume papel ativo na formação. “Quem mais busca o Senai são as empresas, que orientam e incentivam seus colaboradores a se qualificarem”, explica.

Programas locais também reforçam esse movimento. “O Senai oportuniza formações por meio dos programas Qualifica Indústria e Qualifica Bento, em parceria com o CIC Bento”, informa.

Estrutura e tecnologia aproximam ensino

O alinhamento entre formação e mercado é sustentado por atualização constante de infraestrutura e metodologia. A instituição acompanha a evolução tecnológica da indústria para garantir aderência na formação. “Estamos modernizando as escolas e adotando tecnologias embarcadas nos processos industriais”, ressalta.

Esse movimento também se reflete na atuação local. “Bento Gonçalves é atendida tanto pelo Centro de Formação Profissional quanto pelo Instituto de Tecnologia e Inovação”, destaca, ao mencionar a integração entre ensino e inovação.

A formação técnica, nesse contexto, se consolida como diferencial competitivo. “É um dos caminhos para inserção rápida no mercado e progressão salarial”, enfatiza.

A aprendizagem prática é um dos pilares desse processo. “Com infraestrutura robusta de laboratórios e oficinas, o Senai valoriza a formação aplicada, muito próxima da realidade da indústria”, afirma.

Além da estrutura, o corpo docente contribui para a qualificação. “Os instrutores possuem experiência e passam por constante atualização para garantir ensino alinhado ao mercado”, acrescenta.
A incorporação de novas tecnologias também ocorre de forma sistemática. “Os planos pedagógicos passam por frequentes atualizações para incorporar novos conhecimentos e tecnologias”, pontua.

Futuro da indústria

Além das habilidades técnicas, o mercado exige um perfil profissional mais completo, com competências comportamentais cada vez mais valorizadas. “Os cursos contemplam competências como liderança, autonomia, responsabilidade, trabalho em equipe, resiliência e disciplina”, destaca.
Mesmo com a modernização do setor, a percepção sobre a indústria ainda é um desafio para atrair novos profissionais. “O maior desafio é mostrar ao jovem o quanto a indústria se modernizou e pode oferecer boas oportunidades”, avalia.

Para os próximos anos, a expectativa é de ampliação da atuação, acompanhando a diversificação da economia local. “Estamos fortalecendo a aproximação com as indústrias para atendê-las de forma mais rápida e qualificada”, ressalta.

A prioridade segue alinhada à vocação regional, mas com expansão para novos segmentos. “O esforço está concentrado na madeira e mobiliário, mas também nas áreas metalmecânica, áreas administrativas mecatrônica, eletroeletrônica, tecnologia, plástico e alimentos e bebidas”, detalha.

Com foco no futuro, a instituição mantém monitoramento constante das demandas do setor produtivo. “Estamos sempre acompanhando as tendências para fortalecer a indústria gaúcha por meio da formação profissional”, conclui.